Priscylla Silva: E se 2018 não vier?

No dia 11 de maio, aquele dia 11 onde todos acreditavam que o maior problema da Dilma era com os familiares dos deputados, rodou nas redes um texto de um autor desconhecido que contava que ali faleceria a democracia: “Encerra-se nesta data o período de plenitude democrática inaugurado no país em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da ‘Constituição Cidadã’ ora revogada pelo impeachment”.

Quando li a primeira vez, como em todas as leituras que faço, prendi com o sentimento de impotência e desrespeito ao mais inegável composto da democracia que se desfalecia diante da TV em um domingo: o sufrágio universal. Isso ficou somente na primeira leitura. Ao abster do sentimento que me consumia, resolvi reler o texto e obter mais informação, além, lógico, da revolta, eis ai o questionamento: e se 2018 não vier?

A incerteza adveio no seguinte trecho: “Fica estabelecido que o novo regime exercerá o poder pela farsa e que as eleições serão mero exercício de manutenção das aparências, tendo o seu resultado respeitado apenas se ele coincidir com o interesse do poder dominante” – O PODER DOMINANTE. O questionamento deveria partir dessa premissa para compreender melhor sobre um futuro que talvez não venha e que provavelmente será retirado de nós: as eleições gerais. É inegável, até mesmo para o mais “direita” que o amigo possa ser, que estamos perdendo direito após direito desde o 1º dia que Temer e sua equipe “tomaram” posse, temos agora até um site (ALERTA SOCIAL) que vem elencando as perdas diárias e as peripécias do presidente biônico. Não são pouco os que comentam que houve diversas alianças para a derrubada da democracia brasileira, o que antes poderia ser apenas uma fachada para barrar a “Lava Jato” acabou criando um rolo compressor para implantação de uma politica de direita, neoliberal, individualista, altamente lucrativa e empresarial. Aqui, nesse momento, a favas a lava jato para estes. Justamente aqui que prende minha preocupação. Não foram poucos que, direta ou indiretamente, financiaram e participaram desse golpe. Empresários, políticos, partidos, grupos, mídia especulativa em decadência, agentes externos… Você acreditaria que tantos se dispuseram a tal feito por apenas 2 anos de governo? Seria esses 2 anos o suficiente para todos esses grupos que lucram com o golpe?

No blog “O Xadrez do Golpe”, no texto “Xadrez da democracia em transe e dos aprendizes de feiticeiro”, o jornalista Luis Nassif coloca em palavras como ninguém o medo que me segue: “Até que o país passe da democracia mitigada ao autoritarismo”. Não há como negar que o percurso do golpe seguirá para além de 2018. Não houve tantos esforços (e dinheiro) para o usufruto de apenas 2 anos. Igualmente acontecido há 52 anos (1964), os diversos segmentos das esquerdas não estão observando que a direita aprendeu com os erros dessa época, que 21 anos foram muito pouco. Ficaremos inertes, tão inertes quanto 64, com alguns parlamentares na tentativa frustrada de mostrar a repetição do passado, que só trouxe a resistência anos após o golpe. Assim como hoje, onde jovens estampam camisetas rostos como Marighella, Jango, Leonel Brizola, teremos nossos filhos e netos estampando rostos como de Gleisi, Lindbergh, Jandira, Pimenta, Vanessa e Dilma. A diferença será em alguns fatores: esses parlamentares e personalidades gostariam muito mais de lutas que memória.

julia3_0

Já não serão mais as “ruas” que devolverão o direito básico da democracia (voto). Os golpistas pouco se importam com as ruas ou opiniões da população. Menos ainda estão se importando com o peso da história. A favas de como a história será contata, até porque, lá no futuro (30 ou 40 anos), quando o golpe for cessado, teremos parlamentares para homenagear os inescrupulosos golpistas. Nossas lideranças estão perdidas. Por esse ser um golpe “branco”, não há possibilidade de investir nas chamadas “manifestações mais resistentes”. Ocupar ruas com cartazes, fazer sarau em DCE’s e gritar “Fora Temer” na arquibancada das Olimpíadas não ajudará em mais nada.

O caminho só será um e, infelizmente, nossas esquerdas não estão sabendo compreender isso. Espero eu que meus medos estejam errados, mas, no lugar dos que financiaram o golpe, jamais gostaria de ter apenas 2 anos para usufruir do meu caro investimento, eu ia querer usufruir mais.

Priscylla Silva é estudante de geografia na Universidade Estadual do MS e militante de esquerda.


Leia mais