Guilherme Boulos é libertado após prisão política; capital tucana ‘ganha’ mais 6 mil moradores de rua

O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, foi liberado da delegacia onde estava detido desde a manhã desta terça-feira (17), na Zona Leste de São Paulo, após assinar termo circunstanciado (medida usada para ocorrências de menor potencial ofensivo). Boulos foi detido por desobediência judicial e incitação à violência durante reintegração de posse de terreno ocupado em São Mateus. Outro integrante do MTST, José Ferreira Lima também foi levado ao 49º Distrito Policial.

Os moradores da comunidade Colonial disseram que foram notificados há uma semana por um oficial de Justiça e tentaram resistir com barricada na Rua André de Almeida. O terreno é de propriedade particular e cerca de 6 mil pessoas vivem há um ano e meio no local.

Por volta das 7h, os moradores acompanhados por Boulos pediram para os oficiais de Justiça que aguardassem a análise do pedido do Ministério Público de suspensão da ação de reintegração de posse para tentar reverter a decisão, mas não conseguiram e, às 8h20, a Polícia Militar avançou. Bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta foram utilizados na ação.




Ao ser detido, Boulos disse que considera a detenção “injusta” e acrescentou que desde que participou de um protesto em frente à casa do presidente Michel Temer, em São Paulo, em 2016, a polícia estava de olho nele.

É uma prisão política. Despejam 700 famílias com violência e falam que eu agi com violência. É uma prisão descabida, nenhum flagrante, atribuíram coisas a mim que não aconteceram”, disse. “O MTST estava lá para garantir o direito das pessoas despejadas”, completou.

Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que “a PM atendeu ao pedido para apoiar os oficiais de Justiça no cumprimento da reintegração de posse” e que, “após tentativa de negociação dos oficiais com as famílias, sem acordo, os moradores resistiram hostilizando os PMs, arremessando pedras, tijolos, rojões e montando três barricadas com fogo”.

“Um policial militar ficou ferido de leve por uma bomba caseira e duas viaturas do Choque foram danificadas. A PM agiu para garantir o cumprimento da ordem judicial”, diz o comunicado. Ainda segundo a nota, Boulos e o outro integrante do MTST foram detidos por “participar de ataques com rojão contra a PM, incitação à violência e desobediência”.

A versão da SSP é contestada pela defesa do MTST, Felipe Vono. “O Boulos foi preso depois que a ordem judicial havia sido cumprida. Não houve resistência. Houve um diálogo. O Boulos não estava ali como ocupante do terreno. A ocupação não era do MTST. Ele estava só prestando apoio pelo direito de manifestação.”

Segundo Vono, a PM não apresentou à Polícia Civil o rojão que estaria com o Boulos.

O vereador Eduardo Suplicy (PT) foi até a delegacia acompanhar a ocorrência. Ele disse ao G1 que conversou com os delegados para passar o modo como Boulos costuma atuar. “Ele tem um histórico de luta pacífica, sem violência. Falei isso aos delegados e creio que eles entenderam. Não houve incitação à violência, não há provas, nem mesmo desacato”, disse.

‘Sem chão’

Talita Maçal aguardava informações do marido detido durante reintegração de posse (Foto: Glauco Araújo/G1)

Mulher de José Ferreira Lima, outro integrante do MTST preso, a balconista Talita Maçal Lima, de 26 anos, disse que se sentiu “sem chão” ao saber da prisão do marido.

“Vim do Ceará para cá com meu marido, deixei meus dois filhos lá para procurar por uma vida melhor”, afirmou. “Eu não sei o que vai acontecer com a minha família”, disse a mulher, que morava no assentamento. “Ficamos desempregados com a crise e não tivemos para onde ir. Eu trabalhava de balconista e meu marido de ajudante de pedreiro.”

Até a ação desta terça, eles moravam em um barraco de madeira que construíram há pouco mais de um mês. “Agora eu não sei para onde vamos. Felizmente meus filhos estão no Ceará, ainda bem que não estão aqui. Queria trazer eles, mas, agora, nem pensar.”

Texto e foto: G1