Marcelo Costa: Dia 26/03, eu fui. Liberais, fujam!

Estive na manifestação do dia 26/03 por pura curiosidade. O que tenho a dizer aos liberais e aos que defendem o liberalismo de verdade é: fujam disso!

Fiquei um pouco preocupado por ser negro e barbudo e me destacar no meio da manifestação. E se o pessoal quisesse tirar selfies comigo para provar que pobres e negros também estiveram presentes? Bom, tenho que confessar que eu não era o único negro. Os ambulantes que estavam lá também eram.

Estava muito esvaziado. Beeeem longe dos 5000 calculado pelos organizadores. Acho que algo próximo de mil. Mas isso, realmente, não importa. Quem estava lá não tem nada a ver com política ou um mundo (Brasil) melhor, como eles gostam de dizer. Eles querem um líder religioso, um salvador ungido.




A manifestação, na verdade, foi para exaltar apenas duas figuras: Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. Nada relacionado com Lava Jato, Justiça ou “um mundo melhor”. Eles querem um líder que misture autoritarismo e divindade. Tanto que os defensores da monarquia também estavam lá.

“A escola sem partido… os professores são, em sua maioria, esquerdistas e tentam doutrinar as crianças”, alguém grita ao microfone. Sigo observando de maneira antropológica e jornalística.

A foto de Sérgio Moro em meio a anjos choca pelo delírio religioso (as pessoas tiravam fotos apontando e acariciando o Moro-Santo do cartaz). O banner apocalíptico (um mundo em chamas com pessoas sofrendo, sangue, uma estátua da Justiça semi-destruída, soldados, guerras…) é assustador.

“As pessoas nascem homem e mulher, vocês não concordam?”, dizia um orador de um dos três palcos com caixa de som. Ninguém protesta. As pessoas olham num misto de alucinadas e raivosas, com seus cartazes que mandam para o inferno tudo o que não concordam.

“A UNE está se infiltrando nas escolas”, diz outro. Ué, eu achava que a UNE, UBES e outras organizações estudantis militassem nas escolas mesmo. Enfim…

“Eles (da esquerda) são o mal”. Uau! Decido pegar uns adesivos. Ninguém está distribuindo adesivos, só abaixos-assinados.

Vou à barraca do MBL. “Para pegar um adesivo, tenho que fazer uma doação?”, pergunto, já que um cartaz diz isso. “Não”, responde o garoto. “Mas você poderia assinar este abaixo-assinado”, condiciona. “Já assinei”, minto. Então responda a esta pesquisa. E me dá um questionário que, de tão surreal, vou postar depois. “Quanto custa a camisa do powerpoint?”, disfarço para tirar foto da tabela de preços. “50 reais”, responde o vendedor. “Tá meio caro”, reclama um senhor com aparência de não ser pobre. “Mas tá saindo bem”, retruca o comerciante.

Numa boa, a barraca é tão transada que toda a doação e dinheiro arrecadado com camisas e brinquedos anti-esquerda são troco pra eles. Aquilo é coisa de profissional e custa muito dinheiro. Quem ainda acredita que não tem um financiamento bruto por trás deste movimento, me desculpe… acredita que Jesus apoia o uso de armas.

E parece que apoia mesmo. Um dos cartazes diz isso: “Nosso Senhor Jesus Cristo é pela legítima defesa!” Depois vou procurar isso no Novo Testamento.

Já indo embora, vejo pessoas orando sobre uma bandeira do Brasil gigante. Acho que aquilo representava a união do patriotismo com a esperança de que Deus extermine, o quanto antes, esquerdistas, bolivarianos, comunistas e petistas.

Não teve nada de defesa da democracia lá. Aquilo é um rescaldo de algo que já era ruim e, agora, piorou consideravelmente. O MBL ainda tenta tirar proveito dos adoradores do Moro, Bolsonaro, militaristas e anti-democráticos em geral.

Se algum liberal sério, que defende de verdade o Liberalismo (que eu, particularmente, não consigo ver funcionando. Exceto numa meia dúzia de países que exploram o resto do mundo), achou um dia que poderia se juntar a esse pessoal sem se manchar, desista. Não tem como. Liberais: fujam.

Marcelo Costa dos Santos