Especial Olhar de Cinema – Dia 04

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Filme 08 – Estrangeiro:

Dirigido por Anocha Suwichakornpong e Wichanon Sumounjar. Roteiro de Anocha Suwichakornpong.

A diretora tailandesa Anocha Suwichakornpong, que é homenageada com a mostra Foco da edição deste ano do Olhar de Cinema, tem uma linguagem muito própria: ela cria suas narrativas de forma não-convencional e utiliza até um certo grau de metalinguagem ao contar suas histórias: é o que acontece com este Estrangeiro.

Acompanhamos o dia de uma imigrante birmanesa que trabalha numa fábrica tailandesa, desde o momento em que esta acorda. Mas ela não se sente bem, e precisa ir até a polícia reportar um crime. Adianto, aqui, que para analisar o filme devidamente, precisarei revelar um ponto chave do roteiro no próximo parágrafo.

Wawa Kai, a protagonista, decide denunciar que, há cerca de dois meses, foi vítima de um estupro e que, portanto, precisa de um relatório da polícia para realizar um aborto; o oficial a questiona e ela, aparentemente por medo de seu agressor, titubeia em realizar a queixa formal e termina afirmando que “sem o relatório, fará um aborto ilegal de qualquer forma”. E é aí que entra a metalinguagem, pois a narrativa é simplesmente abortada, terminando em algo que, por sua natureza abrupta, vai muito além de um final aberto.

E, se por um lado a solução criada por Suwichakornpong é criativa, para dizer o mínimo, causa ao espectador um grande incômodo ao simplesmente nos atirar para fora da narrativa de supetão.





Filme 09 – História Mundana:

Dirigido por Anocha Suwichakornpong. Roteiro de Anocha Suwichakornpong. Elenco: Arkaney Cherkam, Paramej Noiam, Anchana Ponpitakthepkij, Phakpoom Surapongsanuruk.

Continuando com Anocha Suwichakornpong e suas narrativas não-convencionais e até mesmo metalinguísticas, este História Mundana conta, de forma totalmente desconstruída e não linear, a história de Pun, um enfermeiro que é contratado para cuidar de Ake, garoto que, após um acidente, se tornou paralítico da cintura para baixo. Sendo assim, cabe a Pun, à partir de agora, auxiliar Ake em suas tarefas cotidianas.

Quando falo em metalinguística e não linearidade, me refiro ao fato de que Anocha traz para dentro da narrativa uma série de elementos que remetem aos conceitos de começo, meio ou fim: seja uma imagem da explosão do big bang, (que se contextualiza com um planetário visitado por Pun e Ake), a cena de um parto ou até mesmo os créditos finais da própria produção que aparecem ainda no primeiro terço da projeção, remetendo à ideia de fim, o que funciona dentro da narrativa não-linear – e este recurso em si, se por um lado é inventivo, acaba por nos expulsar do universo diegético da produção muito antes de seu desenvolvimento e a exigir um certo esforço para que possamos mergulhar novamente em sua narrativa.

Mas o ponto alto de História Mundana é outro: a dinâmica entre o garoto e seu cuidador; cada um passa a compartilhar um pouco de sua vida com o outro e, muito além de uma relação profissional, os dois acabam por desenvolver carinho e cumplicidade um pelo outro e, assim, Pun passa a realmente fazer diferença na vida do jovem que, até então, vivia uma vida apática e até revoltada em decorrência do acidente que lhe acometeu e roubou seus planos e sonhos.





Filme 10 – Máquinas:

Dirigido por Rahul Jain

Em tempos em que um governo ilegítimo tenta, a todo custo, aprovar reformas trabalhistas e previdenciárias, um filme como Máquinas, do indiano Rahul Jain, se torna ainda mais relevante: o longa é praticamente uma aula sobre exploração laboral e os níveis que esta pode chegar quando não existem movimentos sindicais adequados.

Ambientado em uma fábrica têxtil na Índia, o filme mostra o cotidiano cruel de uma série de trabalhadores, incluindo crianças, que se submetem a turnos de 36h a 48h (em um momento específico um dos homens explica que, a cada 12h tem um curto intervalo de apenas 1h) e precisam deixar suas famílias para que possam trabalhar para alimentá-las. Isso tudo, claro, em troca de salários insuficientes: em vários momentos fica claro que os que ali trabalham recebem apenas o suficiente para que não morram de fome.

Em contraste, somos apresentados aos donos da indústria: contando grandes quantidades de dinheiro e usando jóias, estes afirmam com todas as letras que “hoje em dia os trabalhadores recebem dez vezes mais do que costumavam, e isso só os faz ficarem relaxados”. E, após termos sido expostos à realidade dura dos funcionários, que trabalham em um ambiente sujo e escuro, ouvir que “eles só se preocupam com dinheiro: querem mais e mais” se torna revoltante.

Num mundo em que falta à maioria dos trabalhadores uma consciência de classe ou no mínimo respeito pelos que lutam pelos direitos comuns, podemos ver um retrato duro – porém necessário – das condições que a falta de luta por direitos faz com que a Índia se encontre. E chega a doer profundamente quando ouvimos que, quando tentam brigar por seus direitos, alguns destes homens correm o risco de ser mortos.





Filme 11 – Corpo Estrangeiro:

Dirigido por Raja Amari. Roteiro de Raja Amari. Elenco: Hiam Abbass, Sarra Hannachi, Salim Kechiouche, Marc Brunet, Majd Mastoura.

Corpo Estrangeiro estabelece a história de Samia, uma refugiada tunisiana que entra ilegalmente na França fugindo das péssimas condições de seu país. Ao chegar na Europa é auxiliada, num primeiro momento, por Imed, antigo amigo de seu irmão – este foi preso há muitos anos e a protagonista não tem notícias há muito. Ao procurar emprego, ela passa a trabalhar como doméstica de Leila Berteau, uma viúva rica e solitária; a partir daí, a aproximação das suas e uma cumplicidade e carinho passam a existir.

Uma das belezas da produção é sua sutileza, já que seu roteiro nos presenteia com alguns momentos de brilhantismo em que coisas não precisam ser ditas: um exemplo é o momento em que fica extremamente claro que Leila compreende que Samia se encontra ilegalmente no país ao comprar uma roupa para a garota dizendo que ela “precisa se vestir adequadamente para não chamar muita atenção”; e não apenas o roteiro, mas as performances das duas atrizes são cheias delas já que muitas vezes apenas olhares ou a mise-en-scène da dupla diz muito mais do que qualquer palavra falada.

O roteiro, porém, se perde um pouco ao lidar com um triângulo amoroso entre Samia, Leila e Imed: em dado momento, a segunda deixa de ser patroa da primeira já que esta começa a trabalhar em outro local, mas continuam morando juntas; a partir daí, o relacionamento dos três se torna bastante confuso causando a sensação de que este terceiro soe mais como um intruso dentro da trama e do relacionamento das duas mulheres, fazendo com que este deixe de ser tão explorado como deveria.

Clique aqui para conferir a cobertura completa do 6º Olhar de Cinema

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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