João Doria (PSDB) manda pessoas para debaixo da ponte para ‘alimentar’ programa populista

A prefeitura de São Paulo realocou dezenas de moradores de rua instalados na região da Praça XIV Bis, no Centro de São Paulo, durante a realização dos serviços de limpeza da operação Cidade Linda. Eles foram reunidos na quadra de futebol e em um antigo estacionamento debaixo do Viaduto 9 de Julho. Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, os moradores de rua foram avisados com antecedência e convidados a ir para o local, e a medida foi tomada em caráter emergencial.

Com o prefeito e seus secretários vestidos de gari, a primeira etapa da operação começou na última segunda-feira (2), na região da Avenida 9 de Julho, com previsão de término para esta quarta (4).




Doria definiu a operação Cidade Linda como um grande mutirão para revitalizar áreas e “resgatar a auto-estima da cidade”. Entre os serviços de zeladoria previstos estão a varrição de ruas, poda de árvores, reparo de calçadas, conservação de galerias, manutenção da iluminação pública, limpeza de bueiros e pichações e até a instalação de câmeras em monumentos.

A passagem dos funcionários da Prefeitura mudou a rotina de diversos moradores de rua que vivem nos arredores da Praça XIV Bis. Eles tiveram de trocar as barracas de lugar e a mudança dividiu opiniões entre o grupo.

O local oferecido pela Secretaria de Desenvolvimento Social para abrigá-los foi a quadra de futebol e um antigo estacionamento existentes debaixo do Viaduto Doutor Plínio de Queiroz (Viaduto Nove de Julho). De acordo com a pasta, muitos foram encaminhados para equipamentos da Prefeitura, mas, como não havia vaga para todos, este era “o espaço disponível de imediato” para o restante.

 
Marcio Carneiro da Silva, de 40 anos, está há quase dois na rua e foi um dos que se viram obrigados a levantar acampamento. “Isso aí é um plano do prefeito pra poder limpar. Espero que seja só temporário e arrumem um lugar, um apartamento da CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano] pra gente. Se essa avenida alagar, esse viaduto vira uma piscina”, alertou.

A Prefeitura ressalta que nas semanas que antecederam a operação Cidade Linda entrou em contato com os moradores de rua para não pegá-los de surpresa. “As pessoas das barracas souberam que sairiam da calçada e canteiros para que os locais fossem limpos e recuperados e que ofereceríamos uma alternativa emergencial mais segura”, informou, por nota.

O sobreaviso foi confirmado por Carlos Roberto Domingos, que tem 57 anos e passou quase todos eles nas ruas. De acordo com o sem-teto, a mudança para a quadra é positiva no sentido de que, como o espaço foi cedido pela Prefeitura, não precisam mais se preocupar com os chamados “rapas” da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que, conforme relata, são costumeiros na região.

No entanto, Domingos mostra preocupação com o fato de agora ocuparem um local destinado ao lazer da população. “Nós, involuntariamente, estamos tomando o espaço deles. Ficamos com receio porque não queremos que a sociedade fique mais contra a gente do que já está”, afirmou ele, que surpreende pela eloquência apesar do pouco estudo.

A questão também perturba João Paulo Silva de Souza, de 34 anos, que vive há cerca de um ano nas ruas do bairro. “Tiramos o espaço do esporte. Sobrou uma quadra livre ainda, mas você acha que um pai de família vai deixar o filho jogar bola do lado de morador de rua? Tem muita gente do bem, mas também tem gente ruim aqui”, lamentou o rapaz.

Já para o sem-teto Jaziel de Almeida Luís, de 52 anos, o que preocupa é uma possível higienização, que a Prefeitura faz questão de negar. “Tiraram a gente da calçada porque passa gente importante aqui. Fica feio pra Prefeitura ver um monte de gente na rua. Nos varreu de lá e botou a gente aqui. Deus queira que eu esteja enganado, mas daqui a pouco ele coloca uma tela aqui [nas grades] para esconder a gente da sociedade”, criticou.

Leia mais no G1.