Patrícia Miguez: A exposição do MAM e a hipocrisia evangélica

Começo este texto dando dois recados para aqueles que usam a palavra “arte” entre aspas ao se referirem a qualquer obra que não lhes agrade: em primeiro lugar, a função da arte não é, necessariamente, a de ser bela e agradar os seus olhos – arte também pode servir para chocar, para ser propositalmente desagradável e para gerar debate e reflexão; em segundo, se você não estudou para isto, não é seu papel dizer o que pode e o que não pode ser considerado como tal.

Aliás, nem quem de fato estudou tem a presunção de se achar no direito de definir o que merece o título de arte – e falo isto como alguém que trabalha como crítica de cinema: por mais que deteste um filme e possa apontar todos os seus problemas técnicos, jamais terei a petulância de afirmar que não é arte. Porque é.

Dito isto, muito me espanta a arrogância de alguns evangélicos em chamarem a exposição do MAM de “pedofilia”, por uma série de razões:




Em primeiro lugar porque a definição básica de pedofilia é a seguinte: “perversão que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por uma criança”. Oras, qualquer pessoa que tenha assistido o vídeo que circula nas redes sociais percebe que não há qualquer indicativo de que o artista tenha se sentido atraído pela criança que o tocou. Aqui não há mais discussão: não houve pedofilia. Obviamente que ainda pode e deve haver um debate sobre a classificação indicativa da exposição em questão e se uma criança deveria estar ali presente, porém, segundo o próprio MAM, haviam avisos suficientes sobre o conteúdo da obra e a criança estava acompanhada de sua responsável legal, a mãe. Sendo assim, culpar o artista ou o museu pelo fato de ter tido acesso à obra é, no mínimo, absurdo.

Em segundo, porque casos reais de pedofilia ocorrem inclusive dentro de igrejas, como o caso recente de um pastor de Curitiba que abusava sexualmente de uma criança de 13 anos. E ainda não vi nenhum evangélico se indignar com a mesma ferocidade ou causar o mesmo tumulto na internet.

E ainda me espanta que, em pleno 2017, o corpo humano seja tão demonizado. O retrocesso é tamanho que, em pouco tempo, estamos regredindo tanto a ponto de quase ser possível enxergar as caravelas portuguesas chegando no horizonte.

Ops, esqueci: os índios não eram tão ignorantes assim a ponto de tratarem seus próprios corpos como algo sujo e impuro.