Lucidez política e menos demagogia: a esquerda mais que precisa

A esquerda brasileira sofre de lucidez política e de demagogia exacerbada. O Partido dos Trabalhadores, sendo a maior expressão política e eleitoral da esquerda, neste período histórico, também.

Tal crítica, no entanto, nada tem a ver com críticas alinhadas com críticas e posicionamentos provenientes da direita. A direita faz seus ataques, suas críticas e demonstra seus posicionamentos fundamentados em uma ideologia que visa a exclusão, o ódio, a desigualdade social, a opressão e a exploração do homem pelo homem. A esquerda, e as críticas oriundas deste espectro político, visam contribuir para o fortalecimento de uma política que objetiva a inclusão, a aceitação das “diferenças”, a extinção da desigualdade social, da opressão e da exploração do homem pelo homem.

Lucidez política inclui-se percepção política em levar em consideração as variáveis políticas que podem, ou não, contribuir para o fortalecimento da política de acordo com seu espectro político. Portanto, minhas análises visam contribuir para fortalecer o campo da esquerda.




Para ficarmos em apenas três exemplos recentes, sobre a falta de lucidez política e de demagogia, citarei o apoio do governo Lula e do PT ao então ex-presidente do Senado, José Sarney, as manifestações de 2013 e sobre as discussões sobre a anistia ao caixa 2, em que a esquerda, e o PT, se dividiu.

Quando José Sarney estava como presidente do Senado Federal, e estávamos no período do governo Lula, a própria direita iniciou uma batalha contra Sarney, que na ocasião, era aliado do então presidente Lula e de seu governo, e naquele momento, muitos petistas, incluindo integrantes da direção nacional do PT e senadores da legenda, não queriam que o presidente Lula e nem que a bancada do Partido dos Trabalhadores no Senado desse sustentação política à Sarney.

Os fatos eram que a esquerda tinha pouquíssimos senadores e senadoras e o vice-presidente do Senado, na ocasião, era Marconi Perillo (PSDB-GO), o que poderia tumultuar e prejudicar enormemente o governo Lula, inclusive a ponto de não fazer a sucessora, Dilma Rousseff, nas eleições de 2010.

Aqueles que se diziam de esquerda e petistas, inclusive com cargos na direção nacional do partido e senadores e senadoras que titubearam na sustentação de Sarney naquele momento, na verdade e na prática, queriam ver o fim do governo Lula e de sua política que estava começando a ser mais progressista, até pelo fim do contrato com o FMI deixado por Fernando Henrique Cardoso. Esse é o fato, pois se Marconi Perillo assumisse a presidência do Senado no lugar de José Sarney seria o fim do governo Lula.

No mínimo, foi mais um espetáculo lamentável e deprimente de falta de lucidez política e de demagogia exagerada, de indivíduos que se dizem de esquerda, independente de quantos anos se tem de partido e de histórico em mandatos e de atuação em governos.

A continuidade do governo Lula, e as condições políticas e sociais para a eleição de Dilma Rousseff, em 2010, deu-se porque houveram indivíduos que decidiram sustentar José Sarney na presidência do Senado naquela ocasião. Exemplo de lucidez política e responsabilidade que faltou a muitos.

O segundo exemplo é sobre as manifestações de 2013, em que uma pequena parte dos que se consideram do campo político da esquerda, foram às ruas protestar contra atitudes do governo federal, leia-se: governo Lula e Dilma, e contra certos governos estaduais, em relação aos efeitos das obras para a Copa do Mundo, pois estavam sendo prejudicados e o governo não estava dando a atenção necessária.

Os protestos, nesse sentido, tinham motivos claramente legítimos e necessários. No entanto, nenhum ato político acontece sem influenciar ou sem estar relacionado e/ou co-relacionado com outras variáveis políticas dentro de um determinado contexto político.

Por falta de lucidez política, que conforme disse acima, inclui-se a percepção política, o raciocínio dos que se organizaram para ir às ruas naquele momento, não levaram em consideração várias variáveis políticas que estavam no cenário político.

A principal variável política ignorada era o fato de que o ano de 2013 já estarmos em um momento de ofensiva da direita, por conta de uma política mais progressista da presidenta Dilma, no seu primeiro mandato, que tinha atacado os juros e que no início de 2013, tinha eliminado e também diminuído a alíquota de alguns impostos federais sobre alimentos e mercadorias que fazem parte da cesta básica.

