Era uma vez um agente do FBI no Brasil

Desenvolveram-se e muito as formas de exercício do poder mundial dos Estados Unidos da América. O seu instrumental de política externa é tão ilimitado quanto são ilimitadas as possibilidades do roteirista no desenvolvimento de uma série de Tv. E é a lógica da séries de televisão que explica o que hoje acontece com este Brasil, um Estado em crise permanente, crônica, a meio caminho do caos e da destruição, à mercê dos caprichos de um roteirista que consegue permanecer invisível a quase todos.

 Em priscas eras, aqui no quintal generoso da América, havia a doutrina Monroe e o Porrete de Theodore Roosevelt, tão idolatrado pelo eterno esquema de poder brasileiro que submete este país debaixo de uma canga desde 1500. Deve ser algum tipo de fetiche a proporcionar múltiplos orgasmos a essa gente. Hoje, fala-se em smart power, em cujo contexto uma jurisdição-espetáculo nos moldes do Morismo – bendito seja o seu nome  –  da República de Curitiba pode ser tão útil quanto uma série televisiva. Uma “Justiça,” uma jurisdição-espetáculo pautada por nossos poderosos e bilionários Barões da Mídia é o corolário lógico da jurisdição criminal plebiscitária de cunho cesarista. Uma de suas caractérísticas principais é a violação sistêmica e a subversão do Estado de Direito, assunto a ser tratado em outro capítulo. Pode servir de entorpecimento do senso crítico, de exaltação do senso comum e do maniqueísmo rasteiro para ereção de um instrumental de vendeta, constituindo um trivial entretenimento de massas, servido nos “noticiários” junto com o café da manhã, o almoço e o jantar, pois atende a um “consumidor de notícia” que constitui a maioria do público, ávido pelos eventos das editorias policiais de todos os veículos de comunicação.




Há tempo se percebeu que as notícias mais lidas ou de maior repercussão e “audiência”eram   as relacionadas a crimes. As editorias de política e justiça foram incrementadas com a editoria de polícia e os barões da mídia descobriram a pólvora e o caminho do poder e do dinheiro infinitos. Alguém a quem odiar, o bode da expiação, sangue e desgraça, ódio e vingança, seletivamente direcionados, são apetites inoculados, de tempos em tempos, noite e dia, por essa turma perversa que habita no  Olimpo Cartel da Notícia. Esse malfeitores e seus escribas de aluguel detém o controle absoluto dos meios de produção de notícia em nosso país.

Isso é um Poder e tanto que nenhum País que se queira íntegro e viável pode permitir. Não há paralelo nenhum no “mundo civilizado” que se possa comparar ao que acontece aqui. Por poder e dinheiro, estes gentis tiranos manipulam seres humanos como outrora Pavlov e sua velha e pioneira teoria dos comportamentos condicionados manipulavam ratos de laboratório. Em nossa história recente não houve governo em nosso país que não tenha se submetido, feito covarde acadelado, à lógica maligna deste modelo. Recursos públicos expressivos foram dados, por extorsão ou não,  a esses bilionários barões da mídia, no que constitui uma das mais perversas corrupções que vitimou cada um de nós brasileiros e violou princípios constitucionais de moralidade e probidade administrativas, tudo feito debaixo do nariz daqueles que deveriam investigar, julgar e punir tais atrocidades.

No exercício deste poder soft, inteligente, materializado numa jurisdição-espetáculo, infinitas possiblidades se apresentam. A Jurisdição-espetáculo pode dividir uma nação, quebrar um país, derrubar governos, ascender outros, favorecer ideologias em detrimento de outras, violar a literalidade e o sentido sistêmico das normas, arrogando-se em juízo de exceção, conspurcar interesses nacionais em favor da hegemonia de países estrangeiros, tiranizar as relações com os jurisdicionados, subverter o exercício do poder, fomentar o ódio e a intolerância e implantar o império da mais cruel iniquidade.                 

Olhai, ó brasileiros, debaixo da aparência sã e virtuosa a horrenda e lúgubre face abominável destes tempos e perguntai: Cui Prodest? Cui Bono?

O ideário de supremacia da América, a bem de seus interesses geopolíticos se faz de muitas formas. Neste contexto tudo é válido, do suborno à guerra, passando pela chantagem velada ou explícita. Possibilidades infinitas vos contemplam, ó brasileiros. A hegemonia americana revela-se até mesmo em sistemas de integração (eufemismo, no nosso caso, para subordinação de nós brasileiros) com outros países atráves de órgãos de investigação e de jurisdição criminal, o que me faz lembrar relevante episódio a que presenciei que calha aqui relembrar com uma antiga expressão exordial tão ao gosto de um contador de histórias feito Theodore Roosevelt, aclamado Profeta da República de Curitiba e do Morismo e um dos maiores intervencionistas do Império Americano. Era uma vez…




Era uma vez um special agent do Federal Bureau of Investigation. Carregava nas costas o inusitado título de Chefe do FBI no Brasil e como tal saudado, em abril de 2002, com ardente entusiamo masoquista pelas macacas de auditório daquele hotel de Curitiba. O Boss, distinto senhor, inteligente e sagaz, com um primoroso português lusitano, foi um dos que “patrocinou” o congraçamento com ele e com Promotores da América, no “Seminário Internacional de Prevenção e Represssão à Lavagem de Dinheiro e à Corrupção na Administração Pública”.

