Luciana Oliveira: O papo de redação é sobre imparcialidade jornalística

Ontem passei horas debatendo com um duende que vive numa bota que só uso no frio sobre a questão da isenção jornalística.

“Todos os veículos de comunicação primam pela imparcialidade como forma de permitir a quem recebe a informação um raciocínio sem manipulação intracraniana”, disse a pequena criatura que nasceu lá pras bandas da Noruega por volta do século 13.

De fato li isso nos manuais de jornalismo, mas a história confirma exatamente o contrário.




Prova disso, é que um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, a Rede Globo, criou um site em que “revisita sua história com um olhar crítico” e nele reconhece após 50 anos, o erro pelo “apoio editorial ao golpe militar de 64”.

Tá lá pra quem quiser ver.

Da reeleição de Dilma Rousseff pra cá, do aniquilamento da democracia em benefício da cleptocracia, não há debate que ocorra sem questionamentos ao papel da imprensa nesse período.

Uns enxergam manipulação, outros negam.

Peço que psicografem meu ‘te avisei’ quando a Globo e tantos outros conglomerados pedirem desculpas pelo ‘erro’ de apoiar o ‘”o acordo com o STF, com tudo” à ruptura democrática.

Não há imparcialidade do golpe ao caos. Acreditar nisso é como ver duendes.

O ideal de que os dois lados da notícia sejam mostrados para que o leitor/ouvinte/telespectador ou internauta tire suas próprias conclusões nunca foi tão corrompido pela mídia tradicional.

Tem veículo que simplesmente desistiu do jornalismo e o serviço que presta é de assessoria em benefício de determinado grupo de forças políticas.

Há vários, mas vou usar como paradigma o programa Papo de Redação, na rádio FM Parecis, que ontem ao noticiar a greve geral em Porto Velho usou até uma mensagem do líder Movimento Brasil Livre para desqualificar a reação popular.

Não sei se 7 ou 10 mil pessoas foram às ruas, mas sei que foram muitas e diversificadas as vozes.
Como quem foi em todos em todos os protestos contra o golpe, garanto nunca ter visto nas margens do rio Madeira uma marcha com um cardume tão variado de sindicatos.

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Como blogueira de posição declarada, poderia atribuir o sucesso da manifestação exclusivamente à esquerda. Prefiro a sinceridade de dizer que foi a participação de gente de todas as correntes ideológicas e partidárias, com interesses comuns, que garantiu o sucesso do ato.

O mérito da mobilização, claro, se deve muito à esquerda que quando decide organizar a resistência é insuperável.
Mas, os jornalistas abriram o programa dizendo que na passeata só havia bandeiras vermelhas, que era só pra defender a contribuição sindical ameaçada pela reforma trabalhista e de quebra demonstrar apoio ao presidente Lula.




O programa foi dedicado à desqualificação da greve geral, à demonização da CUT e do PT. Quem acompanha os chamados “dinossauros” sabe que notícias que envolvem a esquerda são dadas aos gritos.
Eles desistiram do jornalismo para servir a interesses classistas da direita. Tudo de ruim que experimentamos nesses tempos sombrios é culpa exclusiva do PT.

Até a condenação do dinossauro-mor, o ex-deputado estadual Everton Leoni a 10 anos e 6 meses de prisão por corrupção, deve ser culpa do PT.

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Esse papo de isenção jornalística não existe, mas em empresas de rádio e tv que prestam um serviço público, a responsabilidade ao noticiar é uma obrigação inafastável.

Se os ‘dinossauros’ querem tomar partido e só emitir opiniões, que criem um blog e deixem clara a linha editorial, mas ainda assim sem apelar à manipulação dos fatos e sujeitos à responsabilização por ultrapassar os limites da liberdade de expressão. Numa concessão pública, não!

Parem, porque tá feio reagir a contrapontos de comentários enviados ao programa com extrema zombaria.

Dá pra sentir, pelo tom de voz, o olhar classista partidário de todos os apresentadores sobre um acontecimento que envolva qualquer bandeira defendida pela esquerda.




Quem ligou o programa pra ouvir o relato dos jornalistas sobre a greve geral na capital, só ouviu análises pejorativas. Uma tentativa desesperada de fazer com que manifestação igual não se repita.

Pior, na contramão da legitimidade realçada em nota pelo Ministério Público do Trabalho sobre as manifestações que mobilizaram milhões de trabalhadores em todo o país neste 28 de abril histórico. A nota do MPT foi um incentivo à participação com a ameaça de corte de ponto.

Na grande passeata a pauta que ecoou nos microfones se restringiu à oposição às reformas da Previdência, Trabalhista e à Lei da Terceirização.

Quem disse o contrário, mente.

O Fora Temer não é mais só um grito da esquerda inconformada com o golpe, mas um dever de todos os brasileiros pelo golpe a direitos conquistados ao longo de décadas com muita luta popular e sangue.

A parcela da imprensa que tenta desesperadamente elevar a aprovação do governo que atingiu pífios 4%, contrariando as vozes das ruas e a necessidade de se restabelecer a democracia, vai acabar com igual ou pior índice de credibilidade.

Só se toca o coração das pessoas, quando a parte mais sensível do ser humano não é ameaçada, o bolso, a sobrevivência com o mínimo de dignidade.