Estudantes bradam: Nós não somos gado, não admitimos marcas e não estamos felizes

Não somos tijolos na parede, por Ângelo Cavalcante

“We dont need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone”.

Pink Floyd/Roger Waters. Another Brick in the Wall.

[Não precisamos de controle mental. 
Chega de humor negro na sala de aula. 
Professores, deixem as crianças em paz.

Pink Floyd/Roger Waters. Outro tijolo na parede].




A banda Pink Floyd surgiu em 1965, em Londres. Composta originalmente por quatro estudantes fortemente influenciados pela contracultura da época: Roger Waters, Nick Mason, Richard Wright e Syd Barret o grupo começou fazendo apresentações nos ditos “espaços underground” da capital inglesa. Em 1967, o guitarrista, saxofonista, cantor e compositor britânico David Gilmour passa a compor a banda.

O gruo tornou-se em espaço de tempo relativamente curto um marco artístico e lírico para a música universal. Com criatividade e muita, mas muita imaginação o grupo se firmou como conceito e símbolo no chamado rock progressivo.

Em 1979, a banda lança o épico álbum “The Wall” com sua principal faixa, a icônica “Another brick the Wall” [Outro tijolo na Parede]. Essa estonteante canção está dividida em três partes. A primeira é a mais amena com acordes suaves e harmônicos de uma guitarra hipnótica ao fundo; a segunda é a mais conhecida, tanto pelos solos quanto pelo intimismo de uma composição impactante e esclarecedora. Destaque deve ser dado para o emocionante vocal das crianças da Islington Green School e; finalmente, a terceira e última parte é simetricamente composta por arranjos de vozes e guitarras agressivos e intercalados por pausas calmas que caminham para o encerramento do próprio álbum.

Recordo dessa banda que marcou minha infância e adolescência para tentar compreender e reconhecer que premonitoriamente a arte também e ao seu modo é geradora de sapiência, sensibilidade e noção de vida e de mundo. Não é que a emblemática banda Pink Floyd, de alguma maneira, nos anunciava, nós os brasileiros, o lindo e essencial levante estudantil e que, conforme se verifica, toma conta das principais escolas públicas do país? Não é que a arte anunciou e muito bem, a vida a ser conformada por essas bandas do planeta nestes tumultuados tempos que correm?




As ocupações das escolas são poesia pura; lirismo; arte e o melhor de tudo… Com autonomia, emancipação e formação de novas lideranças que se aferram a ideais necessários para a ação política à esquerda: organização popular, povo, gente, socialismo, autogestão. Não duvidemos, no atual e prevalecente ambiente de decadência e degenerescência política onde, inclusive, juízes pregam abertamente pela tortura de adolescentes, uma multidão de jovens, criando territórios de esperança, como bem nos fala David Harvey, é a certeza de que a boa política, ousada, atrevida, progressista e autônoma está entre nós.

Está aqui, nos provocando, estimulando e aquecendo sonhos que traições, mentiras, golpes e fracassos políticos e eleitorais tentaram arrefecer. Quanto a nós, os tais professores, cabe compreender o momento, potencializar lutas estudantis, combater a burocracia estatal e educacional e denunciar um Estado policialesco que, fracassado e irremediavelmente falido, cismou que luta social é coisa de bandido; que resistência estudantil é baderna e; que, a tomada de prédios públicos para ações políticas é uma muito perigosa intentona comunista a ameaçar as conformadas e sublimes famílias católicas ou neo-protestantes, brancas e de direita deste Brasil afundado na infâmia de um golpe político.

A ocupação das escolas, feliz e afortunadamente é doce desobediência civil, é portanto, um ventre fecundo de possibilidades e caminhos para a própria reinvenção da vida política nacional que, definitivamente, não tem nada que ver com parlamentos de direita desvinculados de demandas sociais elementares; de executivos enlameados com toda sorte de negociatas e de traições ao mundo social e do trabalho e; muito menos com um judiciário ensimesmado, autista e que ama “boquinhas” públicas, evidentemente custeadas com o dinheiro da sociedade.

De viés futurista, os rebeldes do Pink Floyd denunciavam ainda nos anos oitenta, os males e dramas de uma educação massificadora, dócil e alienante com um bem exclamado “Nós não somos tijolos!”; a juventude do Brasil ao tomarem as escolas, escolas que por sinal, são suas, bradam nas entrelinhas de sua “ira santa”, que, “nós não somos gado, não admitimos marcas e não estamos felizes”.

Um alto e sonoro VIVA ÀS OCUPAÇÕES!

Ângelo Cavalcante – economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara


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