Mauro Ferreira: Clipe de Clarice desnuda o moralismo hipócrita que pauta parte do Brasil

Diferentemente do que sentenciaram Chico Buarque e Ruy Guerra quando compuseram uma das músicas mais conhecidas da trilha sonora da (censurada) peça Calabar – O elogio da traição (1973), existe, sim, pecado ao Sul do Equador. Pelo menos na cabeça da parte da população do Brasil que vive nas redes sociais, julgando tudo e todos sem o menor critério. As reações controversas geradas pelo lúdico clipe lançado esta semana por Clarice Falcão desnudam o moralismo hipócrita em ação no Brasil.

Censurado no YouTube, o clipe da canção Eu escolhi você (Clarice Falcão) – gravada pela multimídia artista de origem pernambucana no segundo álbum, Problema meu, lançado em fevereiro deste ano de 2016 – dividiu opiniões somente porque apresenta série de órgãos genitais femininos e masculinos e, ao fim, um vibrador, numa fina sintonia com a ironia dos versos da música. Sim, o clipe dirigido por Pablo Monaquezi – e (bem) editado por Célia Porto com Phillipe Cardelli – faz todo sentido para quem conhece a letra da canção que versa sobre a insatisfação diante das (viáveis) ofertas de amor e sexo.




Portanto, o argumento de que Clarice quis causar com o clipe é falho, ruindo diante de qualquer análise isenta de pré-conceito. O problema do clipe é que ele explicita um conteúdo sexual que o povo brasileiro gosta de ver na calada da noite, nas mensagens privadas de canais sociais, na tela do computador acionado em momentos solitários ou mesmo nos filmes eróticos oferecidos pelas operadoras de TV paga. O problema, que é dessas pessoas e não de Clarice, é que sexo à luz do dia, no clipe de uma canção, revela que, nas mentes de muita gente, ainda habita as trevas da idade média. Sexo ainda é pecado, ao Sul e ao Norte do Equador (que outro país exerce mais o moralismo hipócrita do que os Estados Unidos??).

Não gosta da música de Clarice Falcão? Problema seu. Basta que não a ouça. Não gostou do clipe? Problema seu. Basta que não o veja (e lembre-se de que há advertência no vídeo sobre o conteúdo de nudez e sobre a proibição para menores de 18 anos). Se gostou, veja o vídeo aqui. Mas permita à artista o exercício da livre expressão garantido pela democracia…

Mauro Ferreira no G1