Delatado, rejeitado e perdido: retrato do governo Temer no Datafolha é o epílogo de uma falsa saída política

Matheus Pichonelli – Muito se fala, inclusive neste espaço, que a crise atual não deve ser citada no singular. As crises da atualidade envolvem dilemas políticos, econômicos e morais, daí seu caráter múltiplo e disforme cujo acirramento leva a um conjunto de impasses: os modelos tradicionais (de produção, representação, comunicação, etc) não dão conta dos novos desafios e os novos modelos não têm ainda força suficiente para destronar as velhas estruturas.

Mas algo parece ficar mais claro conforme o tempo avança: o impasse político contemporâneo é o pai de todas as crises. São as saídas políticas, ora paralisadas, que apontam caminhos e conferem, ou deveriam conferir, legitimidade a todas as outras saídas.

As respostas para o chamado “rombo” da Previdência são exemplares dessa dinâmica. Não há, no cenário atual, quem observe os conchavos de Brasília e se convença de que o aperto e o sacrifício exigidos para a maioria dos contribuintes sejam justos ou benéficos a todos quando quem decide quais serão as novas regras são os detentores de benefícios impensáveis a 99%, numa perspectiva conservadora, da população. A distância entre representantes (ricos ou enriquecidos) e representados (precarizados) pode ser observada entre o aperto no cinto do trabalhador comum e o conforto do presidente do Congresso. Nem todos esses trabalhadores, vale lembrar, contam com empreiteiras para pagar a pensão dos filhos, e menos ainda com a boa vontade da Justiça em arrastar o caso por quase uma década.




Antes do impeachment, muitos atribuíam o apoio à solução Temer, maldosamente chamada por alguns de temerária, a uma conta matemática: Dilma Rousseff não tem maioria parlamentar para aprovar reformas ditas fundamentais, algo que sobraria a Michel Temer.

Em cem dias de governo a popularidade do presidente é o retrato da degradação dessa aposta. O que prometia elevar ao primeiro escalão uma equipe de notáveis e cumpriu: notáveis suspeitos de corrupção eram ou passaram a ser investigados pela Lava Jato e afins e tiveram de correr para salvar as próprias peles, ou os apartamentos embargados em áreas tomadas pelas regras do patrimônio histórico, enquanto diziam ajustar as ferramentas para consertar as nossas vidas, alguns deles com vencimentos acima do teto dispostos a convencer a plebe de que direitos constituídos, como acesso ao sistema de saúde, estavam acabando com o país.

Mas não é (só) por ter nomeado uma equipe que mal para em pé que Michel Temer vive agora seu inferno particular. Nem porque não sai da toca ou não se preocupou em ampliar o leque de representatividade para buscar em conjunto saídas para o conjunto da população. Ele, de fato, tinha razão quando dizia que o Brasil precisava de alguém para unificar o país, mas não é porque ascendeu apostando na divisão que caiu em desgraça.

No sistema atual, até o papa Francisco levaria menos de cem dias para substituir o sorriso, a boa vontade e a disposição para entrevistas em rodas vivas de conversas entre amigos por socos na mesa, reuniões dominicais às escuras e o medo de tomar vaia em velório.




Deem ao papa dois dias de negociação com os doadores de campanha ou com o “centrão”, conjunto de partidos sem bala para colocar de pé qualquer projeto próprio mas com calibre de sobra para barrar anseios alheios e a Bíblia seria logo substituída por Dante Alighieri à entrada do Planalto: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais”. Não deve ter tido cargo mais rotatório na história recente da República do que o de ministro da Articulação Política ou da Casa Civil – e isso desde o governo Dilma Rousseff. Não há habilidade que dê conta de atender tanto nanico juntando força para inflacionar a fatura do apoio.

Se está difícil para santos imagine para quem até outro dia usava a residência oficial da Vice Presidência, o Planalto do Jaburu, para pedir dinheiro por fora para a empreiteira investigada por corrupção interessada em ampliar a participação em obras públicas privatizando o Congresso, como ficou desenhada na primeira das 77 delações fechadas por funcionários da companhia até aqui. É a metralhadora ponto cem de que nos falava José Sarney.

O resultado da aventura está na radiografia recém-publicada pelo Datafolha: 10% de aprovação (alguém já dizia ser difícil governar com esse índice), pessimismo em relação à economia, 63% de esperança de renúncia. O presidente, que outro dia foi apontado como o homem do ano, pode até ser estimado pelos amigos da política e de parte da imprensa, mas é avaliado pela população como falso (65%), defensor dos ricos (75%), autoritário (50%) e desonesto (58%).

Nisso o governo afastado e a multidão que foi às ruas pedir o afastamento da presidenta se parecem: em algum momento da história apostaram no peemedebismo como uma cartada de mestre para a conquista da estabilidade e se arrependeram.




Se alguém estiver minimamente interessado em compreender a crise política como a origem, por aqui, de todas as crises, é preciso compreender como loteamos o Congresso com prepostos de interesses privados, nem sempre republicanos, conforme apontam as delações dos corruptores. É preciso entender a lógica do sistema de representação para entender como num país marcado por desigualdades e ausência de direitos, é justamente quem detém os privilégios (inclusive previdenciários) os responsáveis por ditar as regras de cima para baixo, a quem é definido apenas o papel de espectador – qualquer coisa fora isso é tratada com borrachada e bomba de efeito (sic) moral.

A longo prazo essa distância se transforma em desprezo ou revolta. Nessas horas, não basta ter apoio do Congresso para emplacar medidas que não foram suficientemente debatidas na eleição (porque a eleição, por aqui, também é fajuta): a rejeição às medidas e às saídas propostas será apenas compartilhada pelo Parlamento cujos integrantes não votam conforme a convicção, mas conforme o contracheque e a eficiência do achaque.

Enquanto não for quebrado este ciclo iniciado já na campanha, que de saída elimina quem não tem (ou não sabe o caminho das pedras para obter) recursos monstruosos para entrar na disputa em condições desiguais, esperaremos sentados por novas e novas Lava Jato nos próximos anos.

Quem sabe após essa chamada tempestade perfeita a gente não observe, já na próxima eleição, quem tenha como plataforma a disposição em cortar a própria carne e promover mudanças como a redução do número de partidos, alteração de regimes especiais de aposentadoria e a transparência na execução de verbas parlamentares.

Há muito trabalho a ser feito. Enquanto a prioridade for delimitar investigações para estancar sangrias, as saídas políticas serão sempre um gargalo de legitimidade para qualquer outra saída, com ou sem maioria parlamentar.


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