Patrícia Miguez: o que aprendemos (ou deveríamos aprender) com o caso do Catraca Livre

Gafes jornalísticas podem ocorrer a qualquer momento. Ninguém está imune, pelo simples fato de que somos humanos; e humanos erram, fato.

Só que já diz o ditado: “errar é humano; insistir no erro é burrice“. E se insistir no erro é burrice, insistir duas, três, quatro, cinco vezes é algo para o qual acho que nem há palavras para definir. Foi isso que fez o Catraca Livre e é justamente o que a mídia em geral precisa aprender e não repetir.

Uma coisa é verdade: o público está ficando mais exigente. Está bem mais difícil que coisas como machismo, homofobia, racismo e sensacionalismo descabido passem batidos. E isso é simplesmente maravilhoso.




Mas vamos lá: o site em questão faz uma série de matérias de gosto bem duvidoso após um acidente terrível que matou várias dezenas de pessoas incluindo os atletas do Chapecoense, membros da equipe técnica, jornalistas e membros da tripulação da aeronave. O fato por si já é extremamente doloroso para familiares, amigos e torcedores. Algumas destas matérias continham vídeos de pessoas em estado de pânico durante acidentes aéreos e selfies dos jogadores, horas antes de suas mortes.
Vários leitores os confrontaram nos comentários do Facebook, cobertos de razão ao afirmarem que era um sensacionalismo absurdo e desnecessário e que lhes faltou empatia ao se aproveitarem do momento delicado para conseguir alguns cliques.

O que já tinha ocorrido até ali era vergonhoso; o que veio depois foi não apenas a prova definitiva da falta de bom senso dos “jornalistas” ao lidarem com a situação, mas um festival de rebosteio (e peço perdão pelo vocabulário, mas outra palavra não serviria. É “rebosteio” mesmo): o Catraca Livre passou a emitir uma nota de “desculpas” diferente a cada meia hora – uma pior que a outra.

A primeira delas basicamente culpava os leitores por “não terem entendido” o que eles chamavam de “mostrar outros lados da tragédia” que “eram relevantes jornalisticamente“. Óbvio que não colou. Como se não bastasse, insistiram no erro de pedir desculpas tentando se justificar e sem assumir o erro de verdade.




A última tentativa foi uma postagem do próprio criador do site, Gilberto Dimenstein, na qual assume toda a culpa pelo absurdo, não sem antes frisar que “ganhou vários prêmios jornalísticos“, num ato de carteirada e sem nenhuma humildade.

A lição a ser aprendida é a de que devemos ter muito cuidado ao lidar com assuntos delicados, claro. E que, mesmo assim, às vezes erramos, porque humanos somos. Mas que, quando isto ocorrer, precisamos da humildade de pedir desculpas sinceras, porque a insistência no erro é pior que o erro em si.