O poder econômico é duro, gelado, vai matando e nós ficamos calados

A fragilidade do corpo engana quem não conhece o Bispo Emérito da Diocese de Jí-Paraná (RO), Dom Antônio Possamai, que aos 87 anos segue ativo em atos e eventos de formação política e brandando contra o poderio econômico que condena o país à desigualdade social.

A mensagem do homem que ousou apoiar uma campanha para que nenhum político envolvido em escândalos de corrupção em Rondônia fosse eleito é um verdadeiro antídoto de lucidez e serenidade contra a pandemia de hipocrisia e ódio que reina na sociedade brasileira.

Em 2006 Dom Antônio se uniu à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, ao Projeto Padre Ezequiel, ao Fórum Transparência Ji-Paraná, a Cáritas Diocesana e ao Conselho de Leigos para divulgar um cartaz com a fotografia de 23 parlamentares do legislativo de Rondônia envolvidos em corrupção.




A juíza Sandra Maria Nascimento de Souza determinou o que o bispo recolhesse todos os cartazes, sob pena de multa de (cinco mil reais) R$ 5.000,00 por dia.”

No cartaz estamparam a foto do então governador, hoje senador Ivo Cassol (PP), condenado por fraude em licitações no STF e que responde a outros processos.

Não há dúvidas de que o mau presságio se cumpriu.

Pela bravura Dom Antônio foi perseguido, ameaçado de morte, achincalhado por jornalistas mercenários e até uma parcela da sociedade ‘conservadora’ censurou o ato revolucionário em favor da moralidade na política.

Uma década após o fato, recebeu a justa indenização por dano moral e segue se manifestando contra poderosas oligarquias econômicas que sustentam a base da representação política no país.

Em mensagem atual, chama a atenção da sociedade que cobra o que não pratica, que finge fé cristã: “É preciso quebrar essa tradição que vem de séculos de não formar os nossos cristãos para a militância política”, disse.

Segundo ele, os cristãos devem ser preparados para viver a fé e não só receber sacramentos. “A fé é para ser vivida em todos os ambientes de família, sociedade, poderes públicos.”

Resumindo, não importa que a cada duas horas uma igreja seja aberta no país, porque entre o que se fala e se pratica há um abismo de realidade que se choca com a essência do mais importante mandamento cristão: “Amar a Deus sobre todas as coisas”.

Não no sentido restrito, mas crendo que se Deus é perfeito devemos nos assemelhar a ele, amando a todos, a todos perdoando, a todos servindo e a ninguém excluindo.

Essa lógica é rompida por um poder que a sociedade não aprende como parte da organização social, o econômico.
“O quarto poder é o mais forte. Quem governa os países hoje não são os presidentes, nem os primeiros ministros. Quem governa os países hoje é o poder econômico e se nós não educarmos a fé para entender de onde vem tanto mal, nós ficaremos sempre cobrando apenas dos poderes legislativo e executivo, o judiciário ninguém acha que deve mexer e é preciso mexer e muito.”




Não frequento igreja há muito tempo, apesar de ter honrado os sacramentos católicos até decidir praticar o que o aprendi de bom no cotidiano. Não estou nem próxima de honrar todos valores cristãos, mas alguns seguem norteando minhas ações, sobretudo no ativismo em defesa das causas sociais e políticas.

Foi depois de adulta que conheci Dom Antônio, quem me fez retornar à igreja que enxerga os pobres, os perseguidos, os humilhados e a fé na política como elemento de transformação social.

O que este ser religioso que muito honra o episcopado brasileiro quer dizer, é também que sem a sociedade praticar o que cobra não há porque esperar que os governantes deem bom exemplo.

Estamos refletindo o mal, porque somos medíocres, fingidos e acomodados. Nenhuma sociedade que não pratica corrupção tem governos tão corruptos como o nosso.

O mandato da presidenta eleita foi tirado sem crime, o sucessor deu posse a 15 ministros enrolados com a justiça, o governo segue impondo reformas radicais contra os que mais precisam não submetidas à aprovação das urnas, o judiciário apoia a caçada seletiva aos rebeldes e o que temos feito além de nos odiar?

O país com maioria cristã nunca demonstrou tão pouca fé.

Quem nos governa é o poder econômico como alerta Dom Antônio, porque “ele é duro, gelado e vai nos matando aos poucos, porque ficamos calados.”

Dom Antônio mora hoje na capital, Porto Velho.

Como podem ver, um homem que não desiste de demonstrar a fé cristã.

Luciana Oliveira, bacharel em Direito, jornalista e ciberativista de causas sociais. Blogueira progressista e membro da Comissão Nacional de Blogueiros


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