Patrícia Miguez: Lula tem direito a passar por seu luto

A morte é o único dos problemas que a humanidade ainda não conseguiu contornar (e provavelmente não iremos, nunca) e, justamente por isso, provavelmente a maior das amarguras pelas quais absolutamente todos nós um dia passaremos. Ninguém, absolutamente ninguém, está imune a ela e, um dia, sentiremos a dor do luto. É um fato.

A dor da perda, especialmente quando repentina, é imensurável: podemos medir distâncias em metros ou milhas; até mesmo o som em decibéis ou a energia em joules. Mas não há unidade de medida para a dor justamente porque ela é disforme e extremamente íntima. O processo de luto de cada um de nós é extremamente pessoal e diferente: há aqueles que precisam se cercar de amigos ou familiares e os que precisam passar por tudo isso sozinhos – não há forma certa ou errada.

No meio disso tudo e tendo perdido sua companheira de uma vida, o ódio aparece mais uma vez frente a Lula na forma dos fiscais de luto, que querem decidir pelo ex-presidente como deve se portar no momento da perda.

Lula e Marisa se conheceram na política; ela foi o combustível de toda uma vida. Se conheceram no movimento sindical do ABC e viveram uma vida dedicada a ele. É natural que o assunto apareça nas falas sobre sua morte.

Mas, como se não bastasse estar passando pela maior dor de sua vida, Lula ainda precisa lidar com o ódio daqueles que o acusam de “se aproveitar da situação” ou de “fazer o caixão de palanque”, como a desumana e odiosa “jornalista” Joice Hasselmann. Não, Joice, Marisa não envergonhou ninguém; você, pelo contrário, envergonha toda a classe de jornalistas com seus comentários recheados de ódio.

Joice e todos os raivosos sedentos de sangue, os lembro: a linha que separa a civilidade da barbárie é a capacidade humana de empatia com os nossos iguais, especialmente em momentos de perda ou luto.

Sejamos humanos.