Quando foram às ruas, criticar as obras e a Copa do mundo, a direita enxergou uma oportunidade de criar uma base social contra os governos Lula e Dilma, e também contra o PT, e de quebra, tentar ofuscar a Copa das Confederações, que estava em andamento. Foi o que aconteceu. O resultado prático é que a presidenta Dilma foi reeleita em 2014 por uma margem muito pequena de votos e os parlamentares federais muito mais claramente de direita. A conseqüência, aliada com erros do governo Dilma, foi o golpe parlamentar. Não enxergar tais fatos e tais conseqüências, de que as manifestações de 2013 criaram a base social da direita, é fruto de falta de lucidez política e de demagogia exacerbada, com a finalidade de falar e de se mostrar para pequenos nichos.

Terceiro exemplo, de falta de lucidez política e de demagogia exacerbada, está em ser contra o projeto de anistia ao caixa 2. O caixa 2 pode ser considerado, no atual sistema político eleitoral brasileiro, como parte do modus operandi do sistema. Portanto, não é nenhuma novidade. E o caixa 2 foi o elemento usado, por integrantes da direita na estrutura do Estado, como, por exemplo, no Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário como crime para incriminar o PT e integrantes da legenda. É o que se viu no caso mensalão e o que estamos vendo no caso da Lava Jato.




A anistia ao caixa 2 é uma tentativa de colocar a questão novamente no sistema e não em pessoas e partidos políticos, mesmo que, o atual sistema não mude, justamente pela falta de vontade política por parte daqueles que os eleitores e as eleitoras escolhem como representantes. Lembrando que, pela vontade dos parlamentares haveria doação empresarial às campanhas políticas partidárias eleitorais, o Supremo Tribunal Federal é que proibiu as doações como eram feitas.

Uma possível aprovação e sanção presidencial de uma lei nesse sentido é inocentar politicamente o Partido dos Trabalhadores e suas lideranças, principalmente os que disputaram eleições, independente de cargos e níveis, e todos os que estavam responsáveis por arrecadar doações. Nessa perspectiva, ter alguém de esquerda, ou do PT ser contra um projeto de lei de anistiar quem praticou o caixa 2, que é doação não declarada à Justiça Eleitoral, é estar na mesma linha ideológica e política da direita com o objetivo de acatar o Partido dos Trabalhadores, além de que tais indivíduos estarem demonstrando falta de lucidez política e de uma gigante demagogia, ainda mais se tais indivíduos também criticam a Operação Lava Jato.

Michel Temer, golpista em cargo de presidente da República, em coletiva de imprensa, ao lado dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Rodrigo Maia e Renan Calheiros, respectivamente, em 27/11/2016 (em um domingo, vale o registro), disse “Temos feito, o Executivo e o Legislativo, ajustamento institucional em vistas a, se for possível, impedir a tramitação de qualquer proposta que vise a chamada anistia”, conforme o Blog do Planalto.

Temer também declarou que “Acordamos todos que não há a menor condição de, pelo menos patrocinado pelo presidente da Câmara e do Senado, levar adiante essa proposta”.

A direita é, por essência, mentirosa e demagoga, mas ela tem uma qualidade, ela tem uma certa lucidez política maior que a da esquerda.

É claro que Michel Temer (PMDB-SP), Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Renan Calheiros (PMDB-AL), podem vir a público e falar o que lhes interessa para tentar se sair bem com a opinião publicada, mas é fato que o assunto interessa em muito os três indivíduos citados, assim como o tema interessa a todos e todas, independente de partidos políticos, no Congresso Nacional, nas assembléias legislativas e nas camaradas de vereadores.

Se o tema não interessasse às vossas excelências, assim, em diminutivo mesmo, não haveria preocupação com a Operação Lava Jato e nem com a delação premiada dos donos e executivos da Odebrecht, por exemplo.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, sobre o tema, em sua página na rede social Facebook, em 24/11/2016, escreveu:

A notícia que a Câmara dos Deputados deverá votar hoje anistia para os envolvidos em Caixa 2 é uma boa notícia. Essa é uma prática inaceitável, mas fazia parte dos usos e costumes da política brasileira, distinguindo-se da corrupção estrito senso que envolve uma propina. No caso da propina há uma troca direita: as empresas fornecedoras de bens e serviços dão dinheiro a políticos e funcionários de órgãos públicos ou de empresas estatais em troca da obtenção de contratos junto a esses órgãos e empresas. Há aí uma violência direta contra o patrimônio público. Já no caso do Caixa 2 não há troca direta; há apenas a expectativa da empresa fornecedora de que será bem tratada caso o beneficiário da doação seja eleito. Não diferença das doações feitas legalmente (quando estas eram permitidas por lei) a não ser pelo fato que há uma sonegação de impostos, já que na maioria dos casos a doação é lançada na contabilidade da empresa como despesa corrente.

