Fernando Brito: Pequena história de uma grande farsa

Via Tijolaço:


Os bons resultados econômicos foram – embora já não exuberantes como no segundo mandato de Lula – sem qualquer dúvida, o que elegeu Dilma em 2014

No final daquele ano, porém, já se brigava com uma  recessão que se tornaria pesadíssima e que serviu como caldo de insatisfação para a cruzada da mídia que apontava a esquerda como corrupta e imoral.

Nel, jogou-se o poderoso fermento do inconformismo dos derrotados, com Aécio Neves à frente, o súbito ódio das corporações de estado e e o dueto Moro Globo.

A corrupção  – que, em tese, não produziu nenhum efeito macroeconômico nos tempos de bonança, curioso – passou a ser a responsável  pela crise. A derrubada do governo e a ortodoxia econômica – já semi-implantada com Joaquim Levy, aliás – deram a hegemonia – ao menos na superfície das relações de comunicação da sociedade, às saídas conservadoras como “salvação da lavoura”.




O povo, claro, não quer saber de crise e não quer saber de corrupção e, como passou a ouvir o dia inteiro e todo dia que ambas eram fruto do mesmo PT que, antes, trouxera abundância  e reforçara os mecanismos de controle e repressão aos desvios na administração – seria infindável a lista do que foi feito, a começar pela delação premiada –

Nosso povão está “na  dele” e, se o iludem, culpa de que não pôde e não soube esclarecê-lo.

A eterna baboseira da direita, e de que é preciso “liberar a iniciativa privada” – como se ele já não fosse livre para quase tudo – era repetida desde o “Bom Dia, Brasil aos “boa noite, Brasil”, embora já não houvesse nada de bom (nem de dia, nem de noite)  no Brasil dentro dos jornais, telejornais, radiojornais e ciberjornais.

Os fatos não vêm ao caso.

O Rio, apesar da incompetência e das sem-vergonhices das gestões cabralinas afundou por conta do despencar dos preços do petróleo, mas isso é um detalhe fora do powerpoint. A indústria  associada ao petróleo, assistiu quietinha à grita pelo fim do conteúdo nacional e, depois do golpe, foi pedir, pós golpe, proteção a indústria nacional de óleo e gás. Levou uma banana.

Acabou com o financiamento de empresas, mas se permitiu o financiamento censitário, prosperam sonhos de ascensão e ilusões de meritocracia de milionários como Dória, e as redes religiosas como Crivella.

Lula recebeu o governo pelo voto, mas também porque se esperava seu fracasso. Quando este não veio, puseram-se a querer faze-lo sangrar com o mensalão. Não deu…

E veio o grande salto que fez o tsunami da crise mundial virar marolinha e fazer o país desenvolver-se economicamente como há décadas não se via.

Eleita Dilma, veio o canto de sereia: faxine, Presidenta, faxine…

E a nova tática, ao gosto de uma classe média que não dá a menor bola para que a maioria viva na Índia, desde que ela viva na Bélgica.




(Parêntesis: se a Bélgica vive os pavores dos atentados, porque aqui não se viveria o pavor da violência com os nossos “refugiados sírios” do outro lado da rua?)

Então a direita, sempre esperta e criativa, largou o discurso do neoliberalismo e vestiu o “Padrão Fifa”. Não eram só os 20 centavos, mas trilhões o que estava em jogo diante da possibilidade daquele modelo nacional desenvolvimentista dar certo. E reclamava-se dos hospitais, das escolas, dos postos de saúde onde a classe média não ia, serem precários, em contraste com a modernidade dos estádios da Copa onde, afinal, só eles foram.

É uma bofetada numérica nos sábios que vivem repetindo que os governos do PT não fizeram “nada”, que arruinaram o país e se conseguiram algo foi porque tiveram uma conjuntura internacional favorável, como se a crise de 2008/9 não tivesse sido, no dizer deles próprios, só comparável ao crash de 1929.

tripa2Esqueçamos os números dos economistas, para os quais há também um extenso quadro de comparações na imagem aí ao lado,  essa “tripa” de dados que acompanhará todo o post, até o final, capaz de derrubar todos os “senões” que possam levantar.

E a primeira geração sem fome no país? E a duplicação do número de estudantes universitários? E as mudanças no Nordeste? E o pré-sal? E o ressurgimento de um programa habitacional popular que este país não tinha desde que quebrou o BNH, ainda na ditadura? E o fim da dívida externa e da “meteção de bedelho” das missões do FMI por estas plagas?

Não vou cansar os leitores e a s leitoras com uma sucessão infinita de perguntas assim.

O PT foi conciliador? Sim, teve um projeto de conciliação que se quebrou, porque a elite deste país divide assim as coisas: o progresso é dela, os problemas são do governo, que deveria obter recursos com prestidigitação, e não com impostos cobrados de quem os pode pagar.

A direita está em um projeto selvagem de “restauração”. PEC 241 combinada com reforma de ensino médio vai fazer regredir na universalização do ensino que se iniciou com o próprio  PSDB…Como ampliar para 7 horas o ensino com teto de verbas?

