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Sob o visgo da ditatura

Quem pensa que esse episódio, que muitos livros ainda insistem em chamar de revolução de 64, está dissociado dos dias de hoje, precisa refletir sobre a história e seus desdobramentos. O golpe militar de 1964 derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart em 1º de abril de 1964. No período do seu governo (1961-1964), um antropólogo de nome Darcy Ribeiro foi chefe da Casa Civil e um dos fundadores da Universidade de Brasília UnB, em 1962. Esse, influenciado por Paulo Freire, um educador, pedagogo e filósofo, aderiu ao movimento chamado pedagogia crítica de criação do próprio Paulo. Além de Florestan Fernandes, um sociólogo e político brasileiro. Foram 2 anos de pura liberdade de expressão e pensamentos independentes. Nascia aí uma onda de criatividade e produção de textos, usando autores nacionais e estrangeiros, que seguiam a mesma linha e com isso uma geração de jovens formadores de opinião. Estávamos crescendo com pensadores de vanguarda com base democrática e viés socialista. Isso a olhos internacionais, militares e uma classe brasileira burguesa de latifundiários, comerciantes, bancários, entre outros, se mostrou como uma ameaça. Essa fúria acumulada eclodiu no golpe. Imagina um Brasil com essa extensão territorial e um grande contingente populacional, seguindo um ideal igualitário, descolado dos princípios capitalistas e com promoção aos direitos humanos? É claro que não poderia ser aceito pelos dominadores, até então insatisfeitos com o governo de Goulart. Instaurou-se então, a ditadura, bancada por capital nacional e estrangeiro, que não queria que esse pensamento se alastrasse pela América Latina e Caribe. Através de operações contra os direitos humanos, uma delas chamada Operação Condor, cumpriu a ordem externa de exterminar o foco, no caso os pensadores e formadores de opinião. Muitas baixas e exílios. O Medo se alastrou e a mídia fez seu papel. Criada com esse capital nacional e estrangeiro, que até hoje, alimenta esses meios de comunicação, alienou, mentiu e apaziguou muitos acontecimentos. Tivemos assim, um hiato na história em termos de pensamentos libertários e dissociados da nefasta cultura do capitalismo a qualquer custo. Foram 21 anos que instaurou o medo através da repressão, décadas de escuridão e mediocridade que formaram pessoas no mesmo perfil.

Mas essas pessoas formaram famílias dentro desse mesmo contexto e o que vemos hoje não é diferente na essência em nada. Apenas tem uma roupagem diferente que despista a olhos nus. O processo de consciência, abortado todos os dias sob doses homeopáticas, é lento e cheio de avanços e retrocessos, mas contando com suas limitações, tem angariado simpatizantes que unidos pela causa das lutas de classe, ideal de igualdade, justiça e bem social, pressionam a corrente nazi fascista da forma com que pode. E assim seguimos aos poucos, lentamente, mas com a certeza de que estamos na direção correta.

Tania Furini, militante de esquerda.


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