Entrevista com o neto do Presidente João Goulart

João Alexandre Goulart, foto do DCM.

João Alexandre Goulart tem 36 anos, publicitário e trabalha com assistência social em Porto Alegre/RS.

Ele comenta sobre as mudanças que Jango proporcionaria ao país e os fatos que culminaram no golpe de 64.

A entrevista foi concedida justamente no dia em que se “comemora” o aniversário do AI-5.

Durante o governo do seu avô a economia crescia como nunca tinha crescido, você acredita que o país estaria, hoje, em uma situação melhor, caso Jango tivesse concluído o mandato?

Sem dúvidas! Existia o projeto das Reformas de Base que meu avô queria implantar no país. Era o momento certo para o Brasil se tornar uma potência mundial.

Vou além, se ele tivesse concluído o mandato, certamente seria eleito novamente nas próximas eleições, pois uma pesquisa realizada pelo IBOPE, omitida na época, mostrou que Jango tinha aproximadamente 80% de intenções de votos.


Seu avô, em nenhum momento, se apresentou como um comunista. O golpe sofrido por ele – e por nós também – custou muito caro ao Brasil. Qual é a sua opinião acerca do grupo que armou o golpe de 64?

Essa “estorinha de comunista” já é antiga e defasada, só um ignorante poderia hoje afirmar tal absurdo. O mesmo acontece nos dias de hoje. Faz mal aos meus ouvidos quando escuto pessoas chamando o governo atual de comunista ou de estar alinhado com o mesmo, dói ter que ouvir tamanha ignorância, sinto vergonha alheia de quem faz tal afirmação.

Analisando o discurso que a imprensa e as organizações alinhadas ao golpe tramavam, ao taxar Jango de comunista, constatamos que este é um pensamento irracional elaborado pelos seus opositores.

A tese de taxar Jango de comunista cai pelos motivos apresentados a seguir:

Jango pertenceu ao antigo PTB, mesmo partido de Getúlio Vargas, partido não comunista; a ele foi concedida a carta testamento e todo o legado trabalhista.

Lembrando que antes de Getúlio Dornelles Vargas se suicidar, ele entrega em mãos a carta testamento ao seu amigo João Goulart, pedindo que só abra a carta assim que desembarcasse em Porto Alegre.

Sendo assim, nas palavras de Vargas transcrevo o que se conhece pela história:

“Meu amigo Jango, hoje eles estão vindo atrás de mim, amanhã eles virão atrás de ti, toma esta carta e só abra ela assim que desembarcares em Porto Alegre.”

Como sabemos, o presidente João Goulart era um cristão e como tal, não poderia ser um comunista; a Jango coube tentar convencer o alto clero de que a justiça social e desenvolvimento do país passaria pelas Reformas de Base.

Goulart era um “capitalista nacionalista” preocupado com o social e em desenvolver o país. Ele sofria a grande dificuldade de ser um presidente rico em um país pobre.

Diga-se, de passagem, que João Belchior Marques Goulart não adquirira sua fortuna em virtude do cargo de presidente e sim em decorrência de sua família, além de seu próprio “faro” na gestão de negócios.

Com tudo, Jango não só era taxado de comunista, mas também de inimigo do capital.

Contestando esta afirmação e reafirmando que Goulart era um capitalista na linha nacionalista, ele já chega a Presidência da República com um projeto de governo estabelecido: o das Reformas de Base, que até hoje são discutidas, sem uma solução.

A lei de remessas de lucros que o presidente imporia seria mais do que justa, onde só 10% do capital estrangeiro investido no país podiam retornar ao destino de origem, já o restante deveria ser investido dentro do território nacional visando o desenvolvimento social. Portanto, afirmar que Goulart seria inimigo do capital é uma tese que também não se sustenta.

Ainda tratando-se de comunismo, a acusação feita ao governo em alinhar o país com o bloco soviético era algo totalmente irreal.

Goulart negava-se a estabelecer um governo de obediência aos Estados Unidos em nome da “autodeterminação dos povos” furando todo tipo de barreiras ideológicas.

Jango se tornaria o primeiro ocidental a estabelecer ligações diplomáticas com o oriente. Isto tornaria o Goulart alguém com visão de vanguarda, pois, como sabemos hoje, a República Popular da China é uma das maiores economias mundiais. Hoje todos querem vender para a China!

Foi pela política independente que Goulart negou-se a fechar barreiras diplomáticas com Cuba a mando dos Estados Unidos, mantendo a postura de autodeterminação do Brasil.

Desta forma percebemos mais uma maneira de trabalhar em Jango, a versão da mentira no que tange o discurso midiático golpista de seu governo.

A consumação do golpe militar faz parte de vários movimentos que se unem para derrubar um governo democraticamente eleito e legalmente constituído, também se torna importante afirmar que o golpe não foi dado a João Goulart, ele foi dado ao processo democrático brasileiro; Jango, portanto, é a personificação da queda da democracia.

