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Pensando a Educação

Muitos dizem que o problema deste país é a educação, querendo dizer a falta dela. Faltaria escolaridade ao nosso povo, que seria praticamente analfabeto e por isso propenso a ser enganado por políticos e lideranças espúrias.

Quanto mais afundamos na crise geral que nos assola, menos essa frase me parece verdadeira. Claro, educação nunca é demais e um maior investimento nela é sempre bem-vindo. Mas o que me chama atenção nesses tempos de crise, e mais, nas já famosas jornadas de 2013 que derivaram no mais cretino golpe jurídico-parlamentar que eu já tinha visto, é a participação daquela parcela dita educada da população.

Foram os mais educados, moradores dos Jardins, Morumbi, Ipanema e Leblon, educados nas melhores escolas particulares e formados nas melhores universidades do país que saíram às ruas com camisas da CBF a protestar contra a tal da corrupção (que sempre esteve aí) e pedindo intervenção militar. Apoiaram cada voto “sim” na vergonhosa votação do impeachment, e colocaram no poder justamente o grupo mais corrupto que havia à disposição. E comemoraram – “agora vai!” Não foi, é claro.

Foram os muito educados empresários, congregados na FIESP, na FIRJAN e suas congêneres país afora que deram suporte à mudança da CLT e da lei da terceirização, com os argumentos profundamente mentirosos de “assim vamos ajudar a promover empregos”. Claro que não ajudou. O que promove empregos é crescimento econômico. Ninguém emprega dois engenheiros quando precisa só de um só porque agora custa a metade. Mas o que me impressiona é – como esses empresários pensavam assim? Acreditavam que seus negócios iriam prosperar enquanto os clientes padecem no desemprego, subemprego e miséria? Que venderiam sempre mais e mais caro enquanto os salários de quem compra seus produtos só perdem valor? Como pode gente tão educada pensar de forma tão obtusa?

Foram também os educadíssimos desembargadores, juízes e promotores públicos, todos eles profissionais aprovados nos mais disputados e difíceis concursos públicos, que suportaram todo o golpe na sua vertente jurídica, com processos midiáticos, prisões seletivas e espetacularização da justiça.

Ok, o povo, aquela plebe à qual falta educação tampouco é isento de culpa, pois no mínimo se omitiu do jogo mais uma vez. Os morros nunca desceram para as manifestações de qualquer dos lados. Contentaram-se em vender água e biscoito Globo aos manifestantes, como sempre fazem. Fariam diferente se fossem mais e melhor educados? Eu realmente não sei. Mas fico pensando:

Que educação é essa que temos que faz com que trabalhador vote em empresário como seu representante?

Que educação é essa que permite que milhões de pessoas todos os dias caiam no engodo de discursos falso-moralistas de pastores milionários?

Que educação é essa que leva a que se acredite que retirando imposto de milionários a vida vai melhorar para os mais pobres?

Que educação é essa que não transmite a menor consciência de classe? Que faz com que um trabalhador assalariado não se perceba como tal, mas acredite no fundo do seu ser que é parte da elite?

Que educação é essa que faz com que a classe média só se sinta satisfeita quando aumenta o abismo que a separa dos pobres?

Não tenho a resposta. Mas posso dizer que, se falta educação ao Brasil, certamente não é essa que se tem há séculos e que forma a mente dos 5% de cima da pirâmide social. Há que ser outra. Uma que forme consciência de classe, habilidade crítica, conhecimento histórico, capacidade de análise e argumentação. Uma que não forme apenas “mão de obra qualificada”, mas mentes argutas e cidadãos conscientes.

Wallace Ouverney é Petroleiro, Dirigente Sindical licenciado do Sindipetro-ES, e Dirigente Estadual licenciado CTB-ES. Membro atuante da ACJM-ES e militante pelo PCdoB.


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