Pela restauração da democracia, Paulo Pimenta espera que Dilma passe a faixa para Lula, em 2019

Em entrevista ao Debate Progressista, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) tratou de diversos temas que abrangem o momento atual da política brasileira.

ppEle respondeu perguntas acerca das consequências do Golpe de 2016, participação do PSDB
no processo de ruptura democrática, sobre os movimentos que buscam o restabelecimento da democracia, além de falar sobre o papel da imprensa em todo esse processo e da relação de Temer com o poder judiciário.

Paulo Pimenta afirma que a única maneira de se restabelecer a democracia no Brasil é a realização de eleição direta para presidente e que a mobilização popular deve seguir essa matiz.

O deputado demonstrou estar convicto da volta do Lula ao Palácio do Planalto e que Dilma Rousseff deveria passar a faixa ao ex-presidente num gesto simbólico que marcará a derrota do golpe e o restabelecimento da democracia brasileira.




Confira:

Na atual conjuntura, com o golpe em curso, quais serão as consequências para o Brasil no curto e médio prazos?

As consequências do golpe são muito mais amplas do que somente a democracia brasileira ter sido atingida. Os verdadeiros objetivos do golpe são de natureza econômica: a venda do pré-sal; a destruição do Estado brasileiro – especialmente na educação e saúde – para abrir novos mercados para a iniciativa privada; a destruição da previdência para viabilizar o novo e enorme negócio para os bancos na área da previdência privada. É um processo estrutural, que atingiu de maneira muito profunda a engenharia brasileira, a industria brasileira, e que – do ponto de vista econômico – só interessa às grandes empresas e aos grandes conglomerados multinacionais, que passam a ter um protagonismo muito maior em termos de possibilidade de investimento no nosso país.

Qual é o papel do PSDB no Golpe de 2016? O partido poderia estar de olho na cadeira presidencial, já que na urnas é sonho distante?

O PSDB, do meu ponto de vista, é a inteligência do golpe. O PMDB é aquele partido que, descaradamente golpista e mergulhado profundamente em esquemas de corrupção, nesse momento histórico, cumpre o papel de fazer o trabalho sujo. Comandou o golpe, já tem Eduardo Cunha preso, é um governo sem legitimidade, com curto prazo de validade e de maneira acelerada faz da sua pauta de desmonte do Estado brasileiro uma corrida contra o tempo. Mas sabe que do ponto de vista de uma alternativa política estável para o país o PMDB não se viabiliza. Então ele cumpre esse papel e, num segundo momento, o PSDB aparece como uma alternativa real, com confiança e apoio do mercado e garante um espaço de protagonismo para que o PMDB mantenha e continue fazendo esta relação fisiológica com o Estado brasileiro, que faz desde a época do final da ditadura.

Existem os movimentos “Diretas Já” e “Anula Já”. Um depende do Congresso, que ‘assassinou’ a Constituição; o outro, do STF, que está inerte. Qual a sua visão acerca desses movimentos?

Eu acho que todo o movimento que tenha como objetivo desmascarar o sentido do golpe é importante. O movimento “Anula Já” é um movimento importante, mas nós temos sempre que considerar que é um movimento que terá como ponto de chegada o Supremo Tribunal Federal, e eu não creio numa solução para o golpe que não passe pela mobilização popular. Na minha opinião o processo de mobilização popular deve ser direcionado para uma luta para derrotar o golpe e imediatamente realizar eleições. Um novo pacto econômico e político necessário para que o Brasil possa sair da crise não ocorrerá sem sem a legitimidade do voto popular, e por isso, sem deixar de apoiar aquelas pessoas que estão militando – trabalhando em favor da anulação do golpe -, eu creio que a bandeira das “Diretas Já” é uma bandeira que tem mais potência, que mobiliza e que pode nos levar efetivamente a criar o ambiente necessário para derrotar o golpe.

Qual é o papel da imprensa no Golpe de 2016?

