Francisco Costa: Frouxo, covarde e pulsilânime

Conheci o adjetivo pusilânime ainda na adolescência, na inspiração da magistral Cecília Meireles, no poema Romanceiro da Inconfidência (“Vós sois os pusilânimes”), e naquele momento associei a palavra a uma subespécie humana, a dos que nasceram para prejudicar, impor o mal, obstruir a evolução, em todas as abordagens possíveis: social, econômica, material, espiritual.

Considero esta uma palavra tão pesada que pouco a uso, inclusive nos meus poemas e contos.

Temer anunciou que não irá à festa de encerramento das Olimpíadas, no próximo domingo, porque não é usual presidentes comparecerem a tais eventos.

Mentira, é protocolar o Chefe de Estado onde se realizaram as Olimpíadas passar a tocha para o Chefe de Estado onde se realizarão as próximas, em cerimônia pública, na arena onde se realizaram os jogos.

Temer não vai porque é covarde, teme vaias, apupos, manifestações de repúdio à sua triste figura.

Recalcitrante, afirma para depois negar, toma decisões para revogar, como o fim do MinC, que voltou, nunca se pronuncia diretamente, servindo-se de um dos seus ministros, mesmo em questões maiores.

Tem discurso monocórdico, num português castiço, de vocabulário ultrapassado, rico em figuras estranhas ao pouco letrado, como as indefectíveis mesóclises, abundantes no seu não falar claro, sempre intimidado e recalcitrante, descolorido como uma aquarelada imagem que tomou sol, pouco dizendo ao observador, inspirando nada.

Se isto é desconcertante, mostra uma frouxidão que não compromete o caráter, só o fazendo um fraco, mal preparado até para a vereança, o que não teria conseguido com os votos que obteve nas últimas eleições (só não ficou suplente por causa das coligações num sistema de votos proporcionais, sendo o penúltimo na fila de eleitos a deputado, em São Paulo).

Temer viveu a intimidade do governo que está sendo deposto, assinou pedaladas, participou de reuniões e refeições, junto com os que ele hoje persegue, está sob as mesmas acusações e desconfianças, e os amigos, cúmplices, parceiros, correligionários, companheiros são hoje o tapete onde ele apóia os sujos pés.

Não gosto do termo pusilânime, ele me remete a Silvério dos Reis, ao qual associei, por causa do poema citado.
Não o associo nem mesmo a Judas Escariotes, porque este traidor nos deixou alternativas de justificativa: por ser o mais politizado dos companheiros de Jesus, não teria visto no pacifismo do Mestre um entrave à causa judaica, oprimida pelos romanos? Não teria sido peça fundamental no projeto de Jesus , já que Jesus não só, em diversas oportunidades, tinha profetizado a traição, como ordenou a Judas que a fizesse?…

Não importam os motivos. Importa que Judas arrependeu-se, criou a consciência que era um pusilânime, e não suportando-se, suicidou-se.

Silvério dos Reis, não. Viveu no fausto proporcionado pelos portugueses, pelos colonizadores, que se tornaram seus proprietários.

Há praticamente consenso, hoje, na mídia mundial, dos Estados Unidos à Rússia, da Inglaterra à China: Dilma foi traída, uma quadrilha de salteadores do dinheiro público perpetuou um golpe para livrar-se da justiça, Temer é um preposto dos Estados Unidos, já tendo sido informante da Cia… Escrito em todas as línguas.

Domingo o governo brasileiro estará ausente das arenas olímpicas, substituído pelo Prefeito do Município do Rio de Janeiro, como até agora esteve, ausente de qualquer legitimidade, impondo uma impostura.

Diante disto tomo de empréstimo o mais cruel dos versos de Santa Cecília, a Meireles, canonizada no altar da poesia: “Vós sois um pusilânime” e com ele defino um Silvério contemporâneo.

Francisco Costa
Rio de Janeiro, 16/08/2016.