Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

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Valerian and the City of a Thousand Planets, França, 137min. Direção: Luc Bresson. Roteiro: Luc Bresson. Elenco: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Herbie Hancock, Kris Wu, Sam Spruell, Alain Chabat, Rutger Hauer.

Ao final dos 137 cansativos minutos de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, o primeiro pensamento a cruzar minha mente foi o de que jamais recuperaria as mais de duas horas de vida perdidas e em todas as outras atividades que poderia ter realizado durante este período; com este devaneio, me dei conta de que mesmo que tivesse passado este tempo enxugando pedras de gelo, haveria melhor proveito.

Ambientado num cenário futurístico, a narrativa segue o jovem Valerian (DeHaan) em uma missão que nunca é completamente explicada até seu desfecho; acompanhado da agente Laureline (Delevingne), o garoto deve lutar contra uma misteriosa força que ameaça Alpha, uma metrópole que serve de lar para milhares de espécies de diferentes planetas.

É impossível negar que o longa seja esteticamente belo: seu design de produção cria com maestria uma série de diferentes universos, seja o planeta Mül e seu azul profundo, os desertos de Kyrian com suas nuvens coloridas ou o caos de Alpha – tudo isso aliado a uma bela direção de fotografia que sempre aposta em destacar as cores corretas, criando uma estética absolutamente esplêndida.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas se inicia com uma bela sequência que estabelece a passagem do tempo desde algumas das primeiras missões espaciais na década de 1970 até o século XXVIII, quando começa o arco narrativo principal, ao som da belíssima Space Oddity, de David Bowie – e há uma pequena elipse metalinguística que brinca com a razão de aspecto, saindo do 4:3 da época e caminhando gradativamente ao 2.35:1.




É uma pena que as poucas qualidades do longa terminem exatamente aí: seu roteiro é tão pedestre que muito possivelmente um orangotango com luvas de boxe esmurrando aleatoriamente as teclas de um computador teria chances melhores de produzir algo com mais coesão e coerência; o filme poderia ser utilizado por professores de roteiro em suas aulas, já que nele é possível encontrar facilmente todos os problemas de narrativa possíveis e imagináveis.

Valerian, seu protagonista, tem a complexidade de uma ameba, enquanto Laureline se mostra um pouco mais complexa, chegando quase ao nível de uma planária – é impossível sentir qualquer tipo de simpatia por qualquer um dos dois ou sequer se importar com seus destinos; neste sentido, aliás, o filme parece simplesmente atirar os personagens um a um contra o espectador sem que nunca haja qualquer tipo de desenvolvimento ou tridimensionalidade.

Ainda, a necessidade de criar um romance entre Valerian e Laureline é tão desesperada que os dois passam boa parte da projeção discutindo seu relacionamento em uma série de diálogos tão pífios e vergonhosos que dizer que “beiram o ridículo” seria um grande elogio.

Como se não bastasse, o “arco” romântico dos dois ainda culmina em uma última cena em que, depois de sua insistência em pedir a mão de Laureline em casamento, Valerian entra em uma discussão com esta por conta de um conversor (um McGuffin – termo popularizado por Alfred Hitchcock e que serve para descrever um objeto com pouca ou nenhuma explicação narrativa mas que, de alguma forma, serve para mover a trama) que não deseja entregar a seus donos originais, os Pearlshabitantes do planeta Mül. Usando argumentos como “nós não temos autoridade sobre isto” e “temos que seguir as regras” segundos após ter dado uma bofetada no Comandante Filitt (Owen), tecnicamente seu superior (o que não faz absolutamente nenhum sentido, mas nada em Valerian e a Cidade dos Mil Planetas o faz), o agente finalmente decide devolver o objeto às criaturas e isto acaba por ser motivo suficiente para que Laureline perceba que ele entendeu o significado do amor – o que não apenas soa patético por si só, mas também serve como solução extremamente preguiçosa e chué para o conflito amoroso do casal.




Sobre elementos que não fazem sentido, a coleção vai ainda mais além, já que o roteiro não faz nenhum, nem mesmo dentro de sua própria lógica (inexistente, diga-se de passagem): momentos como aquele em que o Ministro (Hancock) pede para que Valerian e Laureline coloquem roupas mais apropriadas por estarem com trajes de banho e a moça aparece instantes depois apenas com um biquíni de cor diferente do primeiro ou como um outro no qual ela afirma ter um aparelho de tradução para cinco minutos depois não conseguir se comunicar com um extraterrestre e exigir que este “chame um tradutor” fazem com que sintamos um misto de frustração e vergonha alheia.

Como se não bastasse, as tentativas de criar gags e piadas também soam patéticas: um acidente que ocorre, por exemplo, porque Laureline confunde o número 81 com 18 por estar de ponta cabeça não apenas resulta em uma tentativa desesperada e desnecessária de criar humor como também acaba por servir como estereótipo machista.

O longa também conta com problemas seríssimos de ritmo: Laureline e Valerian passam pelo menos um quinto do tempo tentando salvar um ao outro e, no meio da salada narrativa criada por Bresson, este ainda tem tempo para inventar mais uma meia dúzia de cenas ridículas, como aquela em que Laureline, mais uma vez no estereótipo da mulher burra, decide tocar numa borboleta que acaba causando mais perigo (o que se torna cada vez mais entediante e cansativo, se é que isto é possível) ou ainda mais discussões sobre o relacionamento dos dois personagens quando um tenta resgatar o outro de algum grande perigo que não adiciona nada à narrativa.

E é impossível falar de elementos que não adicionam nada à narrativa sem mencionar Bubble, a personagem vivida por Rihanna, que obviamente foi adicionada ao casting apenas como caça níquel: além de uma performance de cabaré mutante, sua personagem não adiciona absolutamente nada à trama e tem um fim com menos sentido ainda. Sem a menor lógica (inocência minha ainda esperar alguma lógica nesta altura do campeonato, mas divago), a alien simplesmente afirma que não irá resistir porque “provavelmente se feriu no combate”, para logo em seguida fazer mais um discurso piegas sobre a importância do amor e finalmente virar areia. Sim, areia. Aliás, é até curioso que Bubble, sendo artista, mencione algo sobre “arco dramático”, não apenas porque o roteiro parece ter sido escrito por alguém que não faz a menor ideia do que isto signifique, mas por vir de uma personagem que claramente não tem um.

Para finalizar, na tentativa amarrar todas as pontas soltas de uma vez, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas nos “presenteia” com uma explicação final com direito a flashbacks, justamente no momento em que seu protagonista decide revelar que a princesa do povo de Mül havia o escolhido para ser “guardião de sua alma”, o que faz menos sentido do que um peixe palhaço andando de monociclo enquanto faz malabarismo – embora a visão deste último seria ao menos divertida, creio eu.

No fim das contas, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas se estabelece como uma obra visualmente rica e bela – o que não serve de nada, considerando ser tão descerebrada e estúpida.

avatardpSobre a autora:
Patrícia Miguez é fotógrafa e formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu.

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