Fernando Brito: A recuperação econômica e os truques de linguagem e de estatística

Tijolaço – Até a reta final do impeachment, qualquer número positivo em relação à economia era apresentado seguido da expressão “apesar da crise”.

Agora, com a recuperação econômica anunciada pelos jornais graças aos magníficos esforços e á exuberante credibilidade do governo Temer, os números negativos são exibidos seguidos de um “mas a retração (ou queda, ou redução) é menor”.

Não é mentira, mas o arranjo de palavras encobre uma ilusão estatística.

É a seguinte, resumidamente: as taxas de retração da economia se acentuaram fortemente no segundo semestre do ano passado, quando começou a “bombar” a safra de frutos podres das políticas do ministro Joaquim Onde Anda Você Levy.

Ou seja, cair mais lentamente do que caía há 12 meses,  quer dizer que cai ainda mais fundo, embora com velocidade menor, porque comparado com um período onde as coisas despencavam de patamares ainda relativamente altos.

É o caso, por exemplo, da “comemoração” do fato de terem “melhorado” de  menos 12,9% para menos 10,5% as vendas do comércio varejista em São Paulo.

O primeiro índice, junho de 2015, comparava com 2014, quando a crise se iniciava. O segundo compara já com a vendas mergulhando no poço.

A arrecadação segue o mesmo padrão de comparação (e o mesmo padrão nos títulos das matérias, como a ‘Arrecadação federal cai 5,8% em julho, mas reduz ritmo de queda no ano“, publicada semana passada pela Folha), neste caso com o “agravante” de terem ‘esquecido’ de mencionar que houve o recolhimento atípico de pouco mais de R$ 2 bilhões em Imposto de Renda e Contribuição sobre o Lucro Líquido dos bancos e instituições financeiras. Sem isso, a queda teria sido de 7,8%, maior que a do ano anterior.

Mais revelador é olhar os fatos  reais da economia, como o fato de a Fiat ter colocado de licença – isso depois de já ter  concedido duas férias coletivas este ano – quatro mil trabalhadores de sua fábrica em Betim. Segue o exemplo da Volks, da GM e da Mercedes e de outras menores, como a chinesa Cherry.

É que a Fiat não é boba como a imprensa brasileira, que aceita explicações como as dadas hoje no Estadão pela entidade das montadoras: as vendas caíram em agosto por causa das Olimpíadas do Rio!!!!

Será que o pessoal desistiu de comprar carros por ter visto o Isaquias Queiroz voar na água com sua canoa?


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