Breno Altman, jornalista e editor do Opera Mundi, em 24/11/2016, também em sua página na rede social Facebook, escreveu:

A anistia dos crimes de caixa dois, para derrubar o principal pilar acusatório do MPF, é essencial: a maioria das denúncias, especialmente contra petistas, parte da interpretação de doação não-declarada como prova material de corrupção e lavagem de dinheiro, em uma evidente burla legal.

O parlamento avança ao criminalizar o caixa dois doravante e coloca um anteparo às ilegalidades de Curitiba ao tipificar o que é caixa dois e impedir seu julgamento para atos cometidos anteriormente à nova lei.




O plenário da Câmara dos Deputados deve apreciar a matéria, que deixou de ser votada em 24/11/2016, nesta última semana de novembro, conforme o portal da Câmara, que diz “O projeto de combate à corrupção (PL 4850/16) é o destaque do Plenário para a última semana de novembro”. E que “Em sessão prevista para as 13h55 de terça-feira (29), os deputados debaterão o substitutivo do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) para o projeto do Senado com as medidas anticorrupção”. Ainda segundo o portal da Câmara “A maior polêmica é a possibilidade de a tipificação do crime eleitoral de caixa 2 implicar indiretamente a anistia dos crimes anteriores à lei. Deputados contrários a essa parte do texto argumentam que isso terá efeitos na Operação Lava Jato”.

É importante destacar que há a possibilidade do plenário da Câmara apreciar emendas “que os partidos podem apresentar mudando o texto aprovado na comissão especial com pontos retirados pelo relator antes da aprovação, como a inclusão dos juízes e dos promotores entre os que podem ser processados por crime de responsabilidade”, conforme o portal da Câmara.

Veremos como a esquerda, como um todo, incluindo, sobretudo o PT e sua bancada na Câmara e posteriormente no Senado, se posicionará. Hoje, no entanto, há uma nítida divisão na bancada de parlamentares do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados sobre a questão. E não só nessa questão, é preciso dizer.

No entanto, sobre a divisão da bancada do PT na Câmara dos Deputados, na questão da anistia do caixa 2, segundo matéria do Estadão, em 23/11/2016, diz que “Segundo o deputado Vicente Cândido (PT-SP), cerca de 25 assinaturas de apoio petista à emenda haviam sido recolhidas até as 22h. Já nota contra a anistia foi assinada por 26 deputados. Ao todo, a bancada petista na Câmara conta com 58 deputados”.

Ainda segundo o Estadão “Diante da divisão, o líder do PT na Casa, Afonso Florence (BA), disse que deve liberar a bancada para que cada um adote a posição que preferir”. Afonso Florence teria dito: “É preciso ficar claro que não é o PT que está patrocinando essa medida”. Deputados da Rede e do PSOL, seriam, conforme a matéria do Estadão, as duas únicas exceções “a ideia do acordo” que seria assinado emenda “conjuntamente para evitar que o ônus da aprovação da anistia ao caixa 2 recaia sobre uma legenda ou parlamentar específico”, no entanto, ainda conforme o Estadão, com a divisão no PT, os partidos estariam “repensando o apoio à medida, para que a legenda não fique com a fama de ‘bom moço’”.

A verdade é que se faz urgente, ainda mais nesses tempos de ofensiva da direita, que a esquerda adquira mais lucidez política, incluindo percepção política e que seja menos demagoga, incluindo, claro, quem pertence ao Partido dos Trabalhadores, pois no atual período histórico, é o PT que representa a esquerda brasileira. A falta de lucidez política, o que inclui a falta de percepção política e uma exagerada e inconseqüente demagogia, prejudicam a esquerda e sua finalidade, que é construir condições para melhorar a vida das pessoas que mais precisam e transformar a sociedade.

Claudio Ritser, autor do livro “Política sem ilusão: das alianças nos governos Lula e Dilma à crise política e impeachment” (Multifoco, 2016).


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