Patrícia Miguez: O endeusamento de Sérgio Moro pela direita

Sempre costumo dizer que a direita sente uma necessidade extrema de possuir ícones. Não sejamos hipócritas, a esquerda também tem um histórico com figuras como Fidel, Lula, Che e etc. Tenhamos autocrítica. Entre os mais conservadores, porém, muitas vezes chega a um extremo do endeusamento.

O ícone contemporâneo do coxinha mediano é Sérgio Moro: não é muito difícil ver faixas e placas (e até avatares de Facebook) com frases de efeito a lasomos todos Sérgio Moro“, como se este fosse algum tipo de herói nacional; um tipo de paladino disposto a limpar o país de toda a corrupção. Moro é apenas um juíz fazendo seu trabalho e, ainda por cima, de maneira duvidosa e partidária (tucana).

Os mais extremistas, que acham que partidos como PSDB são insuficientemente conservadores, têm outros heróis. Geralmente figuras autoritárias e fascistóides cujos nomes nem valem a pena serem mencionados.




Mas algo que particularmente me chama a atenção é que, antes da Lava Jato, o coxinha médio tinha um outro herói, um personagem fictício: antes de Sérgio Moro ter ficado conhecido da grande mídia, estas mesmas pessoas idolatravam o Capitão Nascimento (interpretado por Wagner Moura) e repetiam desvairadamente falas do filme Tropa de Elite, de José Padilha.

Vale lembrar, inclusive, que Padilha foi acusado (injustamente, diga-se de passagem) de fascismo por alguns que não entenderam seu filme: Tropa de Elite nunca teve a intenção de defender figuras que atiram primeiro e perguntam depois (isso fica bem mais claro na continuação, Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, cuja história foi inclusive baseada na CPI das Milícias, comandada por Marcelo Freixo). Para entender esta questão, vale a pena mencionar que o próprio diretor já explicou que Tropa de Elite faz parte do mesmo arco dramático do ótimo Ônibus 174.

Curioso, também, é o fato de que alguns continuam a usar frases do filme para criticar atitudes do ator Wagner Moura, que é declaradamente progressista, contra o golpe e crítico da direita brasileira, numa clara confusão entre ator e personagem.

O que eu quero dizer com tudo isso? Que essa gente não faz o menor sentido.