Luciana Oliveira: A contradição ética e moral na imprensa, no Senado e na sociedade brasileira

Quando Michel Temer indicou para o Supremo Tribunal Federal o seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, avisei: é dele e boi não lambe.

Tive certeza que não importaria o que acontecesse, a vaga do ministro Teori Zavascki era dele, porque vivemos tempos de assustadora hipocrisia e banalização do mal.

Não tem dois anos a convulsão na imprensa, redes sociais e no Senado Federal, quando a presidenta eleita, Dilma Rousseff, indicou Luiz Edson Fachin ao Supremo.

A cruzada moralista contra a indicação dele reuniu gentinha e gentalha.




Alegando colocar Os Pingos nos Is o porta-voz da direita raivosa, Reinaldo Azevedo, elencou como ‘motivos’ pra ficar com um pé atrás para a nomeação de Fachin, “a Militância política, contexto e circunstâncias”.

O careca de quem nunca vou gostar dizia que Fachin era o candidato de João Pedro Stedile, do MST. Seria um perigo colocar no Supremo alguém com uma visão sensível aos movimentos sociais.

E muitos, como ele, entorpecidos por ódio à esquerda, ignoraram o quanto é saudável o equilíbrio ideológico num colegiado tão restrito e tão poderoso.

Agora, Azevedo acha mais que legítima, necessária a nomeação de um ministro como Alexandre, conhecido por posições ‘conservadoras’ no que diz respeito a padrões de condutas morais para os outros.
“O que os ditos “progressistas” temem é um, vamos dizer, reequilíbrio na tendência claramente esquerdizante do STF”, disse.

Como o colunista da Veja, mudaram radicalmente de opinião Renan Calheiros, Aécio Neves, Aloysio Munes, Ronaldo Caiado e tantos outros senadores que relativizam a ética em tudo que possa lhes favorecer.

Dos 13 senadores investigados na Operação Lava Jato, 10 integram a Comissão de Constituição e Justiça, que sabatinou o candidato a vaga no Supremo, incluindo o presidente da comissão, Edison Lobão.

Desses não esperaria outra coisa, sobretudo porque são investigados ou réus em inquéritos que o novo ministro vai julgar, mas o duro é o silêncio dos nada inocentes amigos e ‘inimigos’ que juraram ativismo contra a corrupção, contra tudo e todos.

Em tempos sombrios, aos candidatos a ministros que sejam progressistas prevalece o rigor dos conceitos de ética e moral, aos conservadores a relativização de ambos.

Do comportamento dúbio, resta evidente que Fachin é um olhar para o futuro e Alexandre para o passado e que pagaremos caro como sociedade pela despudorada contradição moral ao reagir à indicação dos dois.

Por aceitar Moraes, somos por maioria imorais.


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