Miriam Galvani: Mylene e a Magistratura

Racismo?

Imagina!

Lá pelo final dos anos 90, jovem Advogada que era, entrei em um Fórum, em determinada Cidade, a fim de distribuir e acompanhar um mandado de segurança.

Distribuído à  Segunda Vara Cível, lá fui eu ao Cartório “vigiar” o processo, a fim de que fosse enviado no mesmo dia ao Juiz.

Enviado o processo, lá fui eu conversar com o Juiz; no interior se usava muito apresentar-se ao Juiz quando você era um Advogado “de fora”.
Entrei na sala que me indicaram e logo disse:

– O Sr. é  o Juiz? Meu nome é Miriam, venho da “Cidade Tal” e ingressei com um mandado de segurança em favor de uma professora.
Ele imediatamente procurou entre os processos e perguntou:

– Qual o nome?

Eu disse o nome, porém ele não encontrou o processo.




Em qual Vara estou?, pergunto eu.

E ele responde: na Quarta Vara Cível.

Começo a me desculpar pelo transtorno, quando ele se levanta, vem e aperta minha mão, dizendo não haver transtorno algum, que eu poderia aguardar ali, porque estava muito calor lá fora, e na sala havia ar-condicionado, enquanto ele iria à sala de lanches chamar o colega da Segunda Vara Cível.

Olhei atônita para o escrevente de sala, após a saída do juiz, posto que, se era horário de lanche, eu deveria aguardar o seu retorno. O escrevente respondeu à pergunta que havia em meus olhos:

– Dra, todos os Advogados se dirigem a ele como um funcionário subalterno, a Sra foi a primeira Advogada a chamá-lo de juiz sem titubear.

Nunca esqueci.

Anos depois,um amigo, tentou a Magistratura por 8 anos em um Estado.

Não conseguiu, e, no primeiro concurso prestado em outro Estado, passou.




Olhem à sua volta.

Quantos Juízes negros você já viu em sua vida?

Eu vi 3, em 22 anos como Advogada militante.

Mylene não é apenas mais uma vítima de racismo.

Milene é, entre centenas de negros que concorrem a cargos como juiz de Direito e Promotor de Justiça, que conseguiu “escapar”.

E somente o conseguiu para que a boca da sociedade fique calada, afinal, se alguém acusar um Tribunal de racismo, logo gritarão: MAS TEMOS A MYLENE.

Mylene e outros poucos Juízes pelo Brasil afora são pequenos troféus a serem exibidos cada vez que o racismo dessas instituições é trazido à tona.
Com a determinação do Conselho Nacional de Justiça, de reserva de vagas a candidatos negros, espera-se uma mudança no quadro atual.

Mas, ei, leitor, espere aí : as vagas para deficientes físicos existem há  ANOS, quantos Juízes e Promotores vocês já viram, deficientes?

Silêncio sepulcral…

Miriam Galvani, advogada militante em São Paulo e Minas Gerais, procuradora do município de São Sebastião do Paraíso-MG, especializada em processo penal, ambiental e direito do consumidor.


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