Golpe dentro do golpe varreu generais e deve levar Temer

A ditadura militar, que durou 21 anos (1964-1985) após depor o presidente eleito João Melchior Goulart, não foi um período de paz nos quartéis, como apregoa a história oficial. A cronologia dos anos de chumbo é formada por cinco golpes sucessivos: o primeiro apeou o estancieiro João Goulart do poder no golpe de 1º de abril de 1964, o segundo assassinou Castelo Branco num acidente aéreo suspeitíssimo, na manhã de 18 de julho de 1967, o terceiro teria sido o envenenamento de seu sucessor, Costa e Silva, que faleceu em 17 de dezembro de 1969.

No dia 12 de outubro de 1977 o general Ernesto Geisel derrotou a tentativa de golpe comandada pelo general Sylvio Frota. E finalmente, nos seus estertores o regime deu seu último golpe: deu posse a José Sarney no lugar de Ulysses Guimarães, sucessor natural de Tancredo Neves, falecido em 21 de abril de 1985.

A cronologia dos golpes dentro do golpe, permite um novo olhar para o momento político atual. Como vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP) conspirou para derrubar sua companheira de chapa, a presidente Dilma Roussef (PT). Mas, feito o “serviço sujo”, parece que perdeu a utilidade, e o seu principal aliado, o PSDB, já não esconde as articulações para que o seu impopular governo seja encerrado e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso seja colocado no Palácio da Alvorada via eleição indireta.




Mas, fica a pergunta: quando foi que os golpistas do passado perderam a utilidade e por que foram mortos, assassinados ou impedidos de assumir o poder? Investigações feitas por peritos e matérias publicadas nos jornais Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e na revista IstoÉ dão pistas do que ocorreu no passado e pode voltar a acontecer no presente.

Atentado aéreo contra Castello Branco

Os registros oficiais dão conta de que o marechal Humberto Castelo Branco morreu vítima de um acidente aéreo. Matéria investigativa feita pela revista IstoÉ aponta para um atentado. Motivo: Castello Branco, que havia passado o poder para o general Costa e Silva – da ala mais dura do regime militar -, estava prestes a fazer um pronunciamento à nação onde defenderia a volta do poder aos civis e a realização de eleições diretas para presidente.

Segundo a versão da ditadura, o Marechal Castello Branco faleceu em um acidente aeronáutico, em uma aeronave do Governo do Estado do Ceará, um Piper Aztec (foto abaixo) matriculado PP-ETT, no dia 18 de julho de 1967. A aeronave que conduzia o ex-Presidente foi atingida na cauda pela ponta da asa de um caça da Força Aérea Brasileira, um Lockheed TF-33, perdendo a deriva. Depois de entrar em parafuso chato, o avião chocou-se com o solo e todas as pessoas a bordo morreram, com exceção do co-piloto.

Globo conspirou contra eleições

O Marechal havia deixado a Presidência da República três meses antes do fatídico dia. Tinha sido pressionado a passar o governo para Costa e Silva – seu desafeto. As diferenças de pensamentos entre o grupo de militares que Castello Branco liderava e os da linha dura liderados Golbery do Couto e Silva, Médici e Costa e Silva eram claras e quase públicas.

Castello Branco era favorável a que o poder fosse devolvido aos civis através de eleições diretas e pretendia fazer um discurso no dia 19 de julho. Não deu tempo: foi morto no dia 18 de julho de 1967. A conspiração que levou a sua morte teria sido feita por militares da linha dura, influenciados pelo então embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon e pelo presidente das organizações Globo Roberto Marinho, que trabalharam para que a ditadura se solidificasse. Marinho acreditava que se houvesse eleições diretas a oposição venceria tanto no Legislativo quanto no Executivo.

Segundo documentos divulgados pelo site WikiLeaks, no dia 14 de agosto do 1965, ano seguinte ao golpe, o então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, enviou a seus superiores um telegrama então classificado como altamente confidencial – agora já aberto a consulta pública. A correspondência narra encontro mantido na embaixada entre Gordon e Roberto Marinho, o então dono das Organizações Globo. A conversa era sobre a sucessão golpista.

Segundo relato do embaixador, “Marinho estava trabalhando silenciosamente junto a um grupo composto, entre outras lideranças, pelo general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar; o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI); Luis Vianna, chefe da Casa Civil, pela prorrogação ou renovação do mandato do ditador Castelo Branco”.

No início de julho de 1965, a pedido do grupo, Roberto Marinho teve um encontro com Castelo para persuadi-lo a prorrogar ou renovar o mandato. O general mostrou-se resistente à ideia, de acordo com Gordon.

