Gleisi: Eleições agora! Só o voto popular salva nossa democracia

Nunca pensei que, depois de eleita, subiria à tribuna do Senado da República para me indignar contra o impeachment de uma presidenta que não cometeu crime algum e, da mesma forma, para me opor a negação de nossa Constituição com a aprovação de uma emenda constitucional (PEC 55) que retira direitos fundamentais do povo brasileiro: saúde, educação, assistência e previdência.

Nós, senadores da oposição, não combatemos a proposta do governo por demagogia ou porque apostamos no oportunismo do “quanto pior melhor”. Sabemos a verdade que está por traz disso. Os defensores desse programa de austeridade prolongada alegam que o corte nos gastos e investimentos públicos por 20 anos é essencial para acabar com a grave crise econômica que o país enfrenta. É mentira. O que eles pretendem é simplesmente eliminar as conquistas dos mais pobres iniciadas em 1988, com a promulgação da Carta Magna, e manter intocáveis os privilégios do “andar de cima”. Então, inventam esse ajuste fiscal draconiano.

Mesmo que o objetivo deles fosse apenas reverter a deterioração da economia, sem nenhuma maldade dissimulada, o remédio estaria errado, como de fato está. Na semana passada o IBGE divulgou o resultado do PIB do terceiro trimestre.  No acumulado em quatro trimestres, a economia já encolheu 4,4%. E a produção industrial caiu mais 1,1% em outubro. A recessão na qual o Brasil está afundado caminha para se tornar a mais longa e perturbadora da História recente do país.

Como querem, então, combater esse quadro devastador com mais recessão, com esse arrocho fiscal?  Eles argumentam que os governos do PT foram perdulários, gastaram muito, e que é preciso restringir ao máximo o orçamento. Mas mostramos que a desculpa é pura falácia. Não foi perdulário um governo que fez por dez anos consecutivos superávit primário, que economizou mais do que gastou. Por isso conseguimos reduzir a dívida pública. Tivemos déficit apenas em 2014 e 2015 devido, entre outros fatores, à forte queda na arrecadação, consequência da desaceleração da economia.




Em momentos de crise, como estamos, só o Estado é capaz de tirar o país da estagnação. Não há outra saída, estamos convictos disso. O IBGE mostrou que os investimentos privados despencam e as famílias restringem o consumo ao mínimo necessário. A situação chegou a tal ponto que os empresários começam a pressionar o governo de Michel Temer a sair da letargia e apresentar propostas de curto prazo capazes de estimular a economia.  Até setores do PSDB, que patrocinou o golpe e a PEC 55,  já questionam o receituário fiscalista do ministro Henrique Meirelles e a ortodoxia excessiva do Banco Central de Ilan Goldfajn.

Começam também a surgir na imprensa que apoiou ostensivamente o afastamento de Dilma, sinais de descontentamento no próprio governo com o ministro da Fazenda. Um jornal carioca publicou recentemente que, na análise de assessores do Palácio do Planalto, Henrique Meirelles vem “perdendo substância” devido à pouca efetividade das medidas tomadas até o momento, quase todas com viés mais estrutural que conjuntural, como exigiria o momento. Nem eles acreditam mais na mágica da “fada da confiança”.

A crítica vai além! O mercado, ser de razões bem compreensíveis, já aposta contra o próprio Temer, e recebe apoio de alguns setores da política que compõem o governo do golpe, como o PSDB. Já se vislumbra a armação do golpe dentro do golpe: eleger um novo presidente via colégio eleitoral. Via Congresso Nacional!

Governos ilegítimos, sem voto popular, não têm força nem sustentação para acabar com a crise política como a que vivemos e começar a resgatar o crescimento econômico. Temer é fraco e sem representatividade. Medroso e indeciso. Qualquer outro governo, que deva sua eleição ao Congresso Nacional que hoje temos ficará refém do atraso, conservadorismo e medidas corporativas.

Antes que as besteiras persistam,  as reformas cruéis continuem e a fraqueza de governo, que o torna refém de interesses menores siga adiante, precisamos colocar a solução nas mãos do povo. Ele é soberano para decidir. Temos de antecipar as eleições de 2018, sob pena de transformarmos o país numa praça de guerra, num território de intolerância e ódio e, mais do que isso, num cenário de retrocessos sociais irreversíveis.

Lutamos muito para chegarmos até aqui. Para conquistarmos avanços que melhoraram um pouco a vida do povo brasileiro. Um Estado de mínimo Bem Estar Social. Desmontar isso sem informar, debater e ter o consentimento popular não está nas mãos deste governo e nem de qualquer outro que entre de forma ilegítima.

Somente o voto popular tem poder de restaurar a democracia brasileira! Eleições agora! Continuaremos resistindo e lutando por um Brasil sempre melhor para a maioria de seu povo!

Gleisi Hoffmann é senadora pelo PT do Paraná. Foi ministra-chefe da Casa Civil do governo Dilma Rousseff.