Patrícia Miguez: O bizarro e injusto sistema eleitoral norte-americano

Um sistema eleitoral no qual um candidato recebe mais votos e ainda assim não é eleito não pode ser considerado justo – e é exatamente o que ocorre com o sistema eleitoral americano. Hillary Clinton foi mais votada que Donald Trump e mesmo assim ele se elegeu. Isto acontece graças ao processo complicado, injusto e bizarro que é usado por lá.

No Brasil, é muito simples: todos nós votamos e os votos são somados; aí conta-se apenas os votos válidos e define-se quem recebeu mais. Mas o sistema dos EUA falha na simplicidade.

Por lá, a votação é estadual e não nacional. Parece estranho (e é, muito) e faz com que, na prática, os votos só valham dentro do próprio estado. É como se cada estado americano realizasse sua própria eleição, e aí entram os famosos delegados. Cada estado possui uma quantidade deles (e eu nem vou tentar explicar como esta quantidade é definida simplesmente porque o Partido Democrata possui um documento de 165 páginas sobre este assunto, enquanto o Partido Republicano tem outro, de 40 páginas).




Num dado estado, suponhamos que o candidato Democrata receba 51% dos votos e o Republicano 49%. Todos os delegados daquele estado passarão a contar em favor do candidato Democrata – mesmo que o Republicano tenha recebido quase metade dos votos. É o que é chamado de “The Winner Takes It All” (Algo como “O Vencedor Fica com Todos”).

No final das contas, o efeito causado por isto é bastante simples (mesmo o processo todo sendo complicado): alguns poucos estados é que definem o rumo das eleições.

Por exemplo, a Califórnia é um estado tradicionalmente Democrata e nenhum Republicano espera ganhar por lá. Por outro lado, o Texas é extremamente Republicano, o que faz com que Democrata nenhum consiga os delegados daquele estado.

O resultado geral das eleições acaba sendo definido pelos “swing states“, ou seja, aqueles que não têm um histórico com nenhum lado político. Mas isso acaba desencorajando, e muito, o voto em algumas situações:

Digamos que você seja um progressista que mora na Califórnia, um estado basicamente Democrata. Sendo o voto facultativo e sabendo que os Democratas levam no seu estado, você acaba simplesmente não votando, afinal, na prática, seu voto não faz nenhuma diferença no panorama nacional.

Por outro lado se, tendo a mesma visão política descrita acima, você mora no Texas, me responda: qual a motivação para sair do conforto da sua casa em direção às urnas sabendo que o candidato Republicano levará todos os delegados de lá e seu voto não contribuirá no cenário nacional?

Em toda eleição, quem define os votos são estados como Iowa, Ohio e Flórida – tanto é que justamente nestes estados é que qualquer candidato à presidência foca sua campanha (afinal seria inútil um Democrata fazer campanha demais onde já tem certeza da vitória ou onde não tem chance alguma, por exemplo).

A conclusão é que se a eleição entre Trump e Clinton tivesse acontecido pelas regras Brasileiras, Clinton teria sido eleita, e não Trump. E a voz do país inteiro teria sido ouvida.


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