Sedendo a pressões da caserva, Castello Branco passou a faixa presidencial para Costa e Silva, com o qual não tinha boas relações ou afinidades ideológicas. Mas, segundo pessoas próximas, não havia desistido da ideia de falar à nação sobre a necessidade de retomada da restauração da normalidade democrática. Este desejo levou a linha dura da ditadura tramar a sua morte. .




De acordo com a investigação feita pela revista IstoÉ, o único sobrevivente do acidente, o copiloto Emílio Chagas, entrou com ação contra a união pedindo explicações mais detalhadas sobre o acidente. O mesmo fez o Ministério Público Federal, pois a investigação que matou um ex-presidente foi cercada de sigilo, onde se colocou um aspirante a piloto de caça como o autor do acidente que vitimou Castello Branco. Não seria ele o copiloto do caça? Na região onde o avião do Marechal foi abalroado haviam mais dois aviões de caça em manobras. Porque seus pilotos não foram ouvidos? “São lacunas que precisam ser preenchidas para que a história seja revista e a verdade surja”, conclui a reportagem.

Bomba atômica e distensão

Se Castelo Branco foi assassinado por querer a volta da democracia, o seu sucessor, Costa e Silva, foi o autor do famigerado AI-5 (ato institucional número 5), editado em 13 de dezembro de 1968, que literalmente “baixou o terror” acabando com o habeas corpus e institucionalizou a repressão política, a tortura e a morte de adversários do regime. Paradoxalmente, um ano após lançar o país nas trevas, Costa e Silva morreria em 17 de dezembro de 1969, externando aos auxiliares mais próximos os planos de retirar o AI-5, revendo a radicalização do regime.

Costa e Silva criou uma comissão de juristas para elaborar uma emenda à constituição pela extinção do AI-5, emenda esta que o general queria assinar no dia 7 de setembro de 1969. A emenda restabelecia os direitos políticos e suspendia as prisões sem mandatos judiciais, proibia a intervenção nas universidades e faria restabelecer a ordem democrática no país. A junta militar, no entanto, foi contra essa emenda, numa reunião de 25 de agosto de 1969. A linha-dura defendia a manutenção da ordem, ou seja, da repressão. No dia 17 de dezembro de 1969, Costa e Silva morria de ataque vascular cerebral. Matéria veiculada pela Folha de São Paulo, trouxe nova luz a estes fatos: assim como no episódio de Castello Branco, os Estados Unidos também monitoravam os passos de Costa e Silva.

Os EUA não tinham interesse na redemocratização do Brasil, mas tinham menos interesse ainda nos projetos de Costa e Silva e de setores da inteligência militar em tornar o país capaz de produzir uma bomba atômica. Matéria no Estadão, no dia 7 de julho de 1967, estampava a manchete: “Sai em 6 anos a bomba A”.

A Folha registra que telegramas da embaixada dos EUA mostravam o temor do “irmão do Norte”, que passou a fazer grossa vigilância ao físico nuclear brasileiro José Goldemberrg. A embaixada então relata, Goldemberg tem motivações ultra-nacionalista e que se assumisse algum cargo importante no governo militar e, com suas posições, pudesse influenciar a fabricação de artefatos nucleares no Brasil . Na página 4 do telegrama diz que, Goldemberg não pode ser considerado pró-americano. […]”Ele é pró-Brasileiro primeiro e se ele for pró qualquer coisa, será provavelmente pró-canadense”[…]. Isso se refere ao pós-doutorado do professor Goldemberg no Canadá, onde se especializou num dos melhores centros de estudos do mundo sobre energia nuclear.

Costa e Silva queria a bomba e também queria distencionar a ditadura. Os EUA não queriam nem uma coisa, nem outra. De acordo com a reportagem da Folha, a viúva de Costa e Silva contou, ao então ministro da Agricultura Ivo Arzua, que quando levantaram o colchão de Costa e Silva, estava cheio de remédios que ele se recusou a tomar. “Por que alguém com alto grau de instrução, diante de problemas de estresse e sabendo de problemas de saúde, se recusara a tomar remédios para seu próprio bem?”, questiona.

Quando teve problema com os primeiros sintomas de AVC, nem mesmo os ministros puderam visitar Costa e Silva no hospital. Apenas os militares da junta podiam fazer visitas a Costa e Silva, que acabou falecendo num hospital do Rio de Janeiro.