Vim a saber depois que, oficialmente, integrava a Embaixada Americana como adido civil, o que lhe menosprezava a importância ao tempo em que lhe dava um ar solene de modéstia. Veio, ele e sua expertise, na mala diplomática junto com um sem número de agentes de diversas agências americanas que formam um caleidoscópio de letrinhas cujas imagens, todas elas, nos remetem à tríade de um dos vieses da ação hegemônica da águia americana no mundo: Investigação-Segurança Nacional- Inteligência.

Dos ensinamentos de nossos irmãos do norte, constatava-se clara preocupação com terrorismo e tráfico de drogas. Ao mesmo tempo entrevia-se um genuíno, mas ainda insuspeito, interesse por corrupção estatal. A nossa, não a deles, porque nós não metemos o bedelho nos assuntos americanos. Mas saber de tudo por essas bandas era, é, passatempo deles e da Candinha. Conhecimento nesse jogo é tudo. Foi possível deduzir dos ensinamentos dados por agentes e promotores americanos que “consultorias” que ajudam a instituir offshores e trusts, determinadas instituições financeiras e “doleiros” do tipo “vistosos”, como os que foram presos pela Car Wash, na República de Curitiba, se encontravam sob “monitoramento” e investigação permanente, uma vez que por essas vias circula o dinheiro sujo de drogas, terrorismo, sonegacão fiscal e corrupção estatal.

O Goveno americano gastas altas somas de seu orçamento para obtenção de informações mediante utilização de estruturas de inteligência, inclusive com apoio de nacionais nos países onde atuam, cooptados ou subornados para isso ou para realizar tarefas específicas. Durante o seminário o iluminado Boss do FBI no Brasil formula gentil convite para irmos aprofundar, nos Estados Unidos, nosso conhecimento sobre lavagem de dinheiro e outros ilícitos. Era, se percebia, uma prospecção de futuros “talentos” oriundos do Ministério Público, do Judiciário, das Polícias e da Receita Federal. Parece que América também despende um dinheiro considerável nessas cooperações com órgãos e pessoas de outros países, visando obter, no mínimo, compartilhamento de informações.

No Brasil, não há filtro nenhum para compartilhamento de informações sensíveis ao interesse nacional com órgãos governamentais dos Estados Unidos da América. Vazam feito peneira. Vazar pra essa gente, ao que se vê, deve ser uma função orgânica tão natural quanto respirar ou expelir gases intestinais.  Os americanos levam informações daqui como outrora levavam areia monazítica de nosso litoral: sob o olhar bovino de brasileiros, que sequer podem quantificar o seu valor. Aquiescendo ao convite do homem americano, muitos foram. É possível vê-los hoje por aí em nossa prodigiosa República, com o ar blasé de superioridade dos estultos, aplicando com grande desenvoltura os conhecimentos que obtiveram em terras que ficam além do Rio Grande.




Cerca de dois anos depois, vejo na imprensa o mesmo Chefe do FBI no Brasil, já ex-Chefe e recém-aposentado, dizendo que os Estados Unidos compraram a Polícia Federal e que dinheiro era dado para alguns de seus integrantes em contas privadas para diversas ações em prol de interesses americanos. Da entrevista que deu ao Jornalista Bob Fernandes, é possível vislumbrar que agentes americanos, atuando com plena liberdade, tem o poder de “monitorar” pessoas, empresas e governos atuando dentro do território brasileiro.

É de se supor que ainda estão no negócio da família de comprar ou cooptar membros da polícia e outros integrantes de órgãos estatais brasileiros. Políticos, juízes, membros do Ministério Público, nada há que não esteja ao seu alcance. Há pouco tempo Edward Snowden nos revelou que o Governo brasileiro e a Petrobrás foram espionados pelo NSA. É possível ver mais explicitamente a magnitude da atuação investigatória americana em solo brasileiro quando, por exemplo, prendem por esses lados algum inimigo público da América, como um barão das drogas ou desavisados comentaristas de rede social que falam maravilhas do estado islâmico, até então invisíveis para as autoridades brasileiras. E permaneceriam invisíveis não fossem a intervenção e a investigação das agências americanas feitas aqui no Brasil e que, de maneira camarada, cedem os créditos da fama para benefício das autoridades brasileiras.

A princípio, pelo cheiro da Dinamarca que aflui deste esgoto que corre nas veias desta República, o porrete do Theodore é plenamente dispensável. Terra de ativismo masoquista e ânimo servil numa relação de carnal submissão ao protagonista da Doutrina Monroe dispensa uso de força.

Como diria o contato americano do ex-Chefe do FBI no Brasil, quando este ponderava e apresentava dificuldades para cumprir uma determinada missão em nossas terras:

Porra, isso aí é o Brasil! Just do it!

Fuad Faraj é Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado do Paraná.