Patrícia Miguez: Porque eu sou feminista e a “Marcha das Vadias” não me representa

O feminismo existe para trazer igualdade às mulheres, que ainda são as maiores vítimas de violência, recebem salários menores para desempenhar as mesmas funções que homens, têm dupla jornada de trabalho, são assediadas diariamente nas ruas, entre outros problemas que, se fossem enumerados, seriam suficientes para escrever uma coluna apenas sobre eles.

A Marcha das Vadias se iniciou em 2011 no Canadá quando, após vários casos de assédio, um policial resolveu dar a infeliz declaração de que “as mulheres deveriam parar de se vestir como vadias”. Embora ache a motivação inicial muito válida, realmente discordo do que o movimento se tornou.

Não irei nem entrar na discussão de que, ao meu ver, nenhuma mulher deveria ser chamada de “vadia“, independente da roupa que esteja usando e que, portanto, acho péssimo que as próprias feministas estejam usando este termo. Irei discutir as conseqüências políticas e sociais, apenas. (Sim, eu sei que o uso da palavra tem uma certa ironia. Ainda assim não gosto de ver mulheres serem chamadas assim, mesmo que ironicamente).




A Marcha das Vadias é um movimento puramente feminista-de-classe-média, que é excludente: quem mais precisa do movimento feminista e mais precisa de acolhimento dentro dele são justamente as mulheres periféricas, de classes sociais mais baixas e que estão muito mais expostas à violência, ao assédio e à desigualdade causados pelo machismo.

O empoderamento deveria começar justamente com as milhares de Marias, Anas, Cláudias, Marinas e Paulas que vivem atualmente em favelas e bairros periféricos, ganhando salários extremamente inferiores aos de seus maridos ou parceiros; que acordam as 5h da manhã para preparar o lanche das crianças e levá-las à escola, têm uma jornada de muitas vezes mais de 8h de trabalho, chegam em casa muito depois das 20h por conta do transporte público lotado e ineficiente e, depois disso tudo, ainda têm uma casa para limpar e o jantar e almoço do dia seguinte para preparar.

Eu não acho que o valor de uma mulher deva ser medido por suas roupas. Não acho que nenhuma mulher deva ser chamada de vadia (e muito menos assediada), mesmo que saia na rua completamente nua ou com os peitos de fora.

Mas também não quero fazer parte de um movimento feminista que consiste em mulheres nuas com cartazes gritando palavras de ordem, que apenas espanta justamente quem mais precisaria dele. O meu feminismo é inclusivo, o meu feminismo quer dar as mãos a todas as mulheres e falar a língua delas.