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Donald Trump: Quando o mundo é comandado por uma criança

Em certos momentos, Donald Trump já pareceu um autoritário em formação, uma versão corrupta de Nixon, um populista demagogo e até mesmo um grande corporativista de negócios.

Mas enquanto se estabelecia em seu papel na Casa Branca, concedeu uma série de longas entrevistas e, ao analisar suas transcrições, se torna claro que ele não é nenhuma destas coisas.

Trump é, basicamente, uma criança. Há três tarefas que a maior parte dos adultos completa antes dos 25 anos. Trump não concluiu nenhuma delas. A imaturidade tem se tornado a nota dominante de sua presidência; falta de autocontrole é seu lema.

Em primeiro lugar, adultos costumam ter aprendido a sentar e ficarem quietos. Mas, mentalmente, Trump ainda é um garoto de 7 anos de idade que fica andando e correndo pela sala de aula. Suas respostas a estas entrevistas não costumam ser muito longas – 200 palavras no máximo – mas, como se não fosse o bastante, ele muito provavelmente passará por quatro ou cinco tópicos diferentes antes de terminar lembrando quão injusta é a imprensa com ele.

Sua inabilidade de foco faz com que entender fatos seja, para Trump, algo totalmente difícil; ele é mal informado sobre suas próprias políticas e se atrapalha com seus próprios discursos, o que faz com que não consiga controlar sua própria boca. Em um momento de impulso, pode prometer uma reforma tributária sem que sua equipe tenha feito qualquer tipo de trabalho neste sentido.




Em segundo lugar, a maior parte das pessoas que já atingiu a idade adulta possui um certo senso de si próprio, alguns critérios pessoais para medir seus próprios méritos e deméritos. Mas Donald Trump, ao contrário disto, parece sempre precisar de aprovação externa perpétua para manter alguma estabilidade; parece viver em um eterno desespero por tal aprovação, sempre contando incríveis fábulas heroicas sobre si mesmo.

“Em um curto período de tempo, consegui entender absolutamente tudo o que há para se entender sobre o sistema de saúde”, disse ele à Time. “Muitas pessoas disseram isso, algumas pessoas disseram que aquele foi o melhor discurso já feito na câmara”, contou à Associated Press, se referindo a seu discurso na sessão conjunta.

Por sua própria conta, ele sabe mais sobre tecnologias de aviação do que a Marinha Americana. De acordo com uma entrevista concedida pelo presidente ao The Economist, foi ele próprio que inventou a expressão “priming the pump” (metáfora econômica que compara o uso de uma bomba para puxar água de um poço com injetar recursos econômicos para o desenvolvimento de atividades específicas), mesmo que já fosse conhecida em 1993. Trump não apenas tenta enganar outros: suas inverdades são tentativas de construir um mundo no qual ele possa se sentir bem por um instante e confortavelmente enganar a si mesmo.

É, portanto, o recordista absoluto do efeito Dunning-Kruger, o fenômeno no qual a pessoa incompetente é incompetente demais para entender sua própria incompetência. Trump pensou que seria celebrado por demitir James Comey; acreditou que a cobertura da imprensa cresceria de maneira absurdamente positiva uma vez que ganhasse sua nominação. Ao invés disso, se encontra num estado permanente de sempre ser confrontado com o fato de que a realidade não comporta suas fantasias.

Em terceiro, durante a idade adulta a maior parte das pessoas consegue compreender como os outros pensam. Por exemplo, conseguem aprender artes sutis como a da falsa modéstia para que não sejam lidos como arrogantes.




Mas Trump não parece ter desenvolvido nada disso. Outras pessoas são, para ele, caixas pretas que podem fornecer aprovação ou desaprovação. Como resultado, ele é estranhamente transparente. Quer que as pessoas o amem, então está constantemente dizendo a jornalistas como é amado. Em sua versão dos fatos, todas as reuniões foram programadas para terem 15 minutos, mas seus convidados acabaram permanecendo em sua presença por duas horas por terem gostado demais dele.

O que nos leva aos relatos de que Trump teria traído uma fonte de inteligência e vazado segredos para seus visitantes russos. Até onde sabemos, ele não fez isso porque é um agente russo infiltrado, ou com alguma intenção maligna; ele o fez porque é descuidado, porque não tem qualquer controle de seus impulsos e, acima de tudo, porque é um garoto de 7 anos de idade desesperado pela aprovação daqueles que admira.

A história sobre este vazamento ainda revela mais uma coisa: o perigo de um homem vazio.

As instituições norte-americanas dependem de pessoas que possuam traços de caráter suficientes para que possam cumprir os deveres que lhe foram designados.

E quando se trata de Trump, há ainda menos do que parece. Quando analisamos as declarações de um presidente, tendemos a assumir que há algum tipo de processo substantivo por trás das palavras; que elas fazem parte de algum tipo de estratégia.

Mas as declarações de Trump não necessariamente vêm de algum lugar, vão a algum lugar ou possuem qualquer tipo de ligação com a realidade a não ser seu desejo de ser aprovado a qualquer instante.

Vivemos esta situação perversa na qual a maior parte da capacidade de interpretação do universo está sendo gasta tentando compreender um cara cujos pensamentos são, na maior parte do tempo, moscas zumbindo aleatoriamente.

“Queremos desesperadamente entender Trump”, disse David Roberts em um artigo da Vox. “Isto nos daria um senso de controle, ou ao menos alguma habilidade de prever o que ele fará em seguida. Mas e se não houver nada para entender? E se simplesmente não houver nada ali além de um vazio?”.

E com este vazio vem um descuido que muito provavelmente traiu uma fonte de inteligência e colocou todo um país em perigo.

Tradução livre de artigo publicado originalmente no New York Times em maio de 2017


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