Patrícia Miguez: “Agora tudo é machismo” ou “manual de como abordar uma mulher sem ser um babaca”

É absurdo que, em pleno 2016 – praticamente 2017, muitas mulheres tenham medo de se assumirem feministas. É absurdo que um movimento que defende direitos das mulheres e igualdade, pura e simples igualdade, esteja sendo marginalizado. É mais absurdo ainda que estas mulheres, ao levantarem suas vozes, sejam acusadas de serem “feminazis” ou de achar que “agora tudo é machismo“.

Depois do recente episódio em que a youtuber Carol Moreira foi assediada pelo ator Vin Diesel ao simplesmente fazer seu trabalho de entrevistá-lo, boa parte da internet passou a tentar vasculhar a vida da garota na tentativa de encontrar qualquer coisa que pudesse desmerecê-la: alguns a acusaram de “não ser bonita” (como se isso tornasse o assédio menor ou se fosse alguma vantagem para ela ser assediada caso não o fosse) ou desenterraram imagens em que ela aparecia no colo de outro homem (parece realmente difícil para algumas pessoas entenderem que quando as duas pessoas desejam algo, ou seja, há consentimento, a situação é outra; na cabeça de tais criaturas, deve fazer sentido que se uma mulher quer ter algo com um homem, logo deve querer com todos).

Mas Carol é só mais uma das vítimas do assédio. É difícil ser mulher num tempo em que simplesmente andar na rua é motivo de ouvir as cantadas mais nojentas e absurdas possíveis. Acreditem, quando pensamos que não podemos ouvir coisas piores do que as que já ouvimos, somos surpreendidas.




E não podemos reclamar: nossa obrigação é nos mantermos quietinhas e caladas pois, se abrirmos a boca, somos acusadas de “ver machismo em tudo“. Coitados dos homens, que “não podem mais elogiar uma mulher ou chamá-la para sair“.

Uma coisa que detesto é ter que explicar coisas óbvias, que qualquer pessoa minimamente alfabetizada deveria saber. Mas, aparentemente, faz-se necessário. Então, homem machista, lhe farei um grandioso favor: vou lhe explicar como puxar conversa com uma mulher sem ser um perfeito babaca.

Não vou nem começar dizendo que “mulheres gostam de elogios“, porque mulheres são seres humanos (mais uma vez, algo óbvio que estou precisando explicar) e seres humanos gostam de ser elogiados. Mas lembre-se de algo importante, que eu já disse nos parênteses acima e vou repetir: mulheres são seres humanos. Aquela moça que você achou linda não é um pedaço de carne, entenda isso. Ela tem idéias, ambições, sonhos, vontades, medo. Ela tem uma história de vida. Tente não elogiá-la apenas pela aparência física, mas também com qualidades psicológicas: se você a acha inteligente, deixe claro; se acha que ela tem um bom papo, que é divertida, etc. OK, talvez você ainda não a conheça suficientemente para tanto. Neste caso, tenha educação! Não use adjetivos vulgares como “gostosa” nem frases imbecis como “ô, lá em casa!“: além de soar como um perfeito imbecil, nenhuma mulher vai aceitar sair com você desta forma.

A regra é: não trate nenhuma mulher de uma forma que você não gostaria que sua mãe ou irmã fosse tratada. É um absurdo ter que falar isso, porque mulheres deveriam ser respeitadas simplesmente por existirem e serem seres humanos, mas aparentemente é a única forma de fazer alguns homens entenderem! Lembre-se, aquela mulher não te conhece e talvez tenha medo de certas situações, ou simplesmente se sinta desconfortável.

O ponto chave é: sim, você pode chamar uma mulher para sair. Mas, se for elogiá-la, se ponha no lugar dela e não a trate como um objeto. Há uma diferença crucial entre “Ô gostosa, vamos lá em casa?” e “Tudo bem com você? Te achei muito bonita, será que gostaria de tomar um (insira sua bebida favorita aqui) comigo?“. E entenda, principalmente, que ela tem todo o direito do mundo de recusar, mesmo que seja solteira.

Não seja um babaca. O mundo já tem babacas demais.