A imprensa no Brasil tem um papel central como protagonista do golpe e constrói uma narrativa cotidiana que busca legitimar os atos mais perversos do governo do golpista de Michel Temer e sua “quadrilha”. Trabalhou de maneira decisiva para viabilizar as condições políticas de afastamento da presidenta Dilma, protegeu Eduardo Cunha enquanto era necessário para que ele cumprisse o ritual da votação do impeachment na Câmara dos Deputados e hoje trabalha de maneira calculada para que Temer possa concluir o processo de desmonte do Estado brasileiro, com a votação da reforma da previdência, da reforma trabalhista e, tão logo seja necessário e possível, em vista do próprio calendário do mercado, a possibilidade de viabilizar uma nova solução, que certamente vai passar pelo PSDB. Não há outra maneira de derrotar esse projeto golpista que não seja com mobilização popular, com voto popular. Por isso que a resistência por parte da sociedade é fundamental. E a reforma da previdência, especialmente, será uma possibilidade grande de criarmos um ambiente favorável para que as pessoas compreendam, definitivamente, o sentido do golpe e que saiam às ruas para defender a democracia e os seus direitos. “Nenhum direito a menos”, “em defesa da democracia”: são essas as bandeiras que podem nos levar à mobilização necessária para derrotar o golpe.

Você acredita na possibilidade de não haver eleição presidencial em 2018?

As eleições de 2018 para os golpistas é uma possibilidade absolutamente em aberto, como não há uma certeza sobre o que acontecerá com o governo Temer. Existe uma possibilidade efetiva, prevista na Constituição, de uma eleição indireta que pudesse levar – por exemplo – um tucano ao Palácio do Planalto. Não é descartável a possibilidade de que se pense numa alteração do calendário eleitoral. Evidente que isso terá uma enorme reação do ponto de vista popular, do ponto de vista social, mas, na estratégia dos golpistas, não teria sentido rasgar a Constituição e fazer tudo o que estão fazendo para em 2018, simplesmente, devolver o governo ao Lula, até porque parte da oposição não tem uma candidatura competitiva e que pudesse fazer frente ao candidato do Partido dos Trabalhadores.

Gostaria de ver a presidenta eleita Dilma Rousseff passando a faixa pro Lula em janeiro de 2019?

Do ponto de vista simbólico, independente do que a legislação possa prever, eu imagino um momento histórico de reconciliação do papel com a democracia, com um grande ato em frente ao Palácio do Planalto, aonde o presidente Lula reassume a presidência da República, legitimado pelo voto popular e, do ponto de vista simbólico, a presidenta Dilma passa para ele a faixa presidencial. Haverá o reconhecimento de nossa parte. Uma convicção de que o Brasil com a eleição de Lula estaria retomando a normalidade democrática. Eu acho que esse gesto é o gesto que todos nós perseguimos para que a democracia seja recuperada no nosso país.

Um filme sobre a Lava Jato será lançado em maio. O que tens a dizer sobre ele?

Eu considero que esse filme sobre a Lava Jato é parte de uma estratégia de criminalização do PT e do presidente Lula que se utiliza de diversas ferramentas, e o cinema, historicamente, sempre foi utilizado pra isso. É um filme que revela uma relação incestuosa entre o investidor privado anônimo e a Polícia Federal, com uma narrativa absolutamente seletiva e que procura constituir uma versão de como a Polícia Federal enxerga esse momento histórico e tem como único alvo o PT e o Lula. Eu, inclusive, encaminhei uma série de pedidos de informações e de requerimentos porque, do meu ponto de vista, é uma relação absolutamente estranha, e existe um conjunto de indícios de irregularidades graves nessa relação estabelecida entre a Polícia Federal e os produtores desse filme.

Existe algum tipo de aliança entre Temer e o poder judiciário?

A indicação do Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal; o foro privilegiado concedido pelo STF ao Moreira Franco; a decisão do STF de impedir que Moro possa investigar Sarney, dando a ele o foro privilegiado. Todas são sinalizações muito claras de uma aliança sórdida que envolve o Palácio do Planalto, setores do poder judiciário, do Ministério Público Federal, e que buscam soluções à revelia daquilo que a legislação prevê, para blindar figuras chaves que pudessem se considerar descartadas pelo golpe e se tornarem uma ameaça ainda maior ao governo golpista. A única questão que até agora não conseguiu ser equacionada é a prisão de Eduardo Cunha. E cada vez mais uma delação de Eduardo Cunha se torna algo possível e provável, e com informações de conteúdo suficiente para derrubar o governo Temer e levar os principais protagonistas do golpe a fazerem companhia ao ex-presidente da Câmara na carceragem de algum presídio pelo país. É isso que nós esperamos que aconteça o mais rápido possível.