Patrícia Miguez: Sobre o amor, o ódio e a perda

Um casamento dura quatro décadas quando há elementos como companheirismo, respeito, união, amor e uma dose muito grande de vida real. Foi assim que Lula e Marisa se conheceram: sem cenas românticas e melosas, dignas de filme. Ambos viúvos, ele tendo perdido a então esposa Maria de Lourdes e o filho que dava à luz; ela, uma jovem viúva e grávida que havia perdido o marido em decorrência de um crime.

Os dois se conheceram no sindicato e começaram a namorar por conta de um pouquinho de insistência da parte de Lula. 7 meses depois, se casou com Marisa e assumiu o filho que ela esperava como seu próprio.



É a história de uma das figuras políticas mais importantes da contemporaneidade, mas poderia ser a de qualquer casal de brasileiros. E, mesmo assim, é inspiradora. E o motivo é muito simples: companheirismo. Marisa Letícia nunca foi uma sombra ou esteve atrás do marido; ela sempre caminhou ao seu lado, seja na época de sindicalista, da Presidência da República ou nos últimos tempos de intolerância e ódio. Chega a ser emblemático o fato de que foi a própria Dona Marisa que costurou, ela mesma, a primeira bandeira do PT.

Não bastasse ter vivido em condições humildes, ter começado a trabalhar aos 13 anos de idade, não ter podido terminar os estudos, ter visto o marido preso pelo DOPS e tantas outras durezas e agruras, Dona Marisa passou por situações de ódio, intolerância e perseguição. Teve sua família atacada, violentada. Teve suas conversas telefônicas com o filho divulgadas de forma inconstitucional e sendo ouvidas por um país inteiro – parte dele, cega deste mesmo ódio.

A verdade (e agora uso este espaço para falar de forma muito mais pessoal e aberta do que jamais utilizei) é que não consigo imaginar o tamanho da dor que Lula sente neste momento. Não Lula, o ex-presidente, mas Luiz Inácio. Um brasileiro como eu e você, que perdeu não somente sua esposa, mas sua companheira de mais de 4 décadas, mãe de seus filhos, melhor amiga e aliada. Porque num momento como este, a questão deixa de ser política, mas humana. Nós sentimos sua dor.