O silenciamento da defesa de Dilma é o silenciamento da mulher como sujeito político

Dilma, Lula, Lindberg, Gleisi, etc. têm que defender Diretas porque isso é decisão do partido. Eles têm por obrigação defender publicamente as decisões coletivas. Se Dilma não estivesse lutando pela anulação, sua defesa não estaria ativíssima criando novos modos de abordar o STF. Mas, ela não pode organizar um movimento em torno de si para apoiá-la nas ruas, certo? Quem tem que fazer isso são aqueles que se sentem afetados pela derrubada dela.




O PT, legenda que tem, mais ou menos, um milhão e meio de filiados, nem todos com voz ativa na política geral do partido por questões internas que todo a sua base conhece bem, é o partido de Dilma, mas quem deu à a ela a condição de mandatária foram 54 milhões e meio de cidadãos. Acaso 54 milhões e meio de cidadãos, entre eles, boa parte de militantes das mais variadas linhas políticas e até sem partido, têm que se submeter às decisões do PT mesmo que elas estejam equivocadas?

Um movimento que representa esses milhões de cidadãos tem tanto valor político quanto qualquer movimento. É absolutamente ofensivo à massa de trabalhadoras e trabalhadores que compõe a base social do PT, onde nasceu o MNAI – Movimento Nacional Pela Anulação do Impeachment, que a política do movimento seja tratada como coisa de fanáticos. Fanáticos que tem uma demanda legítima e estão propondo o diálogo na sociedade sobre essa demanda? Somos um movimento legítimo com estratégia diferente da escolhida pelo PT, que é conciliadora de classes como tem sido há décadas. Nós não vamos dar as mãos a setores golpistas para defender eleições diretas em pleno Golpe de Estado! Pode-se discordar disso e se juntar ao PSOL, PSTU e Força Sindical em atos “unificados” nos quais se pede a prisão de Lula e se diz que Dilma faria o mesmo que Temer está fazendo, caso isso pareça a melhor política para o momento, mas não se tem o direito de tratar um movimento legítimo como uma horda de fanáticos só porque não se concorda com a estratégia adotada por ele.




Talvez muitos se apeguem às Diretas na esperança de eleger Lula por haver pesquisas dizendo que ele se elege. Sabemos que isso é verdade inquestionável. Nem se precisa de pesquisa pra saber. O que não engolimos são as pílulas de manipulação da mídia, que quando dá muita ênfase a esse tipo de informação não é por acaso. A manipulação midiática é feita de um jogo de esconder e mostrar. Então, antes de apostar todas as fichas numa ou noutra posição, “Diretas já!” ou “Volta Dilma!” lembre-se a serviço de quem estão e sempre estiveram as pesquisas, nas mãos de quem estão o Executivo, Legislativo e TSE, quem são as forças politicas que hoje se unificam no “Fora Temer” e “Diretas Já!” e como a mídia trata os atos promovidos por essas forças. Sabemos que estamos do lado certo da história, por isso não só resistimos, mas combatemos.

O golpe é misógino, e misoginia não tem essa de esquerda e direita. Nisso, sim, há unidade na política brasileira. A misoginia de esquerda e direita no golpe se expressa no silenciamento sobre o fato de que Dilma Rousseff é a Presidenta eleita até 2018 e foi deposta por uma conspiração de bandidos da qual o mundo inteiro conhece os mais sórdidos detalhes. O silenciamento da defesa de Dilma é o silenciamento da mulher como sujeito político. O Brasil precisa fazer justiça e resgatar a normalidade democrática antes de dar mais qualquer passo adiante. Os cidadãos que não admitem virar a página do golpe e engolir calados à cassação dos seus votos por usurpadores das riquezas e das conquistas dos cidadãos têm direito à representação, e o MNAI é isso. Critiquem-nos, mas pela política que fazemos, não pela causa que defendemos.

avatardp
Sobre a autora:
Rose Rolim é professora. Militante das lutas comunitárias e sindicais, participou da construção da CUT e do PT no RS desde o seu início.