Especial Olhar de Cinema – Dia 02

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Filme 02 – Uma Paisagem de Yangtze:

Direção, Roteiro, Montagem, Som e Direção de Fotografia: Xu Xin.

O documentário dirigido e idealizado pelo chinês Xu Xin é uma viagem de milhares de quilômetros pelo rio Yangtze, partindo da marina de Xangai em direção à fonte do próprio rio, que termina no Tibet.

Seguindo um estilo não-narrativo (o mais próximo disso é o fato de estarmos percorrendo o espaço, mas não o tempo já que não existe qualquer tipo de narrativa temporal), o longa utiliza uma dinâmica propositalmente lenta e monótona, fazendo uso de longuíssimos planos, alguns com mais de dois minutos sem que hajam quaisquer cortes; nestes, percorremos diversas cidades, vilas e povoados chineses onde observamos não apenas a vida cotidiana de seus habitantes, mas a própria paisagem – nem sempre bela.

Mas, muito além disso, a despeito de suas poucas palavras (praticamente nenhuma, a bem da verdade), Uma Paisagem de Yangtze consegue se estabelecer não apenas como um retrato das vidas daqueles que ali habitam, mas também como uma crítica política e social ao governo comunista do país, já que se preocupa em destacar os contrastes e discrepâncias entre, por exemplo, a moderna Xangai e vários povoados com pouca ou nenhuma condição de higiene, saúde ou moradia; tudo isso enquanto frases de propaganda do Partido Comunista como “você pode e deve obedecer a lei – violadores serão processados” ou “busque a conformidade com os padrões de reorganização” são exibidas em locais públicos.

O longa não é, definitivamente, um filme “palatável”, mas é inegável que a viagem por uma cultura tão plural o torna uma experiência riquíssima.




Filme 03 – Newton:

Dirigido por Amit Masurkar, roteiro de Amit Masurkar e Mayank Tewari. Elenco: Rajkummar Rao, Pankaj Tripatty, Anjali Patil, Raghuvir Yadav.

A melhor forma de definir Newton é dizendo que o longa consegue tratar de um assunto extremamente complexo – a democracia indiana – de forma leve e com bom humor, sem que com isso perca sua profundidade.

Newton segue seu protagonista-título em sua jornada como voluntário de uma força-tarefa realizada na porção central da Índia, onde grupos de guerrilheiros armados tentam impedir a realização de eleições. O homem, de bom coração mas com uma pitada de inocência, faz absolutamente tudo o que pode para garantir que os cerca de setenta eleitores da área consigam exercer o direito ao voto.

O primeiro ato serve para estabelecer a personalidade de Newton que, por exemplo, recusa-se a casar com uma mulher ainda menor de idade – mesmo sob pedidos insistentes dos pais que enxergam uma grande vantagem em seu dote.

Mas é como presidente da seção eleitoral que o personagem se desenvolve de forma multifacetada e humana: de forma até mesmo inocente ele realmente acredita no processo democrático, a despeito de ter sido informado por diversas vezes que os eleitores do povoado nem sequer se importavam com a questão – o que fica óbvio quando estes não entendem nem mesmo o motivo pelo qual precisam escolher um nome naquela urna ou qual vantagem podem tirar disso para, no final das contas, serem informados de que devem “apertar o botão correspondente à figura que gostarem mais”, pois esta acaba por ser a única forma de convencê-los a votar. E acaba por soar tragicômico que uma repórter ocidental, no meio disto tudo, diga que “apesar de tudo, a democracia funciona muito bem na Índia”. Em tempos recentes, talvez seja uma questão sobre a qual boa parte de nós deva também refletir.

No meio dos conflitos, porém, ainda há espaço para o bom humor – o que torna o filme dinâmico e envolvente. E, neste sentido, o destaque fica para Loknath, personagem que serve de alívio cômico principal durante as quase duas horas de projeção.

Clique aqui para conferir a cobertura completa do 6º Olhar de Cinema

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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