Jornalista da CBN descreve com foi cobrir a campanha de Fernando Haddad





Era intervalo do debate na Record. Com muitos lugares vazios, estava sentado ao lado de Ana Estela Haddad, com a devida autorização dela. Já tínhamos sido vizinhos de assento em outros momentos da campanha, como na visita de seu marido à ocupação do Hotel Cambridge. Daquela vez, pernas de índio no chão. Desta, não.

Foi quando a Erica, chefe da equipe de imprensa dele, me pediu que deixasse o lugar para o assessor direto do prefeito – o mesmo que acompanharia a apuração dos votos na sala da casa dele. Imediatamente transferi minha bolsa para a cadeira do canto e saí dali por um instante. Quando me viro para trás, Estela colocava minha bolsa de volta ao lado dela e sorria para mim, de longe. Se tem uma coisa que ela nunca poupou foi os sorrisos.

Me surpreendeu a atitude, pois de seu marido eu já colecionava respostas atravessadas e, em alguns casos, patadas gratuitas – e ela sabia disso. A verdade é que ele sempre foi amargo com a imprensa. “Nenhum veículo de comunicação apoiou um projeto meu, sequer, durante esses quatro anos”, chegou a reclamar ao lado de Lula no seu último grande evento de campanha.

Atrás de Estela estava Bia Dória, nossa futura primeira dama.

A primeira, professora, passou o debate calada. Ameaçou bater palmas mas conteve as mãos. Balançava com a cabeça toda vez que alguém falava algo equivocado sobre a gestão que ela conhecia como ninguém.

Já a família Dória bateu boca com a agora eleita vereadora Samia Bonfim, do PSOL. “Fala pra segurança tirar ela”, cochichou a artista plástica com um membro da equipe do futuro prefeito. No intervalo, ela arrancaria o telefone de minha mão enquanto eu gravava uma entrevista com ela pra contar sobre o bate-boca. “Aquela mulher ignorante lá ficou implicando com meu filho” era a frase dita por ela – e gravada por mim – que Bia não queria que fosse ao ar.

Ana Estela sequer olhou pra trás, imitando seu marido. Arriscava olhar para os lados quando eu perguntava algo, mas respondia monossilábica – para mim, por discrição. Bia Dória só faltava aplaudir o marido de pé. De resto, tudo fazia: de vaias a aplausos entusiasmados.

O marido de Ana Estela jogou futebol, tocou guitarra e violão, grafitou, encaçapou duas bolas na sinuca, ameaçou um hip hop, fez apostas com crianças, leu cartões de presente, tirou selfies, andou de bicicleta e, timidamente, fez o que parecia ser o mais fácil: rascunhou gritos de “fora temer”, muito mais tímido – aliás – do que o mais contido de seus aliados. Não viralizou. Mesmo para muitos jovens, não colou. Não empacou.

Ele é e sempre foi discreto e arisco. Não há o que negar. Por algum motivo inexplicável, herdou o maior dos pecados de Dilma Rousseff: a surdez. Ligava às seis, sete da manhã para secretários a fim de colher informações. Os consultava e confiava neles. Mas aos conselhos, sempre teve restrições. Decidia por conta e risco. E teve muito risco pra sua conta. E dava bronca.

As ciclovias viraram seu maior legado e sua maior crítica. A dicotomia se deve principalmente a um fator: não ouvir a população como poderia. Bateu o pé na Paulista aberta, ganhou. Bateu o pé no Teatro Municipal, perdeu.

Na campanha ignorou até Lula, quando aconselhado para se licenciar da prefeitura.

Começou com tom derrotista – se justificando caso não fosse eleito. “Veja a Erundina, veja a Marta, veja o Pitta”, dizia. Desanimou a militância. Broxou até os aliados.

Mudou de tom na última semana. Aliás, mudou completamente. De critico dos institutos de pesquisa, passou a querer surfar na onda do crescimento. De figurante, passou a ver em Suplicy um coadjuvante. De propagandista de seus feitos, virou canhão voltado a Doria e Marta. Tudo a uma semana das eleições. Talvez fosse tarde demais.

“Agora ele acertou o buraco de vez”, me disse o tesoureiro da campanha, Paulo Teixeira, uma semana atrás. “Nós estamos muito confiantes de que vamos para o segundo turno”, me contou o coordenador da campanha, Paulo Fiorillo, no dia seguinte.

Sim. A verdade é que estavam preparados para não ir ao segundo turno. Esse era o desenho de pouco tempo atrás. O que ele não esperava, era perder para seu maior opositor logo no primeiro. Um massacre.

Haddad perdeu pelo tempo de TV, por ter feito menos do que poderia para a periferia, por cortar verbas em propaganda, pela crise do PT, pelo impeachment, por não ter se licenciado, pelo desânimo, pela coligação enxuta, pelo tom arrogante, pelos erros de marketing e para um adversário incrivelmente produzido.

Haddad ganhou por ter descentralizado o carnaval e a virada cultural, por ter sido fiel ao partido, por ter bancado Chalita, por ter aberto 31 outras ruas além da Paulista, por ter criado a Controladoria, por ter sugerido um modal alternativo, por ter arrumado as contas da cidade e por ter evitado descer o nível com os adversários.

Minha aposta: Haddad não abandona a política. Ele teve o gosto de ser cortejado, de ser questionado e de ser amado. Embora colecione altos índices de rejeição, Haddad não é odiado. Talvez não seja compreendido por uns e nem conhecido por outros. Mas certamente, São Paulo mudou muito com Haddad. Que o que foi bom e deu certo, continue de verdade. E o que tiver que mudar, que não seja pela pura rivalidade. Porque se tem uma coisa que as coisas boas merecem é continuidade. 

Pedro Durán Meletti


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