Ocupações nas escolas mostram que a sociedade pensante não se calará

patyPatrícia Andrade

Até agora, quase 1.500 escolas e universidades foram ocupadas de norte a sul do Brasil. As manifestações estudantis são o movimento social de força gigante do povo brasileiro, muitos ainda não sabiam o que era uma PEC, outros não sabiam que existia um orçamento público, dívida pública e outros temas. Essa discussão em torno da aprovação da PEC 241 tem levado milhares de jovens e seus familiares a tentarem se informar e assistir vídeos que não sejam somente de diversão – como de costume.

Observando os movimentos dos alunos que estão nas ocupações é possível ver que, talvez não a maioria, mas muitos estão dando uma dimensão muito maior de como é organizada uma escola, alimentação, limpeza, organização, contenção dos que estão na escola para diversão e não para construção de conhecimento e cidadania são alguns aspectos que tem enriquecido essa experiência deles. O papel dos professores e pais que apoiam também é um porto seguro a eles. Assim como as críticas dos que não apoiam os movimentos de ocupação. Tudo tem enriquecido a noção de consciência deles.




Como em todo protesto, sempre há argumentos contra e a favor. A questão é que os fatos estão aí, e cada um é livre para se informar, argumentar e tomar a decisão de apoiar ou não a PEC 241, e, também, reformas polêmicas que podem atingir a saúde e a educação no Brasil.

O argumento de que “o Brasil está quebrado” cai por terra quando descobrimos que foi dado aumento milionário ao judiciário, que estamos emprestando bilhões ao FMI, que temos mais de 300 bilhões em reservas. Somos um país riquíssimo em mão de obra, terras, recursos naturais e mercado consumidor. O argumento de que o petróleo brasileiro tem que ser vendido às empresas estrangeiras é uma grande falácia. As PPPs são os melhores meios de abrir nossos poços de petróleo às estrangeiras e ao mesmo tempo garantir os recursos para saúde e educação como havia sido acordado nos últimos meses do governo Dilma. 

O que vemos hoje é o que houve nessas terras há 500 anos atrás. Os que têm interesses em lucrar com ela se unem à lideranças políticas e exploram o povo, o ouro, a terra, a água, e agora o petróleo.

Os meios de comunicação fazem a propaganda dos produtos e serviços oferecidos pelos bilionários do sistema financeiro, então não podemos esperar deles isenção na hora de noticiar movimentos contra leis ou ações que venham a prejudicar os lucros de seus clientes. É de se esperar uma cobertura mínima da grande imprensa, mesmo tendo mais de 1200 escolas e universidades já ocupadas no Brasil.

A tentativa desesperada de movimentos, como o MBL, de polarizar as ocupações das escolas em uma visão rasa e simplista de “comunismo x liberalismo” mostra a necessidade deles de tentar calar o movimento. Inclusive tentando jogar alunos e pais contra professores.




As ocupações das rodovias, das avenidas quando eram feitas financiadas pela FIESP tiveram total cobertura e apoio da grande imprensa. E agora, por que a manifestação dos estudantes é depreciada? Lógico que há interesses, tudo é interesse. Não se iludam. Não é porque muitos estavam insatisfeitos com o governo anterior que aceitariam qualquer coisa que viesse depois do impeachment de Dilma Rousseff.   

Ora, quem mais quer o bem dos alunos se não for os professores? Se estão apoiando o movimento contra a PEC é antes de mais nada por saberem que essa PEC não interessa aos mais necessitados e sim aos credores da dívida pública e grandes investidores do setor privado da saúde e educação.

Por que nenhum partido levantou a bandeira da auditoria da dívida pública até agora? Quantos bilhões o povo brasileiro tem perdido?

Quando uma pessoa compra um veículo e depois entra na justiça para rever os juros e tirar o que for ilegal não é um direito? Pois temos o direito de saber detalhes dessa dívida que, segundo eles, tem que ser paga às custas dos cortes na saúde e educação.

O direito do povo brasileiro saber a quem paga e o que paga é negado com qual finalidade? Auditoria da dívida pública, sim. Movimentos contra qualquer PEC que prejudique o povo, sim. Repatriação dos mais de 500 bilhões em impostos sonegados todos os anos, sim! E o povo tem que entender isso para cobrar, e não é a grande mídia nem os movimentos defensores do sistema como MBL, Vem pra rua e outros que vão explicar isso ao povo. Essa missão é dos desinteressados, dos que não vão enriquecer com isso. Essa missão é nossa: professores, líderes comunitários, de trabalhadores, artistas, advogados, médicos, líderes religiosos que não fazem de sua religião um meio para extorquir fiéis, jornalistas que não são subalternos da grande mídia, enfim… essa missão é nossa: eternos sonhadores e inconformados com as injustiças.

Por Patrícia Andrade, professora de geografia na rede estadual de ensino de Minas Gerais. 


Leia mais