Fuad Faraj: O Inspetor, seu Pau e seu Dilema

As gêmeas torres nasceram no espaço euclidiano da prancheta de Oscar Niemeyer. Imponentes e faraônicas, tomaram a forma de cilindros envidraçados que deslumbram os olhos de quem as vê no horizonte e debaixo do céu azul de Brasília. Nasceram no tempo em que abrigavam algo que a sabedoria popular chamou de Engavetadoria-Geral da República, onde trabalhavam, dizia-se, com dedicação e esmero, um Engavetador-Geral e outros tantos Engavetadores discípulos seus.

A má fama se perpetuou ao longo dos tempos e chegou até nós, malgrado tenha ganhando tons vivos de seletividade. Atribui-se ao malsinado edifício-sede da Procuradoria-Geral da República uma história de superfaturamento e propina, no que supostamente teria sido um dos maiores casos de corrupção a envolver uma Instituição que deveria ser o farol da cidadania.

À época o Ministério Público Federal “abriu”, sem alarde, uma investigação feita entre 4 paredes, sem vazamentos e sem manchetes demolidoras. Sua natureza era extremamente sigilosa, como não poderia deixar de ser quando se apuram crimes que se suspeita tenham sido praticados por Procuradores da República, pois eles não podem ser colocados no mesmo patamar do resto dos cidadãos do País.




Niguém apareceu humilhado na televisão debaixo do foco desumanizador de uma plubicidade opressiva. Não se viram editoriais de execração nem matérias jornalísticas elevados ao posto de sentenças condenatórias. Ninguém foi algemado, carregado em camburões por dezenas de policiais marombados e encapuzados, sob a longa e tesa vara da condução coercitiva, sem lei que a fundamente. Prisões, fundamentadas ou não, muito menos existiram. Faltaram também os espetáculos acusatórios feitos por Procuradores da República desmunhecando pontos luminosos sobre uma tela de PowerPoint.

Esqueçam também frívolas e levianas acusações sem fundamento ou sentenças condenatórios que se materializam, sem qualquer contraditório, com meses de antecedência, apenas diante do contido num inquérito policial. Nestes caso, sendo certa a condenação, com um pouco de sorte, pode-se antecipar de quantos anos será a pena. Há um promissor mercado de apostas aqui em Curitiba.

Sem alarde aberta e fechada sem alarde, a investigação teria ido morrer em algum arquivo sem sequer um aviso de falecimento publicado nos cantos menos visitados dos jornais. E Malu Gaspar, biógrafa de ex-potentados e uma espécie de ícone do jornalismo investigativo, nunca teve a primazia de saber que fim levou a investigação dos supostos desvios havidos na biliardária construção do edifício que abriga hoje os Redentoristas da República. Diga-se, em benefício dela, que naquela época também não se dispensava à jornalistas o vip tratamento de estender para dentro das redações os tubos e conexões que lhes faz chegar ao conhecimento os vazamentos de processos sigilosos de toda ordem.

Hoje as coisas mudaram, como tudo mudou. Para pior, dizem, como que refugando esta Revolução dos Patos Amarelos, os saudosistas da Redentora Revolução de 64. Dizem que nem mesmo o nome da Bodega comandada pelo Procurador-Geral Janot tem resistido, impávido e solitário, a não ser seletivamente, a estes novos tempos estranhos. Hoje já lhe chamam também de Vazadoria Geral da República com tubulações que lhe chegam estendidas da República de Curitiba.

Neste aspecto, ao menos no que diz respeito a República de Curitiba, já não se sabe o que é matriz ou o que é filial. Onde fica afinal a sede da Procuradoria-Geral da República?  Aparentemente toda a representatividade do Ministério Público Federal veio mudar debandada de Brasília, de mala e cuia, para as imediações do paralelo 25 sul, onde Dr. Simão Bacamarte, um dos maiores alienistas do seu tempo, vaticinou o surgimento de uma República e de sua hospedaria, A Pensão do Serjão, que iriam ofuscar os olhos do mundo e proporcionar, para tiranos, sádicos e masoquistas, indescritíveis prazeres gozozos.