Observamos também que este fato não aconteceu só no Brasil, ocorreu também em toda a América Latina.

Ainda há quem afirme que João Goulart foi um presidente “fraco” e “inconsequente” por quase levar o país a uma guerra civil.

Se fosse fraco, não tentariam derrubá-lo; faltava muito pouco tempo para novas eleições. Como disse anteriormente, um documento do IBOPE, omitido na época, e encontrado recentemente, apontava Jango com 80% de intenções de voto.

Para os que alimentam esta visão, lembramos que Goulart evitou duas guerras civis no Brasil, sendo a primeira na Campanha da Legalidade ao não aceitar imediatamente o regime presidencialista, pois seria fato que haveria uma pronta intervenção militar.

A segunda provém do golpe de 64 ao optar por não resistir.

Jango sabia da articulação não divulgada nos meios da época sobre a operação norte-americana denominada de “Operação Brother-Sun”. Eram esquadras navais “destroyers” com alto poder bélico em costas brasileiras munidas de aviões de combate, combustíveis e mísseis de longo alcance dispostos a intervir caso Goulart decidisse resistir.

Para Jango partir para a resistência seria um massacre para os militares fiéis a Goulart e para o povo brasileiro.

Jango não mancharia com sangue sua biografia como muitos sugeriram. O presidente era, acima de tudo, conciliador e pacificador, tanto na vida pessoal como na política.

ELE SABIA QUE DA MESMA FORMA QUE OS ESTADOS UNIDOS FIZERAM COM O VIETNAM DO NORTE E O VIETNAM DO SUL, ASSIM COMO CORÉIA DO NORTE E A CORÉIA DO SUL, SE ELE RESISTISSE CERTAMENTE EXISTIRIA UM BRASIL DIVIDIDO ENTRE NORTE E SUL.

HOJE, O FATO DE NÃO TER RESISTIDO, CONCEDE A VITÓRIA A JANGO, POIS ELE PRESERVOU O TERRITÓRIO NACIONAL QUE ESTAVA SOBRE AMEAÇA DE DIVISÃO NAQUELA ÉPOCA.

DECISÃO ESTA QUE LHE VALEU O DESTINO DE SER O ÚNICO PRESIDENTE DO BRASIL A MORRER FORA DO BRASIL, LONGE DE SUA CASA.

ELE MORREU PAGANDO ESSE SACRIFÍCIO E ISSO NÃO É “POUCA SORTE” PARA NINGUÉM!

Faço também a seguinte observação:

João Goulart jamais teve intenções de afrontar os Estados Unidos com sua política de autodeterminação. Acontece que para JANGO, o Brasil como nação soberana e sobre o seu mandato, jamais permitiria que aquele país fizesse do Brasil uma “marionete” a ser manipulada.

Para Goulart, estavam em primeiro lugar os interesses e o desenvolvimento do Brasil.

As injustiças causadas ao povo brasileiro na época repercutem até hoje sem o espaço digno que esta parte da história merece.

Os principais meios de comunicação pouco o nada contribuem para a elucidação da verdade.

Os arquivos da ditadura não foram totalmente abertos, diferentemente de outros países tais como Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai onde não só a Operação Condor veio à tona, mas também puniram os torturadores do pós 64.

É uma vergonha que parte de nossa história não esteja disponível em nosso país, quando ela pode ser contada e disponibilizada pelo Departamento de Estado Americano.

Lembremos que o presidente angustiado por não poder retornar ao seu território que lhe foi violentamente tomado, encontrou a possibilidade de retorno em 1976.

Com a morte do Presidente Kennedy, o sucessor da Casa Branca, não mais apoiaria o movimento militar na América Latina.

João Goulart, JK e “talvez” Lacerda, seriam os únicos que poderiam retornar com a democracia no país.

Jango já era “livre” para retornar ao Brasil pelo tempo que passou no exílio, e isso representava uma ameaça iminente aos generais golpistas que o vinham monitorando de perto. E assim, em um curto espaço de tempo morrem de forma suspeita estas 3 lideranças que poderiam reestabelecer a democracia.

JK morre em um misterioso acidente de carro, Lacerda com gripe entra em um hospital e sai morto e meu avô, Jango, com a suspeita de envenenamento.

Não bastou condená-lo ao exílio, diante de tantas injustiças feitas ao Presidente e ao ser humano João Goulart, hoje caem fortes suspeitas sobre seu assassinato.

Isso fez com que Jango fosse o único presidente a morrer no exílio.

Desde a versão silenciosa do governo militar de 1976. Sobre sua morte, recaem hoje fortes indícios de que ele constava na lista de execuções de líderes latino-americanos.

Certamente, a morte de Jango não se tratou de um simples enfarte do miocárdio; mas sim, por envenenamento.

