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Pastora Damares e o início da República de Gilead

A Pastora Damares,  Ministra da Mulher, Família e Diamantes (ops, Direitos Humanos) escolhida pelo Bolsonaro, deixa bem claro em sua recente entrevista à Folha de São Paulo qual o papel ideal da mulher brasileira: Ser dona da Casa Grande.

Vai mais longe a ministra com a sua ideia deturpada de família quando fala de sua preocupação com a ausência da mulher em casa por causa do trabalho, e quando retrata o ideal da mulher de ficar deitada em uma rede e o marido trabalhando para enchê-la de joias. É praticamente a reencarnação da sinhá, da esposa do Senhor de Engenho dos séculos 16 a 19.

Vamos ser sensatos, nos dias de hoje 50% dos trabalhadores brasileiros recebem por mês, em média, 15% menos que o salário mínimo. E, se com esse valor mal conseguem levar para a casa a necessária cesta básica, imagina comprar joias para suas esposas, companheiras ou namoradas. Quem sabe um dia aqui ou ali um colarzinho do camelô, um brinco que a vizinha vende, por que nem só de comida é feita a vida, mas longe, bem longe do ouro, prata e diamantes do sonho da pastora.

Isso sem falar dela achar que somente o homem deve ser o provedor do lar, quando hoje 40,5% dos lares são chefiados por mulheres que tem que ralar muito de sol a sol para alimentar seus filhos sem a presença de homem algum para ajudar na conta.

Para Damares, Família se resume ao pai, mãe e aos filhos que Deus mandar. Qualquer ambiente familiar que não tenha essa composição está fora do modelo padrão. Esqueçam as mães solteiras, filhos criados pelas avós (opa, esse é o general de pijama que não gosta), tutores e casais homoafetivos. Esses arranjos tão comuns no mundo de hoje não são “Família” para a Ministra dos Diamantes.

A violência contra mulher, aspecto muito importante e que tem aumentado no país, também é deixado de lado. Sejam elas, a violência doméstica e familiar, a violência sexual, o feminicídio, a violência de gênero na internet, a violência contra mulheres lésbicas, bi e trans e  a violência e racismo.

Insiro nesse contexto também a reforma (anti) trabalhista, que atinge diretamente a mulher e a família brasileira. Refiro-me principalmente aos artigos 394-A e 611-A, que aumentam o risco de estresse e adoecimento da mulher gestante e lactante em ambientes de trabalhos insalubres, com impactos diretos e indiretos em sua gestação e/ou na amamentação, podendo impactar na saúde de seu filho, e sendo mais uma preocupação para sua família (que obviamente nem vai pensar em comprar diamantes).

E por fim, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos deveria ter como premissa a defesa da mulher em todos os seus aspectos.  Chega a ser assustador a desconexão de suas falas com a realidade da família brasileira.

O conceito de família, não somente para Damares, mas também para quem a nomeou para o cargo de Ministra, é digno de uma ficção Científica. Esse será o começo de um longo pesadelo, ou The Handmaid’sTale (O Conto da Aia) em uma versão tupiniquim.

Wallace Ouverney
Diretor da Secretaria de Formação Politica do Sindipetro-ES desde 2015, Diretor Estadual CTB-ES e membro da Associação Cultural José Martí(ACJM/ES). 


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