Manifestoches: Escola de samba ironizará ‘coxinhas’ na Marquês de Sapucaí – Debate Progressista

Manifestoches: Escola de samba ironizará ‘coxinhas’ na Marquês de Sapucaí

A idéia inicial era fazer um enredo que falasse de escravidão e abolição, a partir dos 130 anos da Lei Áurea. Mas o carnavalesco Jack Vasconcelos optou por uma abordagem diferente para um assunto que já foi muito abordado na Sapucaí. A Paraíso do Tuiuti vai para a avenida este ano com o objetivo de mostrar que a história da escravidão ainda não acabou no Brasil e não vai abrir mão de tocar em temas polêmicos do noticiário político atual.




A Paraíso do Tuiuti, que comemora seu aniversário justamente no dia 13 de maio, data da assinatura da assinatura da lei que garantiu a abolição da escravatura no país, vai ser a quarta escola do Grupo Especial a desfilar no domingo de carnaval (11 de fevereiro), no Sambódromo do Rio, com o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”.

“Vamos usar uma linguagem contemporânea, com uma abordagem direta e materiais modernos. É um enredo denso, mas que não tem cheiro de naftalina. No meio da brincadeira do carnaval, da descontração alerta para a consciência do público, faz a ficha cair e mostra que toda essa história ainda é muito atual”, explica o carnavalesco.

Para fazer a tal da ficha cair, Jack não vai economizar em ironia. O quinto e último carro da escola, segundo ele, é uma grande charge do momento atual, com o qual ele quer lacrar na avenida. Trata-se de um “new” navio tumbeiro – embarcação de transporte de escravos – que traz numa metade os ricos, a classe dominante, de um lado, e os pobres, os oprimidos, de outro. E como destaque principal, o Vampiro do Neoliberalismo, usando terno e faixa presidencial, sobre sacos de dinheiro e carteiras de trabalho, que são vistas como as novas cartas de alforria, retratando as forma mercantilista das relações de trabalho.




“Quero causar e brincar na Sapucaí. A escravidão ainda está aí, com fiscais flagrando o trabalho escravo em fazendas na área rural, no trabalho informal, no abuso da mão de obra feminina na indústria de confecção, entre os imigrantes em lanchonetes, na CLT, no governo que parece não se incomodar com a exploração do trabalhador. Ao contrário, tem sede de poder, que suga tudo, que tem um apetite insaciável. O pobre herdou a falta de preparo depois da abolição. A relação de exploração entre o rico opressor e o pobre oprimido que infelizmente ainda persiste no século XXI. Não se trata de uma crítica, mas de uma constatação triste e que será tratada com ironia”, disse Jack, que quer dar uma “espetada” na reforma trabalhista.

O carnavalesco evita falar abertamente se a figura do vampiro representa o presidente Michel Temer, já que trará a faixa presidencial. Mas não se furta a dizer que se trata de uma personalidade política nacional que, segundo ele vem liderando uma reforma com leis opressoras e “que vai ser facilmente reconhecido na avenida”. Jack diz que ele será representado pelo professor de história Léo Morais, que vai desfilar pela primeira vez no carnaval.

“A escravidão não é um problema exclusivo do Brasil e nem nasceu aqui. É um tema espinhoso, mas necessário, que vem dos primórdios da humanidade. Partimos dos 130 anos da Lei Áurea até chegar as relações de trabalho atuais. Os escravos saíram das senzalas, mas sem preparação para o trabalho, caíram no cativeiro social. E o carnaval é isso, a oportunidade de conjugar arte e fantasia para falar de assuntos sérios”, acrescentou o carnavalesco.

Jack pretende contar a história da escravidão de forma cronológica e vai mostrar que a palavra escravo, vem de eslavo, povo de pele e olhos claros que foi subjugado pelos bizantinos. E passa por egípcios, babilônios, gregos, chega à Idade Média, fala dos gladiadores, dos mouros e dos africanos. No Brasil, a história se divide em ciclos (cana, café, ouro e diamantes), até os dias atuais, quando aborda a reforma trabalhista.

A fantasia da última ala do desfile do Tuiuti, chamada de “Manifestoches”, traz um pato inflável na cintura do componente lembrando o mesmo objeto que ficou famoso durante as manifestações contra o governo Dilma. Entretanto, o figurino é uma crítica a manipulação que faz com que os mais pobres “lutem” pela manutenção de um velho sistema de exploração social. Ou seja, são fantoches de uma classe dominante que dita as regras.

“Apesar das brincadeiras, da ironia, considero esse o meu carnaval mais maduro, mais adulto. Queremos chamar a atenção para o tema, mas sem perder a mágica, a alegria do carnaval”, concluiu Jack Vasconcelos.

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