Mesmo que hoje não se tenha tecnologia suficiente nas análises do processos de exumação, seria ingênuo ou irresponsável pensar, com tantos documentos e depoimentos colhidos, que foi apenas um enfarte.

Não foram poucas as lideranças latino-americanas caçadas e executadas durante a operação Condor. Eu duvido que Jango, JK ou Lacerda não estavam nessas listas de execução.

Hoje a tese de envenenamento confirma que não bastou expulsar o presidente do Brasil, era necessário executá-lo em nome da ameaça que ele representava aos generais naquela época.

Observa-se que as novas gerações pouco ou nada sabem sobre a biografia do presidente João Goulart, bem como os reais motivos pelo qual foi deposto.

De todas as reformas que seu avô propôs, qual te chamou mais a atenção?

Todas eram importantes para o país se tornar uma potência na época.

A reforma agrária é uma que me chama bastante a atenção.

Quero mais uma vez lembrar aos que taxam Jango de “comunista” que a reforma agrária que Jango queria implementar era uma reforma capitalista.

Dando a cada novo proprietário um título de propriedade, e isto é contra qualquer conceito comunista.

Naquela época tínhamos aproximadamente de 13 a 15% da população morando nas principais capitais dos estados Brasileiros.

Esta reforma seria a mesma que os Estados Unidos fizeram para se desenvolverem como potência hoje.

Hoje podemos presenciar uma realidade caótica em nossas cidades.

Eu responsabilizo aos golpistas que derrubaram meu avô e impediram a reforma agrária, pela migração da população que foi buscar emprego nas cidades e não encontrou.

Responsabilizo eles por termos cidades “sufocadas” pelo aumento de periferias hoje, pelos altos índices de violência e índices educacionais que deixam a desejar.

Não existe mais um “controle” sobre a cidade e a população.

Fazer reforma agrária hoje é muito mais complicado, não será a mesma de ontem. A situação passou a ser muito mais complexa.

Certamente teríamos uma outra realidade de desenvolvimento social se tivéssemos feito tal reforma.

Hoje muito se fez por quem mais precisa, mas seria mais fácil se a semente tivesse sido plantada antes.

Pretende seguir a carreira do seu avô?

Não sei ainda. Dependeria de muita coisa. Teria que conseguir um apoio sólido ao aceitar esta proposta, tanto do meu partido como de outros. Hoje, sou filiado ao PDT e sem participação ativa por escolha própria. Hoje, infelizmente, o partido está dividido entre os que apoiam o governo e os que não apoiam. E isso tem me deixado um tanto desapontado.

Por que seu avô não é tão lembrado quanto Lula, Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas? Haja visto que ele demonstrou ser o mais humanista de todos.

No caso de Jango até hoje de uma forma geral se estuda esse período como uma rápida passagem ao período militar.

Eu mesmo presenciei isso no colégio. Vi livros que falavam em “Revolução de 64” e não “Golpe Militar”.

Ocultar a verdade da história foi o trabalho dos “Generais de 64” e muitas dessas lacunas permanecem até hoje.

Seja pelos desaparecidos que tombaram na luta pela democracia ou por uma nova geração que parece não entender o que é um GOLPE quando sai às ruas e pede o Impeachment da Presidenta Dilma.

É claro que todos os governos merecem suas críticas, eu tenho as minhas sobre o atual governo. Mas é meu governo! É o governo de todos! Ai invés de levantarmos todos uma única bandeira, a do Brasil, nota-se o discurso do ódio por quem foi derrotado democraticamente nas urnas.

O atual momento da política brasileira tem várias semelhanças com o período de 61 a 64, e, inclusive, há pessoas que pedem uma intervenção militar contra o governo Dilma Rousseff. A que você atribui isso?

Eu já tinha alertado para esta possibilidade em outubro de 2014 no DCM.
Hoje o congresso pratica em outro formato diferente ao de 64 o ensaio de um Golpe exercendo o Anti-governo, impedindo qualquer tipo de progresso ou proposta para superar a crise que é global.

Quero lembrar que hoje existe uma polarização por quem apoia o governo e quem esta contra.

Este processo de impeachment, se concretizado, não pensem que será como o de Collor onde praticamente toda a população era a favor.

Estes parlamentares, “homenzinhos orgulhosos” que “brincam” com este processo de Impeachment serão os responsáveis por uma possível guerra civil nas ruas caso esta “aventura” seja concretizada.

Eles devem ter a consciência de que muito sangue será derramado e devem ser responsabilizados por isso.

Eles serão os maiores criminosos de uma nova página trágica do futuro de nossa história.

Tem horas que acho que a oposição quer levar propositalmente o Governo que é de todos, ao caos para depois justificar que viramos uma “Venezuela problemática” como eles tanto tem falado. 

São eles os que estão provocando o agravamento do país com o antigoverno.