CIA e as suspeitas de envenenamento

A Folha registra que quando foi declarada a morte do general Costa e Silva, a embaixada dos EUA envia um telegrama “Burial of Costa e Silva” muito importante para o departamento de Estado Americano. Na página-1 parágafo 2, a embaixada escreveu (ao lado):
“2. A morte de Costa e Silva aparentemente tomou a nação de surpresa. Tivemos muito poucas notícias dele desde que o presidente Medici assumiu o governo, e a impressão geral era que ele estava em processo lento e gradual de recuperação.”

Na sua pesquisa a reportagem da Folha recorre ao site Culto do Conhecimento, onde chega ao artigo “Assassinatos da CIA por ataque cardíaco e cancro”. No artigo é citado um tipo de dardo que atravessa a roupa da pessoa e se desintegra com um veneno que provoca ataque do coração. O depoimento da CIA em 1975 no congresso americano pode ser encontrado no youtube sobre como causar um ataque cardíaco à distância
Segundo esse artigo do próprio departamento de Estado americano “Microwave US-USSR, Vol VI, July-Dec. 1976 p. 4, Office of Security, US Dept. of State” foi possível induzir um ataque cardíaco à distância numa pessoa com um radar. Isso ainda no ano de 1976, talvez inspirando ou inspirado nos filmes de James Bond.

Nos recentes anos muitos casos de doenças e mortes ditas naturais estão ocorrendo tais como: câncer dos ex-presidente Lula e Dilma Roussef, o câncer do líder venezuelano Hugo Chavez, câncer do presidente Lugo do Paraguai e câncer da presidente da Argentina, Cristina Kischiner. Nos tempos mais remotos tivemos a diverticulite de Tancredo Neves, os atentados, patrocinados pela Operação Condor, que levaram às mortes de Juscelino Kubitschek, num acidente de carro e ataque cardíaco de João Goulart, que segundo um agente da ditadura uruguaia, Mario Neiva Barreito, teria sido provocado por envenenamento. Há ainda o AVC da mãe de Collor e o AVC com a morte do irmão de Collor, logo depois das denúncias que levaram ao impeachment do ex-presidente.




Slobodan Milosevic, ex-presidente da Sérvia acusado de uma porção de crimes contra a humanidade e genocídio da Bósnia, fez sua própria defesa no tribunal de Haia. Resistente e negando culpa pelas acusações, estava deixando o tribunal complicado porque as acusações não conseguiam encontrar uma conclusão sólida sobre a acusação. Morreu de ataque cardíaco em 2006 e as investigações terminaram.

O golpe contra Geisel

Em 12 de outubro de 1977 o general Ernesto Geisel barrou a tentativa de golpe do general Sylvio Frota. A ditadura caminhava para o fim. Em 1974 o MDB, partido de oposição ao regime, havia derrotado a Arena, partido da ditadura, nas eleições para o Senado. Em 1975 o assassinato do jornalista Vladmir Herzog nas dependências do Doi-Codi em São Paulo, desencadearia a campanha pela Anistia e protestos cada vez maiores contra o regime militar. Foi neste ambiente de contestação que Geisel se vê obrigado a ceder aos apelos da sociedade pelo fim da ditadura.

Membro da linha-dura, o general Sylvio Frota não queria a chamada “abertura lenta e gradual”. Defendia o recrudescimento da repressão e para tanto pleiteava a sucessão de Geisel, que ao contrário, defendia a nomeação do general João Baptista Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de Informação. Geisel antecipou os passos de Frota, isolou-o dos seus comandados e forçou sua demissão naquele 12 de outubro de 1977. O general, no entanto, saiu atirando: fez chegar aos jornais uma lista de 98 “subversivos” empregados em universidades, ministérios e governos estaduais. O terceiro nome da lista era o da futura presidenta Dilma Rousseff, que por isso foi dispensada do cargo de estagiária da Fundação de Economia e Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul.

O último golpe

Ex-ministro de Getúlio Vargas, ex-ministro de João Goulart, ex-governador de Minas Gerais, Tancredo de Almeida Neves era a raposa mais felpuda da vida política nacional. Habilidoso, conseguira rachar a Arena, partido do regime, trazendo para o lado do PMDB o PFL (Partido da Frente Liberal). Derrotada a Emenda Dante Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente em 1984, Tancredo tratou de arranjar meios de vencer a disputa no Colégio Eleitoral. E assim fez. No dia 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral reuniu-se e Tancredo Neves foi eleito presidente para um mandato de 6 anos com 480 votos (72,4%) contra 180 dados a Maluf (27,3%) e 26 abstenções.

Tancredo, no entanto, não tomou posse. Foi vitimado por fortes dores abdominais identificadas como diverticulite. Em Brasília dizia-se que o último general-presidente, João Baptista Figueiredo, repetia sempre o mantra: “Tancredo Never”.

