Roberto Bueno: Da palavra à ação

Por vezes a imprensa tem a felicidade de deparar com sucessivas pautas relevantes, mas precisa trabalhá-las com algum cuidado durante dias até substituí-las para não cansar o público. Nos dias que correm isto não é válido, pois a renovação de informações de alto calibre e impacto público é alimento que chega às redações quase diariamente, sempre renovadas por sucessivos eventos e personagens, cujo texto e subtexto oscila entre o absurdo, a excrescência e o surreal.




O surreal já invadiu todos os altos salões e gabinetes da República que foram alvo do golpe de Estado de 2016. Dos mais altos órgãos jurisdicionais aos juízes singulares do interior do Brasil, dos gabinetes de 2/3 do Congresso Nacional a setores não menos volumosos dos Legislativos estaduais, todos eles já foram contaminados. Neste cenário os legalistas aristocratas insistem em jogar espesso véu sobre a população ao estimular a confiança no Poder Judiciário e indicar a “saída política” institucional. Já não há. O sistema está completamente corroído e corrompido, e a reconstrução política funcional, necessariamente, precisaria dar-se “por fora”, tarefa para a qual a sociedade civil não parece ainda ter acordado, pois teima em estabelecer uma relação de amor e ódio com o sistema representativo e os representantes hoje eleitos.

Estaríamos suficientemente afetados com o impacto de múltiplos absurdos que evocam nas casas legislativas a vida no reino de Deus em meio ao perverso mercado persa. Ao cenário mal-acabado em que triunfa o anticristo se somam, quase que diariamente, as diversas excrescências patrocinadas por um Governo que se orgulha de não ter votos e apenas por isto estar em condições de impor à força projetos como o teto dos gastos e a reforma trabalhista, uma grande derrota tanto para o povo e a democracia como para o estágio civilizacional experimentado pela sociedade brasileira. Estes trabalhos legislativos revelam de forma perfeita e bem acabada que o presente Governo é subversivo, é transgressor da ordem jurídica democrática, é violador da ordem constitucional que jurou respeitar, mas que trabalha para rompê-la em seus aspectos centrais, mesmo quando para isto precise realizar o aliciamento financeiro de políticos para que o apoiem em diversas votações no Congresso Nacional.




Temer mostra por inteiro as suas convicções autoritárias e a profundidade de suas simpatias ditatoriais em momentos em que realiza tentativa de persuadir a população da necessidade da implementação de políticas cujo corte é exclusivamente oligárquico. No dia 12 de julho de 2017 Temer somou à sua já longa lista de insanidades políticas superlativas uma avaliação político-cultural sobre a suposta vocação do povo brasileiro para a centralização político-administrativa, algo que, em meio a tantos fatos absurdos, excrescências e declarações surreais terminou por passar sem desfrutar da devida atenção da imprensa.

Neste último dia 12 de julho de 2017 Temer recordou o golpe militar de 1964, e nele supôs encontrar a concretização do gosto político popular, pois supostamente depararia com “[…] um organismo que comanda tudo”. Com tamanha incapacidade de compreender o Brasil e o seu povo não causa qualquer estranheza que a população brasileira reserve a Temer índices de popularidade próximos a zero. Não é apenas um homem mínimo como todos sabem, mas dotado de uma ignorância atroz, uma aplastante incapacidade de perceber o real para além do obscuro mundo das manipulações e negociações políticas, e que segue o curso natural da vida em suas dimensões, ou seja, envelhece, e envilece.

Temer não se constrange com cometer excrescência, mas logo as pratica em série, demonstrando que a sua capacidade de compreensão de teoria política e do constitucionalismo é diretamente proporcional à densidade de seu livro de direito constitucional e inversamente proporcional à sua idade cronológica. Nada além disto se pode deduzir de forma consequente de sua interpretação de que o povo brasileiro não é compatível com a descentralização e com o sistema democrático. Trata-se de uma avaliação absolutamente inaceitável à luz do mundo do real e que sequer tem a utilidade prática de reforçar algum projeto autoritário ou ditatorial.




Para o juízo analítico tortuoso do vetusto Temer o povo brasileiro simplesmente não compartilha dos valores ínsitos à democracia, e com isto revela desconhecer a história brasileira recente, no mínimo, de todos os homens e mulheres que resistiram bravamente (como ele não fez) às mentes similares à de Temer que perpetraram o golpe militar de 1964 e que agora em 2016 (com ele à frente) o reeditaram contra Dilma Rousseff. Quando sugere que o povo brasileiro não aprecia a democracia Temer quer esquecer de todos aqueles em quem ordenou bater e espancar por realizarem amplas manifestações contra o seu governo golpista, algo que não lhe custa muito, pois essencialmente crê que estas pessoas não são gente “parecida conosco”, tal como disse alguma vez em outro de seus momentos explícitos de senhor de engenho.

Temer expõe a sua antigramática política insana ao sustentar publicamente que “[…] a nossa visão [brasileira] não é compatível com a descentralização e com o sistema democrático […]”. Ao descrever o povo brasileiro como distante da democracia está a provocar diretamente a reação popular, está praticamente a convocar o povo para que eleja como tarefa urgente a sua derrocada, pois tudo quanto ele não representa é qualquer esperança, nem de respeito aos direitos típicos de uma democracia popular.

Para Temer o povo brasileiro se manteria distante e avesso aos fundamentos do Estado democrático de direito, pois não apreciaria a “[…] absoluta obediência à ordem jurídica […]”, algo que muito propriamente poderia ser dito dele próprio mais do que do povo, pois dele foi que ouvimos, com todas as palavras, uma gravação feita nas garagens do Palácio do Jaburu que bem denota qual o tipo de caráter possui e a ausência de respeito que mantém pela ordem jurídica e pelas instituições democrático-constitucionais. Temer atribui o desapreço pela absoluta obediência à ordem jurídica ao povo quando, em verdade, é a sua oligarco-gerontocracia que historicamente a produziu, alimentou (e alimenta) e continua a reproduzir.
Em face ao reino do surreal capitaneado pela quadrilha temerária, precisamos ir além da mera recordação das palavras de Horkheimer ao dizer que “Hoje, as palavras deveriam ser receitas prontas para a ação”. Neste caso ir além significa estar prontos para a ação, pois historicamente todos sabemos que os direitos nunca foram concedidos, mas apenas sob régia luta e defesa eles foram conquistados e mantidos. Após tantos diagnósticos corretos e muitos de extrema sofisticação intelectual, com Horkheimer, é preciso passar das palavras à ação, eis que isto é tudo quanto resta ao povo vilipendiado após as ações da quadrilha.

Roberto Bueno é professor na Universidade Federal de Uberlândia.