A interrupção nos empréstimos internacionais do BNDES, que parece um tema de “lisura” é uma tragédia anunciada, porque deve gerar o calote das parcelas já paga e o fim do nome do país para financiar exportações. A indústria naval está sendo destruída e o pré-sal será explorado nos próximos 20 anos com lucros para poucos e nada revertido para políticas públicas de saúde, educação, ciência e tecnologia.

O que irão gerir esses novos prefeitos da direita, tão saudados? As expectativas do “pós-PT” com recursos “pré-PT”?

As transferências da União, com o déficit nas contas públicas se tornaram menores, muito menores. O que é repassado a Estados e Municipios por repartição de receita, este ano, caíram 9%, em valores reais. As voluntárias,  muito mais. O processo se repete, com a recessão, para o que vai dos Estados para a s prefeituras, pela via do ICMS. O gigante São Paulo perdeu no mês de setembro 10% de suas receitas com este imposto.

Educação e saúde nos tempos da PEC 241? Boa sorte para entregarem o que prometeram.

É possível que João Dória consiga se sustentar bem, por um tempo: é esperto, rápido e terá a mídia. Marcelo Crivella é uma incógnita e pode perder ou ganhar com o interessantíssimo Globo X Record no Rio., Diz um velho ditado que quando os gatos brigam, folgam os ratos.

Claro que os tempos são sombrios. Poucas vezes, desde a ditadura, a direita esteve tão feroz e obscurantista. E tendo agora, como teve nas Forças Armadas á época, a Justiça como instrumento da perversidade.

Dia a dia a “overdose” de judicialismo policial vai se acentuando e não apenas nisso: tem sido sistemática a cassação de direitos sociais e trabalhistas pela via do Judiciário, como já se apontou aqui.




“Quando não se tem nada, não se tem nada a perder”. A frase do Bob Dylan, agora Nobel, deveria servir à esquerda nesta hora de muitas mágoas, ambições e auto-críticas.

Há problemas geracionais,  fetiches pelo “fracasso” que os meios de comunicação alardeiam e que – embora reais, não podem ser tornados absolutos por resultados de eleições locais.

Boa sorte aos que pretendem se enclausurar em redomas de pureza egocêntrica. Mas quem quiser viver o mundo real tem de se procupar em  construir um programa mínimo e amplo com alianças em setores (sociais, regionais e inclusive empresariais) que logo irão descobrir que o envelhecido projeto do golpismo também lhes será lesivo.

Não haverá recuperação na economia real. Não está no horizonte imediato dos pobres terem o que um dia tiveram.  Será fechada a porta da ascensão social aos mais jovens. O Nordeste desconfia demais do Golpe. Os empresários que vendem para o mercado interno não sairão da crise. Embora a mídia promova o otimismo com o futuro, o povo aguarda e não servirá para sempre o antipetismo como explicação para todas as mazelas, mas isso .

Aqueles que negam a política (e a geopolítica)  entendam: se o estado brasileiro não mudar, o país não muda e o nosso povo (e, com ele, o convívio social mais amplo) afundará cada vez mais.

A disputa pelas políticas públicas permite multiplicar o alcance e eficácia da nossa luta por um país melhor e mais justo. Isso não é contraditório com organização popular ou conscientização da sociedade. São lutas complementares permanentes. Reduzir nossos sonhos a isto não apenas é pensar em ponto pequeno, é destruir estes próprios avanços, porque torna-los o tema central nos afasta do que o povo sente.

O Brasil não tem outro caminho senão o de ser o que é: um país grande, um grande país. Sem essa visão nacional, jamais seremos um país com renda média, com condições de vida dignas para uma população de 200 milhões, com distribuição de renda ao mínimo civilizada.

Não temos outra opção, pelo nosso tamanho, senão ser uma potência com repercussões globais e é por isso que o golpe não enxerga o quanto nos diminui e diminuirá no contexto (político e econômico) mundial. Países pequenos, como o Uruguai, podem garantir bom padrão de vida para sua população sem ameaçar ninguém. Não temos esta opção, não basta uma simples gestão: precisamos de um projeto nacional, que nossa elite faz questão de sabotar e parte da esquerda acha bobagem.

Inexistem caminhos para a estabilidade aqui que não passem pelo crescimento econômico, inclusão social, democracia e participação, promoção de tolerância, respeito ao meio ambiente (com eficiência energética e fontes alternativas), mais recursos para educação, saúde, ciência e tecnologia, inclusive de defesa nacional. Já estivemos, com erros e insuficiências, nessa direção.

A política tem suas ondas. Fluem e refluem e cada uma delas deixa suas marcas. Quem as despreza, quem não sabe perceber seus sinais, quem não tem convicção suficiente para ter calma e compreende-las dificilmente estará no lugar certo na próxima maré. Pode ficar só, no seco, pode ser engolfado e tragado por ela.


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