Moro ‘roda a baiana’, em audiência, e aos gritos, afirma que pode cassar a palavra da defesa de Lula

Jornal GGN – O juiz Sergio Moro e o advogado Juarez Cirino, que defende o ex-presidente Lula no caso triplex, protagonizaram nesta segunda (12) a audiência mais agressiva desde que o julgamento foi iniciado. Moro, aos berros, chamou o defensor de “inconveniente” e afirmou que tinha poder para impedi-lo de se manifestar durante a oitiva da engenheira Mariuza Aparecida da Silva Marques, da OAS. 

O bate-boca começou quando o procurador do Ministério Público Federal perguntou a Mariuza se a esposa do ex-presidente, Marisa Letícia, foi tratada pela OAS como “uma adquirinte, alguém que visitava para ver se tinha interesse no imóvel ou destinatária” do triplex. Nesse minuto, Juarez protestou porque, em tese, a engenheira responsável por fazer vistorias em imóveis já vendidos não teria condições de responder essa questão, e poderia recorrer a achismos.




A partir dos 10 minutos do vídeo abaixo, a discussão atinge o ápice com as ameaças de Moro.

Cirino: Fica o protesto de novo, Excelência, porque ele está pedindo a opinião da testemunha.

Moro:  Doutor, o senhor está sendo inconveniente. Já foi indeferida essa questão.

Cirino: A defesa não é inconveniente na medida em que estamos no exercício da ampla defesa.

Moro: Já foi indeferida! [tom elevado]

Cirino: Vossa Excelência não pode cassar a palavra da defesa…

Moro: Posso, doutor, porque o senhor não deixa de ser inconveniente.

Cirino: Não pode, porque estamos colocando uma questão muito importante. O ilustre procurador da República está pedindo a opinião da testemunha, e ele não pode!

Moro: Doutor, o senhor está sendo inconveniente. Já foi indeferido essa questão. Já está registrado. E o senhor respeite esse juízo [aos berros]

Cirino: Mas, escuta, eu não respeito Vossa Excelência enquanto o senhor não me respeita enquanto defensor do acusado. Aí então o senhor tem o respeito que é devido a Vossa Excelência. Mas se Vossa Excelência atua aqui como acusador principal, perde todo o respeito.

Moro: Sua questão já foi indeferida e o senhor não tem a palavra!

O magistrado, então, cobrou uma resposta da testemunha, que respondeu que dona Marisa Letícia foi “tratada como se imóvel já tivesse sido destinado” a ela.

Mais à frente, por volta dos 23 minutos, o procurador da Lava Jato foi mais incisivo e perguntou se Mariuza achava que o apartamento pertencia a Lula.

“Eu disse que a gente tinha um cliente em potencial, que seria o ex-presidente Lula”, respondeu a engenheira.

“Pode detalhar o que passaram?”, acrescentou o procurador.

“Do cliente em potencial? Só falaram que era um cliente que não é… é uma pessoa comum… uma pessoa… é… o ex-presidente que teria interesse na compra da unidade. Foi isso que me informaram. Não tem como detalhar mais do que isso?”

Quando questionada por Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, Mariuza caiu em contradição. A partir dos 9 minutos do vídeo abaixo, Zanin pergunta se quem entregou o projeto do triplex à Mariuza mencionou antecipadamente que o imóvel pertencia a Lula. Então, ela deu de ombros e disse “não”.

Em setembro, o GGN mostrou que a maioria das testemunhas ouvidas pela força-tarefa da Lava Jato para apresentar a denúncia do caso triplex não tinha condições de afirmar que o apartamento seria de Lula. O MPF acredita que a OAS repassaria o imóvel para o ex-presidente como forma de pagar vantagens indevidas.

A engenheira Mariuza Aparecida Marques, em seu primeiro depoimento à Lava Jato, veiculado em setembro pelo Estadão, contou que esteve presente na segunda visita de Marisa ao triplex.

Ao final da entrevista, o membro da Lava Jato disse que ela estava muito “reticente” durante o interrogatório e resolveu perguntar diretamente de quem era o apartamento. Ela respondeu que, segundo as informações que possuía, o apartamento era da OAS. “Era para ser vendido para qualquer cliente”, comentou.

Por volta dos 14 minutos, o procurador pergunta: “A senhora pode me dizer se esse apartamento era de Lula ou alguém da família dele?”

“Não”, rebateu Mariuza. E continuou: “Eu tenho acesso ao sistema da empresa para todos os clientes. Para mim, esse apartamento consta como OAS Empreendimentos. Ele não aparece com outro nome. É o que tenho de acesso na empresa. Então, para mim, esse apartamento é da OAS.”

No primeiro depoimento, ela também disse que recebeu junto ao projeto da reforma do triplex a informação de que a unidade seria melhorada para “um potencial cliente”, mas não citou Lula. Aliás, pressionada, disse que seria para “qualquer cliente”.

Também disse que estava em outro local quando a visita de Marisa começou e que o comentário que ouviu era que “estava ficando bom”. Mas não soube dizer quem disse isso.

Agora, diante de Moro, Mariuza disse que a ex-primeira-dama disse que a reforma estava ficando boa, o que faz a engenheira imaginar que o “apartamento estava direcionado” para a família de Lula. 

Em sentenças passadas, Moro sinalizou que, para o julgamento, o que importa é o que é dito nas audiências.