Assim como nas mortes dos presidentes João Goulart, Juscelino Kubstchek e do jornalista Carlos Lacerda, a morte de Tancredo parece ter sido parte de uma trama, cuja obra seria dos operadores da Operação Condor, o consórcio de terror e repressão política articulado pelos aparelhos de repressão política das ditaduras do Cone Sul (Brasil, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai)

Em entrevista ao já saudoso Generton Morais Neto, exibida na Globo News em 04/04/2010, o general Leônidas Pires Gonçalves, então com 89 anos, confirmou que praticamente mandou dar posse a José Sarney, a época presidente do Senado e vice de Tancredo Neves. Leônidas seria ministro do Exército durante os cinco anos de governo de Sarney (1995-1990). “Eu telefoniei para ele (Sarney) de madrugada. Ele me disse assim, quase textual: Leônidas, estou muito constrangido de assumir amanhã sem o presidente Tancredo Neves. Aí eu disse para ele: Sarney, deu muito trabalho organizar todo este evento de amanhã, e está previsto de acordo com a Constituição, que você assume. Portanto… boa noite, presidente”.

A linha sucessória era clara: se o presidente não tomava posse, o vice não poderia ser empossado, e o cargo de presidente caberia ao presidente da Câmara Federal, o deputado Ulysses Guimarães (PMDB-SP). O adoecimento de Tancredo, sua morte à véspera da posse e o endurecimento final da caserna levaram Sarney, ex-presidente da Arena e do PDS a ser o primeiro presidente civil a tomar posse após o fim “oficial” da ditadura.




Rasteira em Temer

O presidente usurpador Michel Temer (PMDB-SP) fez o “serviço sujo”: conspirou contra a titular da pasta, a presidente Dilma Roussef (PT-MG). Após o golpe midiático-jurídico-parlamentar que destituiu sua companheira de chapa, Temer se lançou a um intenso programa neoliberal que não foi contemplado nas urnas pelos 54 milhões de brasileiros que elegeram Dilma Roussef.

Temer foi rápido entregando o Pré-Sal para as gigantes do petróleo Shell e Chevron (Texaco), enviou para o Congresso Nacional projetos que acabam com a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), prevendo o fim da carteira de trabalho, FGTS (Fundo de Garantia do Trabalhador), 13º salário, férias, e ainda, fim dos concursos públicos e a terceirização geral de todos os serviços públicos.

Este pacote de maldades tornou Temer um dos presidentes mais impopulares da história. Mas, com o serviço sujo feito, e cada vez com menos condições para se sustentar no governo, o usurpador vê crescerem os tentáculos dos fiadores do golpe sobre o seu governo: o PSDB do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (SP) e dos senadores Aécio Neves (MG) e José Serr (SP). FHC e Aécio foram os principais entusiastas do impeachment de Dilma Roussef. Serra foi o autor da lei que tirou da Petrobrás a exclusividade para operar o Pré-Sal.

Com seus principais auxiliares – e ele próprio -, enrolados nas delações premiada da Operação Lava Jato, Michel Temer balança, e por enquanto não cai porque quem trama sua queda não quer que ele desabe antes do final do ano. Preferem que seja derrubado só no ano que vem, pois na hipótese de renúncia ou destituição de Temer até o dia 31 de dezembro, eleições diretas teriam que ser convocadas para substituí-lo.

FHC, Aécio, Serra e também o ex-ministro da Defesa e da Justiça, Nelson Jobim (PMDB), sonham com a possibilidade de assumirem a presidência em eleições indiretas em 2017. Preferem o colégio eleitoral ao risco de ter que enfrentar o ex-presidente Lula nas urnas, pois o petista, apesar do bombardeio da República de Curitiba, continua sendo o presidente mais bem avaliado da história do Brasil.

É o golpe dentro do golpe.

Em 1º de abril de 1964, o marechal Humberto Castelo Branco assumiu a linha de frente da deposição do presidente João Goulart. Arrependido (?) quis voltar atrás em 1967 quando foi morto. Em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva implantou o terror, um ano depois, querendo por de novo na jaula o mostro que soltou, foi devorado pela fera que criou.

Michel Temer, que lançou o Brasil numa das piores crises políticas de sua história, pode ser ele próprio vítima das mesmas forças que o levaram à presidência.

A derrota na noite de terça-feira na Câmara Federal, quando os deputados rejeitaram o pacote de maldades contra os Estados e os funcionários públicos mostram que ninguém quer afundar junto com Temer no navio onde laçou o Brasil em águas turvas e perigosas.

O fim está próximo.

Marcos Vinícius é jornalista, edita o jornal Onze de Maio e o o próprio blog.