Luciana Oliveira: O beijo e o escarro

Cai como uma luva a Michel Temer o provérbio de “Boca aberta, entra mosca ou sai asneira”.
Desde que foi catapultado de vice decorativo à presidente da república por meio de um golpe, o que fala vira piada ou protesto na internet.

Para refletir sobre o discurso repugnante que fez em homenagem ao Dia Internacional da Mulher é preciso recordar outras estupidezes pra não deixar dúvidas de que como presidente, Temer é insuperável quando demonstra despautério.

Ao assumir como interino em meio a protestos e acuado por vaias, pediu: “O povo precisa colaborar e aplaudir as medidas que venhamos a tomar.”




Diante da cobrança por não nomear nenhuma mulher aos ministérios, saiu com essa: “Para a Cultura eu quero trazer uma representante do mundo feminino. Para a Ciência e Tecnologia e Comunicações, quero trazer uma representante do mundo feminino.”

Na cerimônia de apresentação das primeiras medidas econômicas, soltou essa pérola: “Muitas e muitas vezes eu leio e ouço a afirmação que de que eu estou instituindo uma espécie de semiparlamentarismo. Isso naturalmente me envaidece. Porque significa que nós estamos reinstitucionalizando o País.”

No auge das manifestações contra o impeachment que mobilizaram milhares em atos por todo o país, Temer disse em entrevista na China, que considerava os protestos “inexpressivos”. Na ocasião, declarou: “São pequenos grupos, parece que são grupos mínimos, né? Não tenho numericamente, mas são 40, 50, cem pessoas, nada mais do que isso.”

Quando o Papa Francisco pediu que orassem por “todo o Brasil e todo o povo brasileiro neste momento triste”, Temer tentou manipular o recado a seu favor pra faturar politicamente e mais uma vez virou motivo de chacota nas redes sociais. “O Papa, que é sábio, disse: ‘Orem pelo Brasil!’ Para quê? Para, quem sabe, fazer o que eu tenho pregado: vamos pacificar o país. Quem faz uma oração faz para que uma ação seja pacificadora. Eu acho que é isso que o Papa está pedindo.”

Esse Temer…

Quanto mais ele subestima a capacidade cognitiva do povo brasileiro mais se lasca, porque se sente à vontade para ser o que é, um sujeito medíocre e sem nenhum carisma.

Só Temer para dizer como presidente da república, no Dia Internacional da Mulher, que a mulher ainda é tratada como “figura de segundo grau” no Brasil e que, se a sociedade “vai bem”, é porque as pessoas tiveram boa formação em casa, e “quem faz isso é a mulher”.

A contribuição das mulheres à sociedade há muito se comprova além do ambiente familiar, do cuidado com a educação dos filhos e com os afazeres domésticos.




Só mesmo Temer para relacionar o equilíbrio da economia à participação feminina pelo hábito de fiscalizar preços e apontar desajustes nos supermercados, responsabilidade que atribui à mulher.
O que diabos esse homem tem na cabeça pra reforçar conceitos arcaicos num discurso quando mulheres lutam pra forçar o estado a debater questões como o direito ao aborto?

Receito uma dose diária do paraibano Jessier Quirino, para quem “triste é o homem que faz da boca um cu.” Sugiro a leitura pra Temer aprender a falar pro povo, depois de aprender a ouvir a sonoridade da rua.

E o que ecoa, mesmo com a mídia tradicional abafando, está na última pesquisa CNT-MDA. Para 44,1% dos entrevistados o governo é ruim ou péssimo e para 62,4% quem não presta é o presidente golpista.
Por tudo que fez de ruim e pelo nada que inspira de bom, Temer só não cai de podre, porque a direita que não é xucra resiste em dar o braço a torcer.

As mulheres que apoiaram o golpe calam para o discurso despropositado e prejudicial à contínua luta feminina, sobretudo as que têm voz nos parlamentos. O governo propõe deformar a previdência e as mulheres serão as mais prejudicadas.
Por que suportam em silêncio a mão que as afaga e apedreja?


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