Gleisi Hoffmann: Nenhum direito a menos. Queremos mais. Força, mulheres!

Este vai ser um 8 de março diferente. Nos últimos anos, nós brasileiras sempre aproveitamos o Dia Internacional da Mulher para reivindicar e protestar, mas também tivemos a chance de comemorar muitos avanços.

Lamentavelmente, a comemoração ficou para trás. Desde o golpe que derrubou a primeira presidenta eleita em 128 anos de República, o país passou a viver uma era sombria, onde o conservadorismo exacerbado e o desrespeito e a afronta aos direitos mais elementares de homens e mulheres vêm sendo praticados de forma sistemática, descarada e extremamente preocupante.

Por essa razão, este 8 de março não será igual aos outros, como aliás ocorrerá em muitos países. As mulheres do Brasil se unirão aos movimentos internacionais que estão convocando greves na Argentina, nos Estados Unidos, na Polônia e em várias nações para combater com mais força o feminicídio, a perseguição aos imigrantes, a perda de direitos, entre tantas bandeiras.




Em quase todos os municípios do Brasil as mulheres, principalmente agricultoras e camponesas, estarão nas ruas para apoiar a luta internacional e dizer não à reforma da Previdência, que atinge principalmente as mulheres. O grito uníssono será “Aposentadoria fica, Temer sai!”

Nos grandes centros mulheres do campo e da cidade também estarão unidas na luta, parando, protestando, denunciando os retrocessos e esse governo que atrasa o país. No Congresso Nacional também vamos parar e protestar na quarta-feira. Pela manhã, parlamentares estarão nas entradas do Senado e da Câmara conversando com servidoras e visitantes sobre a importância dessa data e da necessidade de ampliarmos a luta pela igualdade de direitos. À tarde sairemos em caminhada para nos juntarmos às representantes de diversos movimentos sociais em uma grande manifestação contra as reformas de Temer. 

Precisamos agir assim. A gente vê crescer a misoginia, o machismo, o preconceito e a violência. Essa realidade nos assusta porque já tínhamos conquistado um patamar diferenciado para a mulher na sociedade. Mas percebemos que está havendo um retrocesso muito grande. E não é apenas a intolerância, por si só, já muito triste. O que vemos também é o atraso patrocinado por autoridades, tanto do Executivo quanto do Legislativo, em cima dos direitos do povo, das mulheres.

Episódios não faltam. Depois de derrubar Dilma, a primeira ação de Michel Temer foi apresentar um ministério sem mulher, iniciativa timidamente corrigida após intensos protestos, até mesmo de quem apoiou o golpe. A misoginia ficou clara ainda com o rebaixamento da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres e o desmonte de programas de proteção e de combate à violência para mulheres.

Esse comportamento ajudou muito a despertar na sociedade o preconceito que estava contido. Quem tinha preconceito, quem achava que a mulher não tinha que ocupar espaço, que não tinha que crescer, passou a se manifestar abertamente porque se sentiu protegido pelos exemplos que presenciou e ainda presencia. As manifestações nas redes sociais são um espelho do que vivemos. Além das mulheres, atinge outras pessoas: LGBTs, negros, migrantes…

A mensagem que esse governo ilegítimo deixa passar não poderia ser mais clara: falar dos direitos da mulher, defender seus interesses é quase que um pecado, quase que uma agressão à ordem institucional ou moral vigentes.  E o mais vergonhoso é que tal atitude serve de inspiração. Basta ver o que aconteceu neste ano no Senado Federal. A mesa diretora ficou sem a participação feminina. Na Câmara, apenas uma deputada compõe o comando da Casa. 




Mas o pior ainda está por acontecer. Temer e os seus tomaram o poder para, entre outras crueldades, patrocinar um dos maiores ataques contra as mulheres da história do país. A reforma da Previdência significa o auge do desrespeito e do desprezo pelo trabalho e a dignidade das brasileiras.

Querer igualar em 65 anos a idade de homens e mulheres se aposentarem, com 25 anos de contribuição, é uma violência. Não escapam nem as trabalhadoras rurais, que submetidas desde cedo à dureza da lida com a terra, não vão se aposentar mais aos 55 anos. Precisarão trabalhar pelo menos 10 anos a mais, o que resultará em uma perda de 130 salários.  As donas de casa que tinham uma aposentadoria diferente também serão atingidas, assim como as professoras, que perderão a aposentadoria especial.

Equiparar a idade de homens e mulheres para aposentadoria é desconsiderar a dupla e crescente jornada das mulheres. É desconsiderar ainda a desigualdade salarial, que faz com que elas cheguem a receber até 25% menos que os homens na mesma função.

E o projeto de Temer não para por aí. Querem reduzir a menos de um salário mínimo o benefício pago a pessoas com deficiência e com mais de 65 anos que vivem em situação de vulnerabilidade. Se a reforma passar, o benefício, reduzido, ainda só será pago aos 70 anos. É inadmissível.

Neste 8 de março e enquanto for preciso, nós mulheres vamos protestar, e muito, contra esse governo feito para homens ricos e brancos. Simone de Beauvoir já nos alertava: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.

Por tudo isso, fiquemos unidas e vigilantes!  

Gleisi Hoffmann (PT-PR) é líder do PT no Senado.