Mais de R$ 500 mil para o carnaval curitibano? Ainda é pouco!

Como o senso comum nos afeta quando falamos de gestão pública

O carnaval de Curitiba para quem não se envolve é apenas aquela semana boa para ir pra praia ou descansar. Para as escolas, isso não representa apenas alguns dias, o desfile ou a glória da vitória, isso representa um trabalho da comunidade.

Essa comunidade ensaia o ano inteiro, envolve os vizinhos, idosos, crianças, essas que entram em contato com uma cultura típica do povo brasileiro, além de as afastarem do ócio, da insegurança, trazem uma atividade que geralmente a prefeitura não as contempla, lhes permite vivenciar cultura.

Quando falamos de 500 mil reais ao ano para as escolas, achamos muito, porém ao destrinchar essa informação vemos que existem 8 escolas, com os valores repassados sendo entre 15 e 30 mil reais por escola… O que isso da pra fazer durante um ano? Compra material? Paga a estrutura? O quanto custaria ao poder público oferecer igual estrutura cultural para nossas crianças?




Entramos então na falácia da prioridade, ao dizer que devemos colocar saúde, educação como primordiais… Concordo! Tanto que o orçamento da saúde de Curitiba em 2017 beira a 1.7 Bilhão e o de educação em 1.5 Bilhão. A Fundação Cultural de Curitiba tem orçamento de 70 milhões apenas, estes já considerando os 50 milhões de custeio de estrutura e mais 10 a 12 milhões para editais.

O que sobra? O valor é baixo, o que retorna é alto,Curitiba em seu pré-carnaval faz folia digna de grandes polos. No final cortamos o problema pelo seu efeito, não pela causa. A causa em si de nossos problemas está na própria regulamentação do carnaval, caro leitor. Imagine comigo… Qual empresa teria interesse de patrocinar as escolas de samba? A de bebida alcoólica, claro! Porém a lei municipal 14.156/2012 em seu artigo 7º, parágrafo terceiro, diz que é “proibida a propaganda de produtos fumígeros, derivados ou não do tabaco e de bebidas alcoólicas”.

Esta lei precisa ser alterada parcialmente, a ponto de dar mais liberdades as escolas, mas enquanto o próprio Estado não proporciona essa tal independência, fica difícil manter toda a estrutura sem ajuda.

Recomendo, a quem queira ver cortes, pedir a revisão do contrato da Urbs, da Cavo e de tantas outras empresas estranhas que aparecem pela cidade. Também os digo para olhar para as propostas de seus vereadores quanto a empresas de interesse público, as quais quando aprovadas podem fazer contrato de gestão com a prefeitura (sem edital).

Ao ser prefeito, este deve explorar todas as áreas, não apenas aquelas necessárias para a sobrevivência e não digo isso aqui querendo pouco dinheiro para estas, digo isto para tentar passar um pouco o meu ponto, 500 mil reais no orçamento da prefeitura de Curitiba representa mais ou menos 0,006% do total. Curitiba tem condições de ser a capital da saúde, da educação, da cultura, se os prefeitos pararem de demagogia e começarem a fazer gestão.

Lhes digo, sem entrarmos no mérito cultural, as escolas fazem um trabalho social interessante, unem a comunidade, trazem segurança a seu redor. Por anos acompanho o carnaval da cidade, mas o mais interessante são os ensaios, rua fechada, comunidade unida, festa, alegria e paz, pra um povo que merece tanto.

Não caiam no conto do vigário, eles não vão gastar tudo que tem na saúde e educação e ainda assim, vão tirar a cultura de vocês… Mas pra cidade que tem dono, povo com cultura mete medo.

Texto e foto: Rafael Perich, natural de Irati-PR, 24 anos, fotógrafo e cientista político, pesquisador da Fundação Ulysses Guimarães do Paraná.