Luciana Oliveira: Não temos data para comemorar

Uma das músicas mais emblemáticas da transição entre a ditadura e a democracia no Brasil, cai como uma luva à ponte para o futuro que ninguém sabe onde vai dar.

O Tempo Não Para, com Cazuza, virou um hino de libertação e desejo por justiça social amplificado por Burguesia que veio logo em seguida.

O cantor que perdia a luta contra a AIDS, desabafou o desgosto com os tempos medonhos vividos, mas não sem reafirmar sua esperança de que ao menos o país poderia sobreviver com mais liberdade e qualidade de vida.

Na primeira estrofe, a confissão de cansaço e raiva:

“Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária”

Quem, 28 anos depois não sente amargura semelhante?

A Constituição Federal que nasceu junto com um dos maiores sucessos da música popular brasileira, há dois anos, vem sendo violentamente atacada. Quem lutou contra a ruptura democrática imposta com o impeachment de uma presidenta eleita, sem crime, denunciou um a um os ataques aplicados pela turba golpista.

Quem fingiu não ver, agora reclama violações que afetam não só petistas, mas a todos.

Onde estavam os agora indignados com o fim da presunção de inocência quando o ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente a depor sem necessidade?

Onde estavam quando Eduardo Cunha desprezou a soberania de uma votação, anulou a sessão e convocou outra para aprovar a redução da maioridade?

Onde estavam quando o sigilo telefônico da ex-presidenta Dilma Rousseff foi violado por um juiz que exorbitou de sua competência?

Onde estavam quando 21 jovens que participariam de uma manifestação contra Michel Temer em São Paulo foram presos arbitrariamente?

Onde estavam quando senadores admitiram voto ao impeachment por razões que não fundamentaram o pedido?

Onde estavam há uma semana, quando o juiz Sérgio Moro defendeu o excesso de prisões na Operação Lava Jato por ser este um “tempo de excepcionalidade”?

O Brasil seguiu em direção contrária à democracia, sem pódio de chegada e beijo.

Da eleição que segue em segundo turno em várias capitais, já se confirmou o crescimento do PSDB e PMDB, dois partidos líderes em delações premiadas.

O PT costurou a própria mortalha ao deixar de dar a resposta certa e na hora certa à sociedade sobre os escândalos de corrupção envolvendo seus filiados. Isso, associado à perseguição implacável da mídia e do judiciário fizeram o partido cair da 1ª pra 9ª posição entre os mais votados desde a eleição de 2012.

Sobrou pra esquerda, dividida, em frangalhos, honrar a segunda estrofe da música de Cazuza:

“Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para”

A 4ª e 5ª estrofes simbolizam as vozes dos derrotados que se submeteram à soberania do voto sem questionar o sistema eletrônico de votação, sem insinuar fraudes e conscientes de que a história não segue em linha reta, mas só com unidade irão retomar o caminho.

“Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta”

O caminho não está longe, porque os que tomaram o poder têm os pés de barro e mais dia menos dia, irão esfarelar diante dos olhos que hoje os aplaudem.

“A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para”

Sobre o que o inspirou a compor O Tempo Não Para, Cazuza disse uma frase absolutamente atual, com a qual encerro esta reflexão: o mal tá lá, as pessoas ruins estão lá, pessoas mesquinhas, mas não vão me atrapalhar mais. Não vou mais sofrer por causa delas.”

Por Luciana Oliveira. Bacharela em Direito, jornalista e ciberativista de causas sociais. Blogueira progressista e membro da Comissão Nacional de Blogueiros.