Patrícia Miguez: O povo que está se tornando fascista

Tive uma experiência recente que me lembrou muito um livro (que por sinal, recomendo): Como Conversar Com Um Fascista, da brilhante Márcia Tiburi.

Ao entrar num pequeno mercado de bairro, próximo à minha casa, percebo uma daquelas promoters que oferecem degustação de produtos. Vejo o nome da marca, da qual já gosto, e a mulher em questão comenta que trabalha nela há algum tempo e que os donos pretendem lançar um produto novo: um patê à base de soja orgânica, que já é usado como recheio para os sanduíches produzidos por eles (que eu particularmente adoro). Respondo que seria muito bom se isso acontecesse.

A conversa que se seguiu a partir daí me deixou extremamente perturbada pelo resto do dia.

– Estamos tentando lançar. Mas com esse governo aí tá complicado. E ainda tem gente ignorante e burra que apoiava essa Dilma aí.

– Realmente, concordo que o governo dela não foi o melhor possível, especialmente pra economia. Mas agora, com um golpista no poder podando direitos fundamentais dos trabalhadores é que a coisa vai ficar horrorosa.

– Ah, não sei. Sinceramente, acho que a única solução seria o exército intervir. 

Nesse ponto da conversa eu percebi que aquilo já estava longe demais. Eu tinha começado uma conversa sobre patê. Patê. Eu queria falar de patê, não de intervenção militar. Eis que continuo:

– E viver numa ditadura de novo? 

A mulher começou um discurso inflamado sobre como o governo militar foi o melhor que o Brasil já teve, no qual apenas criminosos “como aquela guerrilheira da Dilma que merecia morrer” tinham algo a reclamar.

Naquele momento ela já estava vermelha, quase espumando e já havia levantado e muito seu tom de voz. Me encarava com uma expressão de puro e simples ódio: tudo o que estas pessoas têm a oferecer. Percebi que não valia a pena, e continuei ouvindo apenas algumas palavras soltas (me lembro de “comunistas“, “Hugo Chávez“, “Lula“, “bolivariano” e “Cuba” – ah, Cuba, sempre Cuba…) enquanto caminhava em direção à padaria do mercado: tinha vislumbrado um bolo de côco que valia muito mais à pena do que uma discussão com uma fascista.

O bolo, por sinal, estava ótimo. Bem fofinho.


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