Pablo Villaça: ‘O Brasil encontra-se sob Estado de exceção, com direito a polícia política e tudo mais’





No fim-de-semana, o “ministro” da justiça (tudo em minúsculas) do “governo” de Temer, o Pequeno, foi a um comício do PSDB, partido que perdeu as últimas eleições mas que agora se encontra como parte do “governo” (mas não é golpe!). Durante o comício, o sujeito – que também estava fazendo a ponte do “governo” com seus novos porta-vozes, o apartidário MBL – disse algo curioso:

– Não se preocupem, esta semana vai ter mais (lavajato)!

Ele estava em Ribeirão Preto. Hoje, Antonio Palocci (que – vejam a coincidência – mora na cidade) foi preso como parte da operação #HojeTEM (bem que o “ministro” disse que teria, numa outra coincidente escolha de palavras).

Ora, a PF havia informado o “ministro” sobre a operação sigilosa? E, como se não bastasse, o “ministro” vazou esta informação num COMÍCIO DO PSDB?

Nada, tudo – de novo – coincidência.

(suspiro)

Antes de qualquer coisa, devo dizer que, particularmente, abomino Palocci. Foi com ele que percebi que a esquerda sonhada na eleição de Lula não seria a esquerda que o governo adotaria. Com o passar dos anos, Palocci passou a simbolizar, pra mim, o sacrifício dos ideais da esquerda em prol de um “pragmatismo” que tirava a essência de boa parte do que buscávamos – e cujos resultados estamos vendo hoje. Além disso, a história do caseiro sempre me soou como um flagrante abuso de poder.

Dito isso, NADA justifica o uso político da PF e do judicário. Nada.

É inaceitável que Moro tenha feito gravações ilegais e, como se não bastasse, vazado-as para a mídia. É inaceitável que o “ministro” não apenas seja informado sobre operações sigilosas da PF como ainda vaze-as em comícios políticos. É inaceitável que Cunha, Aécio, Serra, Jucá, Temer e cia. – contra os quais há diversas delações e, em certos casos, fartas PROVAS – sigam livres por não serem do PT.

Ao conceder basicamente poderes irrestritos a Moro, o TRF4 admitiu que o juiz agiu de maneira que “normalmente” seria punida, mas optou por torná-lo intocável com a justificativa de que a lavajato é “importante demais”.

Para quem ainda não compreendeu o que está havendo: o Brasil encontra-se sob Estado de exceção, com direito a polícia política e tudo mais. A seguir, esperem perseguição a artistas e intelectuais. (Ou melhor: nem é necessário esperar, bastando observar que praticamente todos os países que tiveram filmes exibidos na mostra principal de Cannes escolheram estas produções como representantes no Oscar, enquanto aqui… bom, vocês já sabem.)

E o que fazemos diante de tudo isso? Espalhamos memes e piadas – enquanto ELES seguem rindo. Pelo jeito, as pessoas só se darão conta do que ocorreu ao país quando espalhar memes políticos for proibido. Até lá, riremos do colapso de nossa democracia.

Honestamente, às vezes nem sei por que insisto em apontar publicamente estes abusos. Estou cada vez mais convencido de estar só perdendo tempo, energia e saúde. E leitores.

Entre a insurreição e a resignação, optamos pela autoimolação através da “irreverência”.

BUT KEEP CALM AND FUCK IT ALL.

Pablo Villaça


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