Especial Olhar de Cinema – Dia 03

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Filme 04 – Parque Tonsler:

Dirigido por Kevin Jerome Everson.

A premissa de Parque Tonsler é muito simples: documentar o dia da eleição norte-americana em uma seção na cidade de Charlottesville, na Virgínia. Rodado em 16mm, preto e branco e razão de aspecto de 4:3, o documentário não se propõe a mais do que simplesmente registrar o momento em que cidadãos se preparam para votar – embora nunca sequer vejamos os rostos dos eleitores, já que conhecemos apenas a equipe de mesários que ali trabalha.

Na maior parte dos planos, que chegam a durar minutos sem cortes, a atenção se volta para um ou mais mesários em especial e suas ações e reações ao ambiente à sua volta – e em vários momentos vemos as costas dos passantes de forma que por muitas vezes não haja sequer algo ou alguém em foco, o que não é um demérito já que a proposta do longa é claramente documentar o ambiente de forma naturalista e sem intervenções.

É interessante observar que, retratando as eleições – justamente um dos pilares da democracia estadunidense -, o filme seja rodado em preto e branco, deixando de exibir um dos maiores símbolos do ufanismo daquele país: as cores de sua bandeira.

Seu grande problema é simplesmente não chegar a lugar algum: durante pouco mais de uma hora, observamos juramentos à bandeira, registros de documentos, folhetos que explicam as emendas constitucionais e até momentos de descontração entre os que ali trabalham, mas nada além disso.

E estamos falando da votação que elegeu Donald Trump como presidente dos Estados Unidos – evento que, como é sabido por qualquer pessoa que não se encontrava numa caverna durante aquele dia, causou uma grande onda de comoção por praticamente todos os estados americanos; e é, portanto, no mínimo omisso que o longa se abstenha de sequer retratar minimamente algo além do que o que faz.




Filme 05 – Garatujas, Badamecos e Outros Monstros

Dirigido por João Castelo Branco e Elisabeth Moreschi.

Crianças tem dentro de si algo diferente, que tende a desaparecer com o tempo: se por um lado possuem uma pureza e inocência típicos da idade, por outro são muitas vezes donas de uma imaginação tão fértil que pode ser até assustadora. Garatujas, Badamecos e Outros Monstros tem como ideia principal documentar estes momentos, tendo como pano de fundo uma turma de alunos do ensino fundamental em uma escola municipal em Curitiba.

Logo em seu primeiro ato, o longa nos mostra uma série de desenhos feitos pelas crianças e suas explicações para estes – e, dando uma pausa entre o momentos que os vemos e as narrações feitas pelos meninos e meninas, nos convida a um exercício de imaginação.

Em que momento perdemos isso? Não apenas a imaginação que leva uma menina a desenhar “um monstro de batom forte” mas a leveza, por exemplo, de um garoto que diz “ficar triste quando perde seu boneco, mas vai lá e pega ele de novo” (simples assim; pra que complicar?) ou ainda a criatividade de uma garota que narra uma complexa história que envolve uma casa ser decorada com glitter rosa quando seu dono gosta só “de verde, mas às vezes de azul”. Ou a falta de medo que um outro garotinho que diz que seu quarto era habitado por “seis fantasmas, um vampiro que chupava sangue, zumbis e até bruxas” – e que afirma categoricamente que não tinha medo de nenhum deles.

Mas, mais que isso, “Garatujas” nos presenteia com uma série de momentos infantis tão espontâneos e inocentes que é impossível não desejar voltar, nem que por um momento sequer, à infância.




Filme 06 – Vangelo:

Direção e Roteiro: Pippo Delbono.

Longa que tem como protagonista o próprio idealizador, diretor e roteirista, Pippo Delbono, e que expõe seus conflitos, dores e, mais importante que isso, sua conexão com um grupo de refugiados vindos de diversos países e que se encontram na Itália. Tendo passado um período doente – e perdido, por conta disso, parte de sua visão -, além da dor sentida pela perda de sua mãe, Pippo decide fazer algo que esta, católica fervorosa, sempre desejou: uma encenação do evangelho.

Pippo, então, se aproxima do grupo de refugiados e, com uma câmera compacta, começa a registrar uma série de cenas desta encenação. Como ele mesmo diz, no final das contas isto acaba sendo apenas uma “desculpa para que ele se aproxime de um grupo de pessoas tão diferente dele”. E o filme aproveita para também abordar esta difícil questão, já que alguns dos homens relatam duras experiências vividas na tentativa de deixar seus países.

E é impossível falar do filme sem mencionar sua sequência final que inclui uma performance da canção Feeling Good, de Nina Simone, interpretada por uma jovem dona de uma voz tão profunda e bela e que chega a chocar pelo talento e emoção. E como diz a própria letra, no fim das contas, “hoje é um novo dia, é um novo amanhecer, é uma nova vida“.




Filme 07 – Grande, Grande Mundo

Direção e Roteiro: Reha Erdem. Elenco: Berke Karaer, Ecem Uzun.

O longa do diretor turco Reha Erdem tem uma premissa interessantíssima mas, ao tentar atirar para todos os lados, acaba por se tornar uma salada narrativa que não chega nem perto de onde teria potencial para chegar.

Ali e Zuhal são irmãos – ou pelo menos acreditam ser. Cresceram num orfanato mas foram separados quando o primeiro se tornou maior de idade e a segunda foi adotada por uma família que não permite que se vejam. Isso até que as coisas ficam ainda piores, já que Ali descobre que o pai adotivo da irmã pretende casar com ela e tê-la como segunda esposa – já que a prática é permitida em países islâmicos. Sendo assim, o garoto decide colocá-la na garupa de sua moto para que possam fugir juntos e, então, acabam por se abrigarem no meio de uma floresta.

O principal mérito de Grande, Grande Mundo é retratar de maneira profunda a conexão entre os dois irmãos, já que Ali é capaz de absolutamente tudo para garantir a segurança e bem estar de Zuhal. A dupla de atores, inclusive, tem uma performance brilhante.

Mas nem tudo são flores já que a linha narrativa se perde completamente ao criar arcos e elementos que ou soam desconexos ou simplesmente não se desenvolvem: um exemplo disso é o fato de que Ali pergunta à irmã em dado momento se o padrasto havia encostado nela e que mais tarde esta apareça tendo enjoos ou comendo descontroladamente algumas frutas silvestres – o que nos leva a cogitar que a garota possa ter sido estuprada pelo padrasto e estar grávida, além do fato dela murmurar frases como “me solte, tire as mãos de mim” durante o sono – mas o arco simplesmente não chega a lugar algum neste sentido já que, no fim, ela estava simplesmente acometida por uma febre.

Além disso, a relação entre Ali e os membros de um parque de diversões itinerante ou uma senhora que vagava pela floresta adicionam pouco ou nada ao arco dramático principal, fazendo com que falte à obra uma boa dose de coesão.

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avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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