Aliás, nesta ditosa República de Curitiba, de prodígios imensuráveis, nada há que não nos espante. Nos lugares solitários, onde toda a vaidade humana se apaga, pendurados nos locais de costume, encontram-se em fartura e esplendor papéis higiênicos ilustrados com o artigo 5º da Constituição da Moribunda República Brasileira. O papel assim estampado, prestimoso amigo das horas mais aflitas, está ali à disposição e limpeza das intocáveis e impolutas nádegas dos notáveis juristas desta Excepcional Jurisdição.




O chefe do Ministério Público Federal, uma espécie de Inspetor-Geral de toda a Instituição, assumiu recentemente a ingrata missão de investigar como se dão vazamentos de informações que se encontravam, a princípio, em mãos de gente sua. Para isso o respeitável Jurista, com a extraordinária verve que lhe é uma espécie de cartão de visitas, já sacou o seu intrépido pau, presença constante em 11 de cada 10 discursos ou pronuciamentos que faz em sua tonitroante voz: o pau que dá em Chico, também dá em Francisco. A formidável expressão de efeitos e sentidos múltiplos nos remete ao tom entre sério e jocoso do mais famoso Prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu que, dado o teor de ambiguidade sexual, deixava assanhadamente sem ar as diletas irmãs Cajazeiras.

Por investigar não se há de entender decerto que ele vá se despir de sua capa preta para envergar, feito um Sherlock Holmes redivivo, o indefectível sobretudo, o chapéu deerstalker, o cachimbo calabash e uma enorme lente de aumento para ir seguir uma trilha suspeita que o leve aos bandidos. Como não entrou em detalhes do que fará, supõe-se que fará o mesmo que fez nestes últimos três anos diante de cada vazamento ocorrido na República de Curitiba. Foram 3 temporadas consecutivas de Operation Car Wash, classic series, e não se tem notícia de que o pau impoluto e valente que deu no Chico tenha achado o Francisco para nele dar também. Depois de tantos anos e tantos vazamentos sem responsáveis descobertos, o que dá mesmo é pra pedir música no Fantástico. Quem sabe os Pet Shop Boys. Always on my mind. Oh, horror!

Desejamos que a investigação lhe seja proveitosa esclarecendo de uma vez por todas como a Jornalista Bela e o Jornalista cujo nome nos lembra a personagem que fez um pacto com o demônio da encruzilhada têm essa sorte extraordinária de obter informações de procedimentos investigatórios que se encontram em mãos de Procuradores da República ou de seus “interlocutores” e que deveriam correr no mais absoluto sigilo.

Não se pode deixar de levar em conta que há jornalistas com dons divinatórios, o que poderá demandar, mais que investigadores criminais, uma força-tarefa de parapsicólogos, mentalistas e mães de santo.

Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar essa vã Procuradoria da República, como essa história do cachorro que corre sôfrega e angustiosamente atrás do próprio rabo sem nunca o alcançar. Não há cientistas que tenham explicado de maneira defintiva tão curioso fenômeno. Sina Cruel!

Como será esta investigação não se sabe. Tendo por suspeitos Procuradores da República sobre quem pode recair a imputação de fatos criminosos pode-se dizer apenas o que ela não será. Não haverá conduções coercitivas. Não haverá interceptação e quebra de sigilo das comunicações telefônicas, de informática e telemáticas. Não haverá prisões espetaculares. Não haverá divulgação do conteúdo das eventuais gravações em horário nobre. Não haverá publicidade sob o pretexto de salvaguarda do interesse público. Não terá vazamentos de qualquer natureza. Filhos de nenhum Procurador da República serão acordados às 06 horas da manhã com marombados e encapuzados de preto batendo à porta acompanhados de toda a imprensa.

As cilíndricas formas das duas torres envidraçadas que rasgam a paisagem do Plano Piloto no Planalto Central nos assombram. A bela aparência esconde o que há de podre dentro delas. Ficam ali para todo mundo admirar o que há por fora. Não passam de belos e suntuosos sepulcros. Sepulcros caiados.

A conspiração, seus planos, tudo já está descoberto à luz do sol do meio dia. Até quando abusarás de nossa paciência?

Fuad Faraj é Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Paraná.


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