Crítica: Victoria & Abdul

cinema

Reino Unido/EUA, 111min. Direção: Stephen Frears. Roteiro: Lee Hall (baseado no romance de Shrabani Basu). Elenco: Judi Dench, Ali Fazal, Tim Pigott-Smith, Eddie Izzard, Adeel Akhtar, Michael Gambon, Paul Higgins, Olivia Williams, Fenella Woolgar, Julian Wadham.

Adaptado do romance de Shrabani Basu (que não li), Victoria & Abdul gira em torno de uma ideia principal que é simplesmente sensacional: nos apresentar a um outro lado de uma das mais importantes monarcas que já governaram o Reino Unido, a Rainha Victoria. Como o próprio longa informa, já em seus créditos iniciais, a história é baseada “principalmente” em fatos reais; sendo assim, o roteiro de Lee Hall toma certas licenças poéticas aqui e ali e transforma sua história em um misto de drama com uma comédia leve e inocente. E, sim, estes funcionam bem a maior parte do tempo.

A narrativa nos leva a conhecer o indiano Abdul Karim (Fazal) que, convidado a entregar uma medalha à rainha que, à época, era também Imperatriz da Índia, viaja até o Reino Unido junto do amigo Mohammed (Akhtar). A ideia é que, logo após, retornassem a seu país, mas ninguém, provavelmente nem o próprio Abdul, contava com o fato de que ele e Victoria (Dench) se tornariam grandes amigos.

E, embora a dinâmica da dupla seja o principal mérito da produção, é também parte do relacionamento entre os dois que faz com que o roteiro dê alguns tropeços – e mesmo que estes ocorram em quantidade menor do que os acertos, são suficientes para se tornarem problemáticos à narrativa: por um lado, é impossível não se deliciar com uma amizade tão sincera nascida de pessoas tão diferentes, cheia de afeto e inocência; por outro, entretanto, o roteiro cai no erro de se perder em sua própria lógica ao gastar uma quantia considerável de tempo numa tentativa completamente absurda de convencer o espectador que não havia ali mais nada além de pura e simples amizade: há de se ter uma mente muito doentia para sequer cogitar qualquer relação carnal quando tudo o que se vê, até então, é uma inocência quase que fraterna.

Assim como na brincadeira do elefante branco em que ao pedir para alguém não pensar no animal tudo o que cruzará a mente de quem a escuta é justamente o próprio, tal ideia dificilmente teria passado pela cabeça do público e, assim, cenas como aquela em que o munshi conta à rainha que “é a pessoa mais importante de sua vida, provavelmente até mais que sua esposa” e ela, chocada com o fato de que Abdul é casado, diz que “isto muda tudo” e manda-o de volta para seu país para que possa trazer a moça consigo soam apenas ridículas e um desperdício de tempo. Isto para não mencionar o fato da monarca pedir aos médicos reais para que o casal seja examinado já que ainda não possui filhos, no que parece simplesmente, mais uma vez, uma necessidade de nos mostrar como a rainha aprovava sua união. Sendo assim, a patética ideia de imaginar Victoria & Abdul como um casal passa a ser cogitada justamente em consequência da boba tentativa do roteiro de descartá-la.




Mesmo assim, a verdade é que a amizade entre os dois é simplesmente encantadora por conta de elementos como a audácia do jovem em dirigir a palavra à rainha, que é o que provavelmente fez com que se interessasse por ele em primeiro lugar, por estar tão acostumada a ser tratada com reverência e cerimônia; seu interesse pela cultura indiana – e até uma certa ignorância em relação a esta; a intimidade crescente entre os dois retratada em momentos como aquele em que Abdul toca o joelho da rainha para lhe explicar que uma certa palavra em urdu tem o mesmo som de “knee” (joelho, em inglês), algo que poderia ser considerado completamente inadequado mas, ao invés disso, é encarado com naturalidade por ela. Assim, é fascinante perceber como uma soberana tão poderosa, a ponto de que sua corte não podia nem lhe fazer contato visual, se mostre tão aberta a um, até então, estranho, quase que como se, pela primeira vez em muito tempo, estivesse conseguindo ter um relacionamento humano real que independia de sua coroa.

E é aí que entra a brilhante atuação da veterana Judi Dench: sempre comedida, a atriz demonstra sua autoridade na pele de Victoria sem jamais precisar levantar seu tom de voz ou recorrer a artifícios exagerados já que, até mesmo quando tem sua própria sanidade mental questionada diante de toda a corte, exerce seu poder como rainha da Inglaterra apenas enumerando todos seus feitos.

Neste sentido, aliás, o design de produção de Alan MacDonald reconstrói, com maestria, a Inglaterra e a Índia do século XIX recriando, inclusive, uma caracterização perfeita para a monarca. Somado a isto, a narrativa, em conjunto com a bela fotografia de Danny Cohen, ainda dedicam momentos a pequenas sutilezas que servem para enriquecer e tridimensionalizar ainda mais seus personagens: da curiosidade de Victoria em provar uma manga ao encantamento de Abdul ao perceber o vapor que saía de sua boca durante o frio europeu, detalhes como estes fazem com que a dupla se torne ainda mais humana.

E, por fim, falando em humanidade, é brilhante que, assim como no dia em que se aproximou de Victoria, Abdul se despeça dela justamente com o ato que os aproximou: beijando seus pés. E que, por mais que isto não seja um fato verídico, Victoria tenha realizado seu desejo de conhecer o Taj Mahal, mesmo que através de uma estátua, após sua morte.

Sobre a autora:
Patrícia Miguez é crítica de cinema e fotógrafa, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, além de fazer parte do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. 

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